a seleção eficaz

30/03/2009 § 4 Comentários

braecu

Pode ser que tenha sido a altitude. Eu, quando cheguei, levava meu sedentarismo ao limite em qualquer caminhada. Pior se era uma subida, e em Quito são muitas. Se os franceses tem mais de um queijo para cada dia do ano, os quitenhos podem completar o calendário subindo diferentes ladeiras entre 1º de janeiro e 31 de dezembro.

Mas os 2.900 metros que afastam a capital equatoriana do nível do mar não podem ter sido o único responsável. Porque é uma questão de glóbulos vermelhos no sangue, que se ganham ou se perdem com o tempo, de acordo com as necessidades de oxigenação do corpo. Muitos jogadores do Equador não vivem na altitude. Jogam na Espanha, no México, no litoral. E, mesmo assim, correram muito mais que qualquer brasileiro.

Tanto que me senti identificado com a Seleção. Nas arquibancadas – brasileiro só – me vi cercado de equatorianos por todos os lados. Como uma ilha de resmungos silenciosos e pequenos atos de desesperação em meio a tantas esperanças de vitória. ¡Sí, se puede! – diziam, cantavam, gritavam. Eu não dizia nada. Estava amuado, inibido, quieto, tratando de ver e só ver. Por isso, não precisei defender-me como se defendeu a Seleção. Ambos, no entanto, eu e o time, estávamos em estratégia de sobrevivência. A zaga corria, Julio César defendia e eu sofria a cada ataque equatoriano.

Não ligo tanto para futebol a ponto de patrocinar uma discussão sobre as virtudes e defeitos desta ou daquela equipe. Muito menos para dar um murro na cara de alguém que torce pelo adversário. Sou muito mais como o mendigo de Eduardo Galeano, um pedinte do bom futebol, que percorre o mundo de chapéu estendido suplicando “uma linda jogada, pelo amor de deus”.

Faz tempo que não vejo uma obra de arte futebolística assinada por um gênio da camisa amarelinha. A última, que não me sai da memória, surgiu das chaleiras de Ronaldinho – então gaúcho – contra a Venezuela. Isso faz sei lá quanto tempo. O mesmo Ronaldinho que hoje é milionário e ontem mal tocou na bola.

Talvez, de tanto que as equipes europeias contratam nossos querubins mal começam a botar as asinhas de fora, nosso futebol tenha endurecido. A Itália retranquiera, que defendendo – e não atacando – conseguiu a última Copa, se refletiu no Brasil deste domingo: um time que não correu, que preferiu chutar a bola pro alto a tocá-la no pé e evitar os gols em vez de marcá-los. E – a cada falta, escanteio ou tiro de meta – quis deliberadamente matar o tempo e o torcedor.

Éramos poucos no estádio Atahualpa. Se fôssemos mais, poderíamos, talvez, dar voz ao gol de Julio Baptista, tão silencioso quanto chorado, e em silêncio comemorado. É horrível ter que engolir um grito. Ainda mais se esse grito é mais que um grito, se é o vômito das seguidas doses de amargura empurradas goela abaixo a cada ataque bem armado e mal sucedido do time adversário. Pior se o gol nasce de uma das três únicas vezes que a Seleção pôde chegar à meta equatoriana e interromper o dia de folga do goleiro Cevallos.

Odeio falar de futebol usando cifras de Wall Street. Tudo é produtividade hoje em dia, e por isso a Seleção é tão eficiente e tão triste. São onze profissionais muito bem pagos para manter a máquina em funcionamento, da maneira mais objetiva possível. O resto de nós, pobres torcedores, temos que nos contentar com os resultados – que, no fim das contas, ultimamente tem sido positivos.

Das quatro últimas Copas, o Brasil levou duas e chegou à final de outra. Quer coisa melhor?
 
Eu, sim, gostaria. A competição talvez perca muito de seu sentido quando se transforma em negócio. Quando entramos num jogo, todos queremos ganhar, claro. Mas a que preço? Preferiria um Brasil mais moleque, menos profissional e mais arteiro, menos eficiente, menos vencedor e mais espontâneo. Mais coletivo, sobre tudo. Que jogasse as eliminatórias como se joga uma pelada na praia, fazendo graça para impressionar as morenas que tomam sol.

Uma Seleção que transformasse o jogo num espetáculo de dribles e boas jogadas, e que desse menos importância para a bola na rede do que para o gol, o grande momento do futebol, que só é grande quando grande é o futebol que o antecede.

Bom seria ir ao estádio como quem vai ao teatro, ao cinema, ao circo. Para sofrer, chorar, rir, se irritar ou divertir por causa da obra, dos seus meandros, suas tragédias, dramas, altos e baixos – não por causa de um resultado.

O que foi a Seleção domingo? Uma boa defesa, sem dúvida. Perdi as contas de quantas vezes escutei equatorianos elogiando o porterazo Júlio César. Um ataque eficiente, talvez. Nesses termos, o exato oposto foi o Equador: uma defesa tão ruim que vazou em 33 por cento das oportunidades de gol do adversário, um ataque tão horrivelmente péssimo que poderia ter feito dez gols e acertou apenas um.

