olhar sobre quito

05/03/2009 § 1 comentário

A cidade se encontra num altiplano, a mais ou menos 2.900 metros de altitude. Justo aqui as duas principais cordilheiras andinas que sobem do Peru (ou descem da Colômbia) vão se aproximando até que ficam olhando uma para a outra. No meio delas, os quitus, antigos habitantes da região, construíram seu maior e mais importante povoado.

Está aos pés do vulcão Pichincha, de onde desceram Pacha e Eacha, o primeiro homem e a primeira mulher, o primeiro deus e a mãe comum. Juntos povoaram a montanha e criaram todos os seres humanos que existem sobre a terra.

Pacha e Eacha foram os únicos sobreviventes de um dilúvio. E puderam se salvar das chuvas subindo exatamente ao topo do Pichincha, que desde então assumiu o papel de monte protetor e âncora de salvação. Os quitus não existiriam sem o Pichincha. Quito não seria a mesma sem o vulcão.

Hoje, basta olhar a oeste para apreciar a grandeza do vulcão fazendo sombra sobre a cidade. Seu topo verde está cheio de antenas e torres de transmissão. Nas noites nubladas, os pontos de luz la no alto parecem estrelas que desceram para descansar na montanha. Ou discos voadores visitando o Equador.

Pichincha emprestou seu nome à província que tem Quito como capital. Dá também nome a um banco.

Cravada no altiplano andino, Quito é uma franja que se estende de norte a sul por mais de 40 quilômetros. Tem um centro histórico, bairros populares, bairros de classe-média, bairros de elite, condomínios fechados, avenidas largas, parques, grandes edifícios, prédios antigos e modernos.

A desigualdade social dá o tom, que na pele é cor de terra molhada, de barro, e nas roupas leva o colorido da indumentária andina. Não é difícil ver indígenas ganhando a vida como podem na rua. Costumam vender coisas, normalmente frutas e comidas prontas, sentados ou caminhando por aí. Levam em cima o traje típico, as mulheres mais que os homens, o chapéu de feltro, a longa trança atada com um fita, a saia, os colares, os filhos amarrados nas costas.

Foram nitidamente arrancados de seu lugar, o campo, e é curioso e triste ver como destoam das demais gentes de Quito ao mesmo tempo em que trazem para o meio da urbe uma imagem mais real do Equador andino. Seus olhares e gestos falam sobre o que foi a cidade antes de nós.

Os vendedores e vendedoras indígenas que perambulam pela cidade também parecem carregar a dignidade de um povo que não quer engolir a colonização, que afinal foi o que trouxe consigo o conceito de pobreza. Nas pequenas trocas comerciais a que se dedicam dia após dia, querem dar o troco no homem branco: basta ter cara de gringo para que te cobrem mais, principalmente pelos alimentos que nascem da terra que foi só deles. É uma pequena vingança, ingênua, mas é sua forma pacífica e legal de tirar um pouco de tudo que deles foi tirado.

O resumo da história da América parece ser uma narrativa sobre a submissão forçada dos povos originários – e, sobretudo, das mulheres originárias – aos desígnios dos valores que chegavam para ficar, dominar e construir destruindo. E é triste pensar que a conquista andina se tratou muito mais de uma crise generalizada do sistema inca do que de uma eventual superioridade cultural e militar dos espanhóis.

Francisco Pizarro necessitou de apenas cinco anos, entre 1526 e 1531, para aprisionar a Atahualpa Cápac e assassiná-lo. O historiador Enrique Ayala Mora [1]  diz que o êxito militar apenas foi possível porque ao lado de Pizarro lutaram muitos indígenas descontentes com o novo imperador. Parecida foi a conquista do México, como nos conta Octavio Paz. [2] “A conquista pode haver sido uma profunda guerra civil de raízes internas”.

E os sinais de uma colonização que ainda não acabou podem ser notados todos os dias, em muitos rostos. (cc)

[1] Resumen de Historia del Ecuador. Quito, 1993.
[2] El laberinto de la Soledad. México, 1954.

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§ Uma Resposta para olhar sobre quito

  • Marcelo HB disse:

    Muito boa matéria para conhecermos um pouco mais do nosso vizinho!
    A leitura me remeteu a uma “visão” imaginária da paisagem e do colorido humano que parece decorar o local contrastando com o cinza quase negro da diferença (ou indiferença).
    Somente senti falta de uma menção à autoria.

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