o caso de angostura

02/03/2009 § 2 Comentários

Faz um ano que as forças armadas colombianas quebraram um histórico respeito à soberania dos países vizinhos e invadiram o território equatoriano. Foi no dia 1º de março de 2008, na localidade de Angostura, próximo à fronteira entre os dois países. O alvo era um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

À meia-noite, aviões supertucano bombardearam a zona. Três horas mais tarde, helicópteros continuaram o ataque, seguidos de uma incursão por terra. Apenas às seis e meia da manhã um informe de Bogotá chegou a Quito comunicando o confronto com a guerrilha em solo equatoriano.

Os batalhões nacionais chegaram ao local por volta das seis da tarde. Encontraram no meio da floresta uma clareira completamente destruída, 25 cadáveres, fuzis AK-47 e três mulheres gravemente feridas: Lucía Morett, Dóris Bohórquez e Marta Pérez. Elas foram transladadas ao Hospital Militar de Quito, receberam os cuidados necessários, sobreviveram e hoje se encontram exiladas na Nicarágua.

Lucía era então uma estudante mexicana que estava no acampamento realizando um trabalho de campo sobre as Farc. Viu quatro companheiros de universidade morrerem ao seu lado. Dóris e Marta, colombianas, integravam a guerrilha. Além delas, suspeita-se que 11 pessoas mais sobreviveram e conseguiram escapar. Não se sabe sua identidade ou paradeiro.

Desde então, o Equador resolveu investir na segurança de sua fronteira norte. O presidente Rafael Correa ordenou ao exército que atire contra qualquer grupo armado que cruze a fronteira. O delito é cometido com frequência tanto pelas Farc como por outras organizações criminais que perambulam pela selva e rios que dividem os países. São reconhecidas como Giac – Grupos Ilegais Armados da Colômbia.

A maior eficiência do exército no combate à guerrilha pode ser sentida no número de acampamentos destruídos dentro do Equador ao longo dos anos. Em 2005 foram 14. Um pouco mais efetivo foi o combate em 2006 e 2007, com 45 e 47 bases desmontadas. No entanto, depois da invasão colombiana, 182 concentrações das Farc foram interceptadas pelos equatorianos.

O chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas diz que agora existe uma única cadeia de mando para as três armas no norte do país. As verbas adicionais destinadas pelo governo também ajudaram. Em 2000, o orçamento equatoriano para defesa foi de 267 milhões de dólares, cifra que foi crescendo ao longo dos anos e que, em 2008, chegou a 919 milhões.

Sem embargo, as relações diplomáticas entre Equador e Colômbia permanecem cortadas. Rafael Correa tomou a decisão no dia 2 de março do ano passado, depois de confirmar a incursão terrestre das forças colombianas em Angostura. Até hoje o presidente não admite a invasão sob nenhuma hipótese. Uribe, por sua vez, se justifica dizendo que não havia colaboração por parte do governo equatoriano no combate à guerrilha dentro de suas fronteiras.

O fato é que o vínculo entre a administração de Correa e as Farc tinha nome e sobrenome: Ignácio Chauvín. Mas o ex-subsecretário do Ministério de Governo foi afastado e preso assim que suas sete visitas a Raúl Reyes, número dois da guerrilha, vieram à tona. [ver tópico escândalo] Correa, pessoalmente, nega qualquer vínculo oficial com as Farc. Mais que negar, se escandaliza com declarações nesse sentido.

Ambos os governos continuamente manifestam interesse em restabelecer os laços, mas o mandatário equatoriano quer fazê-lo com “dignidade e respeito”. Isso significa que a Colômbia deve i) deixar de sugerir a existência de relações entre o governo equatoriano e a guerrilha, ii) evitar que as Farc cruzem a fronteira e entrem no Equador, iii) entregar todos os documentos supostamente encontrados no acampamento de Angostura, iv) ajudar o governo equatoriano na assistência aos colombianos que se mudaram para o país fugindo da guerra civil e v) pagar uma indenização pelo bombardeio. Um informe detalhado sobre as armas utilizadas na invasão também agradaria muito a Correa.

Um documento divulgado ano passado pela Anistia Internacional diz que a população civil é a maior prejudicada pelo conflito armado na Colômbia. “Nos últimos 20 anos, 70 mil pessoas morreram em conseqüência das hostilidades.” Entre três e quatro milhões viram-se obrigadas a abandonar suas casas. Estima-se em até 30 mil o número de desaparecidos. Nos últimos dez anos, 20 mil sequestros foram contabilizados. As agressões vem de todos os lados: das guerrilhas, dos paramilitares e do exército, que na guerra um com o outro matam, acossam, torturam, sequestram e estupram a população que está no meio do fogo cruzado. (cc)

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§ 2 Respostas para o caso de angostura

  • Bob disse:

    EH… lembro desse ataque… isso quase gerou uma guerra entre os dois paises e teve uma intervenção do Chavez a favor do Equador.. independente das supostas relações entre as Farc e o Governo do Equador, Angostura mostra o que o Uribe realmente é… um criminoso de guerra…..

  • […] Em março do ano passado, quando a Colômbia bombardeou um acampamento das Farc no Equador, [ver o caso de angostura] foi o Grupo do Rio quem mediou a crise diplomática entre os dois países e repreendeu o governo […]

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