Porém, vi a alegria que cada jogada, cada toque de bola Tricolor provocava na torcida ao meu lado. E também a angústia do gol jamais marcado, o êxtase da meta por fim alcançada. Pagaram para ver um espetáculo – e viram. Torceram para um time que o tempo todo correu, tocou, buscou uma vitória – que não veio. E ninguém ficou triste.

– Antes nos hacían bailar a nosotros, hoy les hicimos bailar a ellos.

Simples assim. Enquanto isso, eu confiava na salvação brotada dos pés de algum atacante brasileiro, de Luís Fabiano, de Ronaldinho, de qualquer um desses cidadãos apáticos que, num momento de inspiração, pudessem driblar um ou dois ou três e de qualquer maneira balançar a rede. Aconteceu. Mas, e daí?

Talvez no futebol os brasileiros sejam como na política: vivem – ou morrem – esperando que o messias tire o país do buraco, seja com um gol ou um governo. Os messias aparecem, sempre aparecem, goleiam ou governam, mas tudo continua igual na próxima partida, no próximo mandato e principalmente na torcida, que volta a esperar o surgimento de outro salvador. E assim vamos: dando vexame nisso, servindo de exemplo naquilo, mas sempre – sempre – classificando para a Copa do Mundo. (cc)

“correa no es más de lo mismo”

27/03/2009 § Deixe um comentário

Francisco Hidalgo Flores es sociólogo, miembro del Sipae (Sistema de Investigación de la Problemática Agraria en el Ecuador) y editor de la Revista Espacios. En esta entrevista, defende que el gobierno de Rafael Correa, a pesar de todavía permanecer anclado a algunas prácticas desarrollistas, no es “más de lo mismo”.

El experto reconoce que el presidente podría haber ido mucho más allá en los cambios, pero, por circunstancias que pasan por la sostenibilidad de su proyecto para el país, la crisis financiera y la falta de ingresos para mantener los bonos solidarios, analiza que el correísmo ha eleigido el camino más fácil:

¿Cómo define usted al gobierno Correa?

Primero, hay que decir que el cambio que está haciendo Correa deja atrás una república oligárquica atrasada y avanza hacia una república moderna burguesa. En segundo lugar, por una serie de factores históricos, él llegó a sintetizar un proceso muy largo que arrancó el 1990 con el levantamiento indígena de la Conaie (Confederación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador) y que marcó un muy interesante proceso de lucha anti oligárquica y anti neoliberal del movimiento popular en Ecuador. Y, tercero, que él nunca tuvo un programa de izquierda radical, pero sí de izquierda moderada. Eso hay que entenderlo.
En Ecuador estuvo vigente un pacto oligárquico a lo largo del siglo 20, que fue especialmente muy fuerte en los años 60 y 70. La estructura económica del país no se basó en una burguesía industrial –pongamos el ejemplo más claro en América Latina, la burguesía de Sao Paulo, muy fuerte y muy sostenida–. La industria nacional es relativamente pequeña y bastante subordinada a las transnacionales. Y la producción principal en Ecuador es el petróleo, al lado de la primarización agroexportadora, sobre todo del banano y camarones.
Sobre esa estructura oligárquica se monta la aplicación del modelo neoliberal, que aquí no implica ninguna modernización. Al contrario, desmonta lo poco que hubo de apoyo estatal a la industrialización y avanza hacia un modelo de liberalización oligárquica. El ejemplo más clásico va a ser la crisis del sistema bancario del año 1999, que luego da paso a la dolarización.
Las formas políticas son también oligárquicas. Los partidos no se consolidan como partidos ideológicos –eso está muy claro ahora con todo el derrumbe de la democracia cristiana– y tienen una estructura clientelar. Por alguna razón, el principal representante político de la derecha en los últimos diez años es Álvaro Noboa, el principal oligarca del país. Entonces lo que hace Correa es dejar atrás esa república oligárquica y avanzar hacia una república capitalista moderna que busca una industrialización, una sociedad civil, una nueva estructura legal.

¿Cuáles son los orígenes de esta república oligárquica?

Viene del viejo sistema hacendatario. La estructura económica del Ecuador fue hacendataria. No lo resuelve ni la revolución de independencia de España ni la revolución liberal. Luego las grandes plantaciones heredan esa estructura. El mejor ejemplo es otra vez Noboa. Su fortuna la hace su padre sobre la base de producción y exportación del banano, y éste sigue siendo todavía el principal proceso.
Eso le da a Correa una fuerza. Porque no es un cambio desde arriba, sino un cambio desde abajo. Nos recordemos del segundo elemento: en Ecuador hay un gran movimiento popular en los años 90 que no descansa, es muy persistente, bajo un programa anti oligárquico y anti neoliberal en el cual el pueblo indígena va a ser muy importante. El movimiento indígena conduce este proceso desde el 1990 hasta el 2003. ¿Qué pasa en el 2003? Gana un presidente –Lucio Gutiérrez– con apoyo del movimiento popular, particularmente del movimiento indígena. Pero él es un personaje que no comprende y no asume el momento histórico en el que se encuentra y desprestigia al movimiento indígena y popular clásico, que formaron parte de su gobierno. Entonces surge el movimiento, digamos, pequeño burgués, ciudadano, que es de donde emerge Correa. Él capitaliza este largo proceso de oposición popular, este programa anti neoliberal y anti oligárquico, pero por encima, más allá del movimiento popular que lo generó, y montado sobre un movimiento muy frágil que es el movimiento de los ciudadanos, bajo un programa ciudadano. No asoma como un gobernante de izquierda, sino que merece el apoyo de distintos sectores burgueses. Ha habido sectores de la burguesía que han apoyado Correa desde el inicio.
Tercer elemento: Correa no viene de una tradición de izquierdas, viene de una tradición académica. Casi no vive este proceso de cambio en los 1990, es joven, estudia en EEUU, luego en Bélgica… Tiene un discurso anti neoliberal pero no tiene una raíz anti neoliberal. Es un personaje inteligente, carismático, guapo, joven, aprende muy rápido, es muy sagaz en la política y además es un “mono serrano”, como decimos aquí: tiene algo de costeño y algo de serrano. Nace en Guayaquil, tiene esa desfachatez del costeño, pero tiene también ese rasgo intelectual que tanto gusta en la sierra. Entonces ese es el personaje que logra integrar electoralmente al país. Y eso obviamente va a jugar un importante papel en este liderazgo individual.
Ahora, sin lugar a dudas, ha hecho cosas importantes. La derecha política está absolutamente destrozada. Él ha contribuido de manera muy importante a ello. Ha orientado ciertas políticas que llegan directamente al beneficio popular, con los bonos. Se ha peleado de alguna manera con EEUU. No es poco haber expulsado a quien manejaba la oficina de la CIA en Ecuador. Y ha apretado algunas tuercas a ciertas transnacionales y a algunos sectores oligárquicos. Se mueve en un equilibrio político. A veces da a unos, a veces da a otros. Pero marca, sin lugar a dudas, este proceso de cambio del Ecuador actual.

¿Geopolíticamente, en América Latina, a quién estaría más cerca Correa ahora mismo?

Creo que está más cerca de Lula que a Chávez. Creo que hay algunas similitudes con Brasil, guardando las distancias de la enormidad de Brasil… En Brasil hay también un movimiento social muy grande, muy diverso, muy rico, que presionó por al acceso de Lula al gobierno, pero a lo cual Lula, desde el gobierno, no responde a sus demandas. En algunas cosas sí, en otras no, más no que sí. Y Lula es un proceso, me parece, también de modernización en Brasil, pero no de revolución. Así que se parece más a Lula que a Chávez, en el fondo. Pero es un personaje muy hábil. Creo que él está muy conciente de que hay un movimiento internacional en el que la unipolaridad de EEUU –su hegemonía única– se desmorona y vamos hacia un mundo multipolar. Y Correa apuesta en una regionalización del sur. Una de sus apuestas más importantes está en la Unasur (Unión de Naciones Suramericanas), en el Banco del Sur y en esta coalición de fuerzas de defensa del sur.

También ha buscado inversión extranjera de otros países, ¿no? Han llegado propuestas de China, de Irán… ¿Qué quiere con eso?

Correa es conciente y no se come el cuento de una obsecuencia total, una sujeción total a EEUU. Y obviamente las transnacionales gringas tienen ahora menos dinero para invertir en otros países. Él ha recuperado una “política de país”, de negociación a nivel internacional. Pero creo que en la esencia lo que quiere es avanzar en la regionalización. Correa necesita de una moneda común del sur para poder sustituir la dolarización por una moneda fuerte y regional. Eso es crucial para el Ecuador, porque una desdolarización reluce como inevitable en el actual momento internacional y arrastraría consigo la gobernabilidad si acatada por él. Entonces él necesita salir del dólar o sustituirlo con algo, que sería una moneda del sur. Eso es crucial tanto para su proyecto político como para la economía del país.

¿Usted ve algunas contradicciones ideológicas en el gobierno Correa? Hago la pregunta pensando en el tratado de libre comercio con la Unión Europea…

Hay una contradicción entre la tendencia en la cual se embarca –y que le coloca en el gobierno– y lo que él a veces hace en el gobierno. No es que él se traiciona. Creo que sigue claramente el proyecto de modernización del capitalismo, digamos, que no está arrodillado a EEUU y que apuesta en la integración regional. En ese escenario, él no se traiciona a sí mismo, pero sí traiciona el aspecto más profundo, más radical del programa anti neoliberal y anti oligárquico. Porque Correa tiene una visión productivista. El otro elemento es que hay una constitución muy buena en Ecuador, que está por encima de Correa. Nuestra constitución es un producto nacional, o sea, obedece a los puntos más altos de la lucha social. Y es en eso que Correa entra en contradicción, cuando elige el modelo del progresismo extractivista. Porque él está apostando en un desarrollo de la minería, del petróleo, de los biocombustibles, de la agroempresa. Para él, ahí está el motor para el desarrollo.

La constitución garantiza derechos a la naturaleza, pero la explotación de la minería y del petróleo tiene un histórico serio de impactos socio ambientales, sobre todo en la Amazonía. Y la constitución fue impulsada por el gobierno Correa. ¿Cómo se da eso?

Es que Correa no es quien redacta la constitución. En última instancia el autor de la constitución fue el que fue su presidente, Alberto Acosta. Por eso es tan importante seguir el debate entre Acosta y Correa. ¿Por qué se distancian? La razón es el modelo de desarrollo. Acosta dice: vamos a una industrialización y, con ella, se generará nuevo valor, el valor agregado, sobre procesos de regionalización y descentralización y con el apoyo a economías populares y todo que eso implica. Ese es el modelo de desarrollo social y solidario. La riqueza del Ecuador no está en la naturaleza, sino en la industrialización. Ese es un tema. El otro es la democracia. No solamente el proceso tiene que decir que es democrático, sino que cada cosa que haga tiene que ser democrática, buscar consenso, suscitar debate, buscar participación. Correa dice que es un absurdo que, siendo el Ecuador un país con tantas riquezas naturales, no las explote. Además está pensando en una gobernabilidad política basada en subsidios más que en organización. Él no tiene una estructura organizativa, no la ha construido. Esta es una diferencia fuerte con Lula y con el PT. Aquí no hay una base social con estructura. Es un problema bastante complejo y eso lo sabe él. Correa sabe que un proceso de desarrollo que respete la naturaleza, que no explote el petróleo o la minería tiene impactos políticos que pueden poner en riesgo su estabilidad. Y él no quiere correr riesgos. Entonces es más fácil abrir las puertas para las transnacionales y explotar petróleo, explotar minería, y de ahí sacar la plata para poder sostener esta política de subsidios.
La constitución está por encima de Correa, le rebasa, le supera, recoge lo mejor del proceso histórico del Ecuador – es decir, el buen vivir, la plurinacionalidad, los derechos de la naturaleza, la economía social y solidaria, la economía popular, la soberanía alimentaria, que es lo mejor que tiene la constitución, que es parte de un proceso histórico, lo recoge, lo asume, lo lleva a su punto más alto. Pero no nos olvidemos de que Correa se desarrolla sobre la base del desprestigio que tiene el movimiento popular –particularmente el movimiento indígena– después de su participación en el gobierno de Gutiérrez. Eso es crucial. Porque el portador de todo eso, durante este largo periodo, va a ser el movimiento indígena. Pero, debilitado éste, fracturado, se vuelve el movimiento indígena una referencia folclórica mucho más que una referencia política.

La constitución está por encima de Correa, claro, pero ¿qué pasa con una Ley de Minería que entra en contradicción con el texto constitucional?

Claro, ahí viene el problema de los límites que tiene las leyes. La constitución está arriba de Correa – porque es la imagen del proceso histórico que tenemos en este momento – pero su aplicación implicaría en una revolución muy profunda, que implica costos políticos. Frente a ese desafío, Correa se queda en lo suyo, en lo que está, impone este nivel. Claro, entra en contradicción con la constitución, ésta es su principal contradicción: la contradicción con el sentido histórico, con las banderas y con el programa máximo. Ahí puede estar su debilidad en el momento en que el conjunto de los movimientos sociales y populares asuma esta constitución. Porque una cosa es votar por la constitución y otra cosa es luchar por defenderla. Lo segundo implica un proceso de conscientización bastante más complejo.

¿Qué le falta para un cambio más profundo?

Asumir realmente un modelo de desarrollo social y solidario. O sea, realmente construir un modelo apoyado en economías populares, que el estado apueste en las economías populares.

¿Cómo eso puede ser construido en la práctica?

Por ejemplo, en el tema que más manejo, soberanía alimentaria, el estado puede implementar políticas efectivas de apoyo a agriculturas campesinas para la producción alimentaria. O construir las leyes con participación y no entre cuatro expertos. Es decir, buscar un acuerdo nacional para las leyes de minería, tierra y aguas… El otro tema era democracia, en el debate con Acosta. Correa dijo recién en una de sus cadenas sabatinas, él dijo: no soy presidente de la república, soy presidente del congreso, de la función judicial, de las superintendencias… No puede pasar nada en el país sin que yo tenga una voz de decisión. Tiene una posición muy centralista, muy vertical, no participativa.

¿Su base social es construida por políticas asistencialistas, pues?

Sí, necesita 7 mil millones de dólares al año. Eso le daba el petróleo a 160 dólares, pero un barril a 40 o a 30 dólares no le da. La caída del petróleo también es una presión política desde las grandes transnacionales contra los gobiernos estatistas, sobre todo cuando se piensa en Chávez o Irán, no tanto en Ecuador. Ese modelo de gobernabilidad política requiere ingresos altos y eso no le puede dar una economía social y solidaria. Es uno de los grandes debates actuales, sobre la modernidad (¿?) y el progreso. La famosa metáfora de Walter Benjamín: si vas a hacer progreso, te destruyes. Ese es el debate que está presente en el Ecuador. Correa es el ángel de la historia que avanza hacia la destrucción, a nombre de la historia.
Pero Correa no es más de lo mismo. Eso es falso. Correa no es neoliberal, eso no es cierto. Aunque tenga rasgos neoliberales. Es un proyecto de extractivismo con un mercado nacional y con un proceso de regionalización del sur. ((i))

aquele entrevero diplomático

27/03/2009 § Deixe um comentário

No dia 21 de novembro de 2008, a chancelaria brasileira chamou a consultas o embaixador em Quito, Antonino Marques Porto. Na época a imprensa colocou em xeque o histórico de boas relações entre Brasil e Equador. A culpa – diziam – era de Rafael Corra, cujo governo havia adotado uma postura agressiva e autoritária no que diz respeito à dívida que mantém com o BNDES.

Fontes do Itamaraty, no entanto, consideram a medida algo normal no mundo diplomático. “As consultas são um sinal de desconforto, claro, mas também mostram-se inevitáveis entre países que estreitam suas relações.” O funcionário – que prefere não se identificar – cita como exemplo a recente polêmica envolvendo o refugiado italiano Cesare Battisti. “Ao saber que o Brasil concedeu asilo político a Battisti, Roma chamou seu embaixador a consultas. A relação entre os dois países, porém, permanece dentro da normalidade.”

Apesar disso, o embaixador Antonino Marques Porto foi proibido pelo Ministério das Relações Exteriores de conceder qualquer entrevista ou dar declarações sobre o tema. Uma nota oficial do Itamaraty esclarece que a razão de sua estada de quase dois meses em Brasília deveu-se “ao anúncio equatoriano, feito sem prévia consulta ou notificação ao governo brasileiro, de submeter à corte da Câmara de Comércio Internacional uma dívida contraída junto ao BNDES, relativa ao financiamento da construção da hidrelétrica San Francisco”.

Temos que lembrar que a tal usina não funcionou como deveria. Suas turbinas apresentaram problemas logo nas primeiras semanas de funcionamento e a geração de energia teve que ser interrompida. Por estas e outras, a Odebrecht, empreiteira responsável pela obra, foi expulsa do Equador.

O Itamaraty considera que a natureza das medidas equatorianas não se haviam coadunado com o espírito de diálogo, amizade e cooperação que caracteriza as relações entre os dois países. “Foi um problema de forma, não de fundo.” Ou seja, o que desagradou ao governo brasileiro foi a maneira como as coisas foram conduzidas e não a decisão de apelar à arbitragem internacional.

Apesar dos pesares, o embaixador brasileiro retornou a Quito em 13 de janeiro de 2009.

A amizade bilateral com o país andino se reflete, por exemplo, no aumento de 33 por cento nas trocas comerciais em relação a 2007. No ano passado, o fluxo de mercadorias atingiu a cifra de 920 milhões de dólares, com um superávit de 878 milhões para o Brasil. De janeiro a fevereiro de 2009, o intercâmbio foi de 89 milhões.

Mas as boas relações vem de antes. Em março do ano passado, quando a Colômbia bombardeou um acampamento das Farc no Equador, [ver o caso de angostura] foi o Grupo do Rio quem mediou a crise diplomática entre os dois países e repreendeu o governo de Álvaro Uribe pelos ataques.

Rafael Correa e Lula são parceiros com interesses bastante parecidos no que diz respeito à criação do Banco do Sul, que deve entrar em operação ainda este ano com um capital de 10 bilhões de dólares. Servirá como um organismo regional de crédito. Ademais, o presidente equatoriano desde 2006 vem manifestando a intenção de ingressar no Mercosul, ainda mais agora que a Comunidade Andina de Nações ameaça repreender o Equador por haver estabelecido medidas protecionistas à entrada de 650 produtos estrangeiros.

Historicamente, foi o Protocolo do Rio de Janeiro que estabeleceu a paz entre Equador e Peru depois de uma guerra territorial em 1942. Mas os dois países voltariam a enfrentar-se ao longo do século XX. Assim, em 1995 a América do Sul assistiria à Guerra do Cenepa. Novamente, o Brasil assumiria protagonismo nos acordos de cessar-fogo com a Declaração do Itamaraty e, logo, com o Acordo de Brasília.

É verdade que desde a época da independência, no século XIX, Peru e Equador tem problemas com suas fronteiras. Também é verdade que muitos equatorianos ainda hoje não engolem as resoluções do Protocolo do Rio de Janeiro, que significou para o país a perda de metade de seu território amazônico em favor do Peru. Não é difícil ver e confundir-se com mapas políticos, muito comuns por aqui, que demarcam as fronteiras do Equador por encima do Protocolo de 1942.

Atualmente há 30 projetos de cooperação entre Brasília e Quito nas áreas técnica, social, educacional, cultural, diplomática, de promoção comercial e defesa. O Itamaraty informa ainda que entre 515 e mil brasileiros vivem regularmente no Equador. ((i))

ecuavoley supera o futebol

27/03/2009 § Deixe um comentário

ecuavoley

Como em todos os países latinoamericanos, o futebol é jogado e amado por muitos no Equador. O rádio e a tevê transmitem os principais jogos do Campeonato Equatoriano, da Copa Sulamericana e da Taça Libertadores da América – cujo atual campeão, aliás, é a equatoriana LDU. Os torcedores, por sua vez, costumam lotar os estádios em dias de clássico. Mas, nas praças de Quito, nos fins de semana ou de expediente, o esporte que domina é o “ecuavoley”.

Como se pode imaginar, a palavra vem da junção entre Ecuador (forma castelhana de escrever o nome do país) e volleyball (maneira inglesa de grafar o esporte). Nada mais é, pois, que um vôlei à equatoriana, uma variação do vôlei tradicional. No Equador criaram o ecuavoley assim como em Birigui, no interior de São Paulo, inventou-se o biribol.

Em vez de seis para cada lado, o ecuavoley se joga com seis pessoas ao todo: três pra lá e três pra cá. A rede também é diferente, mais alta e mais estreita. É impossível dar cortadas (até porque a estatura média dos equatorianos não ajuda) e é permitido “conduzir”.

A bola não é a que estamos acostumados a ver em jogos de vôlei, mas de futebol mesmo. É verdade que agora já se fabricam bolas específicas para o ecuavoley, mas a inspiração para elas descansa no bom e velho capotão.

Porém, não se joga com o pé – não se trata de futevôlei. Os equatorianos preferem as mãos. O jogo consiste num melhor de três sets, cada um com doze pontos. Diferentemente do vôlei tradicional, que abandonou a vantagem, aqui em Quito para pontuar é preciso haver sacado antes.

O ecuavoley está muito mais presente nas praças do que nas quadras. Claro, existem campeonatos municipais, provinciais e nacionais, mas o esporte em sua essência popular pode ser visto nos gramados do centro da cidade ou em qualquer outro espaço em que se possa pendurar uma rede e demarcar a área de jogo com giz ou barbante.

Às tardes, muita gente se reúne nos parques El Ejido ou La Carolina, em Quito, para assistir, jogar ou apostar nas melhores equipes que vão se formando entre amigos e familiares.

Ainda que seja apenas um dólar cada um, os equatorianos gostam de apostar. Sempre em dólar, porque desde 1999 o país não tem moeda própria. O episódio conhecido como “feriado bancário” atentou contra as economias da população e acabou com a divisa nacional, o sucre, mas não abalou o costume de botar dinheiro no ecuavoley.

José Valdés organiza campeonatos todos os domingos no parque El Ejido. É artista e, de prancheta na mão, vive convocando seus amigos artistas – que todos os fins de semana montam suas pequenas exposições ao redor do parque – para jogar uma partida entre uma venda e outra. Apostando, claro.

“Um dolarzinho cada um, ou dois. A melhor equipe do dia leva o dinheiro e também um troféu”, explica José entre um gole e outro de cerveja. Enquanto isso, observa a grande final do dia e fala de sua juventude como jogador (de futebol) no Deportivo Cuenca. “Me quebraram a tíbia e o perônio. Aí já não pude mais jogar. Agora, só ecuavoley.”

>> publicado no uol

“la verdad sobre la minería”

24/03/2009 § Deixe um comentário

Econtrei esse manifesto nas ruas de Quito:

El gobierno ecuatoriano ha aprobado recientemente una ley que permite la apertura en el país de minas a cielo abierto proclamando la minería a gran escala como la nueva fuente de riqueza y empleo, y sosteniendo que se trata de una actividad sostenible.

Pero, ¿cuál es la realidad de la minería a gran escala?

La explotación minera no garantiza aliviar la pobreza. Todo lo contrario: las provincias mineras de Perú y Bolivia tienen los índices de pobreza más altos de sus países, más del 70% de su población vive abajo del límite de pobreza. La minería tampoco constituye una fuente importante de empleo, pues no necesita de mucha fuerza laboral humana dado el nivel de tecnificación del proceso de extracción. Las pocas personas que acceden a un empleo en la minería se exponen a un trabajo peligroso y mal remunerado. Además, la actividad minera destruye fuentes de trabajo, ya que es incompatible con otras actividades productivas como la agricultura, la ganadería y el turismo.

La minería “responsable” y “sustentable” no es posible. No existe una sola mina sostenible en todo el mundo. Los emprendimientos de extracción y procesamiento de minerales comprenden una serie de acciones que producen significativos impactos ambientales que perduran en el tiempo. La minería provoca contaminación del agua con mercurio, cianuro, cobre, zinc, arsénico, cadmio, cromo y plomo. Contamina la flora y fauna de los sitios intervenidos, y afecta también los alimentos que consumimos y el aire que respiramos, generando diversas enfermedades.

La actividad minera utiliza grandes cantidades de agua que podrían ser utilizadas para el consumo humano y la agricultura. El agua es cada vez más escasa, actualmente 1000 millones de personas en el planeta sufren por la falta del vital recurso. La minería contamina miles de litros de agua y genera 70 toneladas de desechos para extraer una onza de oro y emite el 50% de las contaminaciones industriales a nivel mundial.

La minería a gran escala también trae serios efectos sociales, como el desplazamiento de la gente que vive dentro de las áreas concesionadas por la expropiación de sus tierras, la pérdida de su identidad, de sus saberes y de la posibilidad de su auto sustentamiento. Además, genera conflictos y división al interior de las comunidades.

La resistencia a esa actividad ha sido objeto de represión por parte de policías, militares y paramilitares disfrazados de guardias privados, que se han constituido en guardianes celosos de los intereses de las compañías mineras. Muchas personas que se oponen a la actividad de estas empresas están siendo acusadas de terrorismo y sabotaje, perseguidos y detenidos. La amenaza de la minería no es sólo un problema de los campesinos; es importante establecer vínculos entre las ciudades y el campo, y luchar por conservar la naturaleza, de la cual depende nuestro futuro. Por esto es importante que nos unamos todos y todas a defender la tierra y la vida.

Denunciamos la complicidad del Gobierno y de la clase política en general, que permiten una nueva forma de colonización que sólo nos empobrecerá más, enriqueciendo a las empresas transnacionales y sus socios locales.

Proponemos mantener al país libre de minería a gran escala, a salvaguardar e incentivar las actividades respetuosas del medio ambiente, como la agricultura orgánica, el ecoturismo, etc., en búsqueda de garantizar alimentación, agua y vida sanas para todos los habitantes.

Expresamos nuestra solidaridad con las víctimas de la represión y rechazamos la criminalización de la resistencia popular. Exigimos que cese la persecución a los compañeros y compañeras que se oponen a la minería, y que se libere a quienes han sido detenidos.

¡Por un Ecuador libre de la minería a gran escala!
Alianza Campo-Ciudad

“correa, mais uma vez”

20/03/2009 § Deixe um comentário

portada

Pela primeira vez desde o retorno do sistema democrático no Equador, em 1979, um presidente no pleno exercício de suas funções poderá concorrer à re-eleição. Rafael Correa, um economista de 45 anos que saiu dos quadros docentes da maior universidade privada do país para, depois de uma rápida passagem pelo Ministério de Economia e Finanças, chegar à presidência, tem grandes chances de permanecer por pelo menos mais quatro anos no comando do governo equatoriano.

Correa vem sendo considerado por muitos – inclusive por membros da oposição – como um candidato imbatível. Por uma série de motivos, que vão desde características pessoais e boas estratégias de comunicação até o desejo popular por mudança que entra em perfeita sintonia com algumas medidas implementadas nestes dois anos em que ocupou o Palácio de Carondelet, em Quito. No entanto, talvez o que mais pese a favor de seu favoritismo na hora da votação seja a falta de concorrentes à altura.

“Às vésperas das eleições, vemos que não há candidatos habilitados para derrotar Correa. O presidente conseguiu inculcar na população a ideia de um novo projeto para o país e fazer com que o povo votasse pela mudança. Além disso, foi capaz de cutucar a ferida dos partidos políticos tradicionais”, analisa Ruth Hidalgo, diretora do observatório eleitoral Participación Ciudadana. Para a analista, no entanto, se não existe um adversário capaz de ameaçar o presidente, é também porque os grupos políticos que agora se encontram na oposição ainda não entenderam que devem se questionar sobre seus próprios estatutos e trabalhar a partir de um novo projeto político. “Ainda estão pensando em recuperar velhas práticas. Enquanto esse for o pensamento dos partidos tradicionais, não haverá para eles possibilidade de vitória.”

O Equador passa por um período de transição que se materializou institucionalmente durante o governo Correa. Os antecedentes mais imediatos dessa onda de mudanças, entretanto, se encontram na década passada. Há mais de dez anos que o país não tinha um governo estável. Abdala Bucaram, Alarcón Rivera e Jamil Mahuad passaram pela presidência entre 1996 e 2000, quando um golpe de Estado instaurou um triunvirato que não durou nem uma semana. Então vieram Gustavo Noboa, Lucio Gutiérrez, Alfredo Palácio e, finalmente, em 2007, Correa, cuja vitória não pode ser interpretada fora do contexto das recorrentes crises políticas em que estava mergulhado o país.

À frente do movimento Alianza País, Correa venceu as eleições pela primeira vez prometendo desencadear uma “revolução cidadã”. O projeto teria como carro-chefe a convocação de uma Assembleia Constituinte e a aprovação de uma nova Carta que rompesse com os ordenamentos institucionais da anterior, elaborada em 1998. “Os seguidos golpes cívico-militares, as mobilizações populares e levantes indígenas de alguma forma haviam colocado em evidência a necessidade de re-estruturação do aparato jurídico-administrativo do Estado”, explica Alex Zapatta, professor da Universidade Central do Equador e membro do Centro de Pesquisas para o Desenvolvimento, em Quito. Zapatta afirma que as condições de governabilidade estavam esgotadas e que a estrutura dos partidos políticos tradicionais já não permitia conduzir as inquietudes sociais: faltava um novo esquema (…)

>> continua no saite da revista fórum

táxi, bus e medo

19/03/2009 § Deixe um comentário

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Saio de uma cabine telefônica e o que vejo é muita gente, muita muita gente caminhando pelo meio da rua. Uma manifestação, pensei. Entro no meio da multidão.

– Hermano, ¿es una manifestación de qué?
– Contra los taxistas ilegales, hermano.
– Ustedes son taxistas, pues.
– Sí, pero ¡legales!

Havia realmente muita gente. Quarteirões e quarteirões de gente. Isso é porque em Quito há muitos taxistas. Se nota caminhando pelas ruas ou olhando pela janela de casa. Os carros amarelos dominam a paisagem automobilística. É a alternativa que o quiteño encontra para deslocar-se pela cidade depois das nove horas da noite.

O sistema de transporte da capital equatoriana é bastante deficiente. Não existe uma empresa pública que controle nada em termos de transporte coletivo. E aqui não me refiro a um sistema estatal, com ônibus do estado, motoristas do estado, cobradores do estado. Isso não existe aqui, mas tampouco existe uma empresa municipal que concessione linhas e trajetos à iniciativa privada e fiscalize seus horários e práticas, como ensina a cartilha neoliberal.

Há, na verdade, duas opções de transporte – três, se contabilizamos os táxis: um oficial e outro privado. O oficial é mantido pelo poder público, mas tem um alcance limitado. Trafega em corredores exclusivos e faz o trajeto do sul ao norte ou do norte ao sul da cidade.

São movidos por energia elétrica, tem horários mais rigorosos e só param nos pontos predeterminados, elevados em relação à rua. Para entrar, há que depositar uma moeda de 25 centavos na máquina e passar por uma roleta. Se você não tem trocado, um funcionário te facilita a vida com moedas miúdas. Outro, o segurança, zela pelo patrimônio de vidro.

Podem ser de três tipos: EcoVía, TroleBus ou MetroBus. Funcionam basicamente da mesma maneira. O passageiro entra no ponto, as portas se abrem automaticamente quando chega o ônibus articulado. Aí é entrar, se apertar quando estiver lotado e tomar cuidado para não ficar preso nas portas que se fecham sem prestar muita atenção se há gente no meio do caminho.

25 centavos também custa a passagem no outro sistema. Este é privado, mantido por pequenas cooperativas que operam uma ou duas ou três linhas, no máximo. Os ônibus são de todas as cores, azuis, amarelos, verdes, vermelhos. O passageiro se guia muito mais pelo nome da empresa do que pelo trajeto estampado no vidro, porque sempre fazem o mesmo. Eu, por exemplo, sempre pego o Bus Tipo Latina ou San Francisco. Mas há uma infinidade deles: Tipo Catar, Tipo Atahualpa, Tipo Quitumbe, dependendo do nome da cooperativa.

Não há catracas. As paradas existem, mas não se respeita. Qualquer lugar é lugar para subir ou descer, dependendo do gosto ou da necessidade do passageiro. Isso é bom e ruim. Bom para quem usa e não se vê obrigado a perder a condução só porque não estava exatamente no ponto correto quando o busão passou. Quando se está atrasado, faz toda a diferença.

O trânsito, em compensação, sofre um pouco com a soberania dos coletivos. Acredito que boa parte da responsabilidade pelos congestionamentos frequentes – e pelas buzinas que nunca deixam de ressoar – se deva à simpatia dos motoristas pelo cidadão que pede pra descer ou acena na calçada querendo subir.

Mas, como tudo na vida, há uma razão pra isso. E, como quase tudo na vida, esta razão é financeira. Como são autônomos, para os trabalhadores do transporte público de Quito parar e deixar subir ou ignorar o sinal do passageiro significa 25 centavos que entram no orçamento ou ficam na rua resmungando.

O pior de tudo, porém, é que às nove da noite as cooperativas deixam de operar. São elas que entram nos bairros e levam a gente pelas ruas mais estreitas, onde se mora. Os corredores da EcoVía, do MetroBus e do TroleBus sim funcionam até um pouco mais tarde, dez, dez e meia. Mas em seu caminho estão principalmente empresas, lojas e escritórios. O grosso da população não vai pra lá à noite, mas sim foge de lá à tarde.

Portanto, não há opção barata de voltar pra casa depois desse horário. É aí que entram os táxis. Como pouca gente pode pagar pelo preço que pedem, ainda que não enfiem a faca em ninguém que saiba pechinchar, as ruas ficam desertas. Salvo a exceção de alguns bairros mais boêmios e turísticos, o movimento de gente é pouco nas calçadas. Nas ruas, sim, se vê até que bastantes carros passando. Mas, caminhando ou tomando conta do espaço urbano, quase ninguém.

Talvez por isso haja um clima de insegurança nas ruas de Quito à noite. Ainda não sei até que ponto é uma sensação real ou fruto da paranóia que os latinoamericanos que vivemos em capitais e cidades grandes temos todos. O que sei é que vira e mexe escuto os amigos contando suas experiências de assalto ou quase assalto. Já aconteceu com muita gente e, com quem ainda não, se sabe que é perfeitamente possível no momento mais inesperado.

O norte da cidade, por exemplo, teve um aumento de 22 por cento na taxa de criminalidade entre 2007 e 2008. E o bairro onde há mais chances de roubos, segundo a Polícia Nacional, é justamente onde se concentra a atividade e serviços turísticos de Quito: Mariscal. Cerca de 40 por cento dos assaltos são realizados com armas de fogo.

Assim, se evita caminhar por determinados bairros a partir das dez. O quiteño parece conhecer os trajetos mais recomendáveis a cada hora do dia e da noite. E a cidade que não vai em táxi, muitas vezes prefere dormir mais cedo e deixar a vida pra amanhã. (cc)

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