as cosmovisões

14/03/2009 § Deixe um comentário

Um jovem aparece deitado no chão, de bruços. É indígena de pai e mãe e comunidade, mas suas roupas são ocidentais. Mais ocidentais, impossível. Calça jeans, tênis, moletom com zíper e, dando o toque, uma touca tapando-lhe a cabeça até um pouco acima dos olhos. Tem menos de vinte anos e se encontra cercado pelos membros da comuna de agricultores onde vive, na província equatoriana de Chimborazo, todos tipicamente vestidos com ponchos e chapéus de feltro.

Sua mãe lhe açoitava. Foram muitas chicotadas nas costas para cumprir o castigo que, de acordo com as ancestrais tradições do povoado, merecia o jovem por estar atrapalhando o sossego da comunidade com seus pequenos crimes e ameaças. Não estava sozinho. Depois dele, foi a vez de um colega receber o suplício, desta vez pelas mãos de seu pai.

Assistir a estas cenas pela televisão me deu a impressão de que a prática era abertamente aceita, tanto pelos comuneros que se queixavam da delinquência, como pelos próprios jovens, que não se moviam ante as chicotadas. Depois de levar o castigo, inclusive concederam uma entrevista ao canal que cobriu a aplicação da pena. Frente às câmeras, não escondiam o rosto, como normalmente acontece com quem vai preso. Assumiam o erro e prometiam melhorar seu comportamento e o respeitar mais aos vizinhos.

Os indígenas dizem que a delinquência não é comum em suas comunidades. São uma prática importada das cidades grandes, para onde via de regra se deslocam muitos jovens descontentes com a vida dura do campo, cheios de esperanças de prosperar financeiramente nos centros urbanos e, assim, entrar nos círculos de conforto e consumo que não existem na montanha. Mas, para muitos, as coisas não vão tão bem. Despojados dos sonhos e diante de uma pobreza que não existia na sua pobre comunidade andina, retornam. Era o caso dos jovens que foram açoitados ontem, que de quebra trouxeram consigo os novos costumes urbanos.

Era o caso também de um jovem com que conversei numa comuna indígena campesina, em Cotopaxi, a seis horas de Quito por estradas sinuosas que lentamente contornam a montanha. Não disse seu nome, mas contou sua história de imigrante na Espanha ao confundir-me com um turista europeu.

– ¿Americano?
– No.
– ¿Italiano?
– No.
– Ah, ya lo sé: ¡Eres de murcia, España!
– Jajaja, no.
– Sabes que viví tres años en Murcia, trabajando en la construcción. Obrero, ¿sabes?

Começamos uma conversa sobre o país. Não lhe disse que eu também já havia morado do outro lado do charco, mas ele sim me falou de como era caro viver na Europa, que sim se ganhava dinheiro, mas que também “¡se pagaba 12 dólares por um plato de comida!”, que fazia muito calor no verão e que não se podia estar tomando uma cervejinha e escutando uma musiquinha na rua – como estava fazendo ali em El Quishpe – “porque viene la policía y nos lleva a todos”.

Voltou e parece feliz. Talvez porque no momento estava sob os efeitos da felicidade alcoólica que nos atinge a todos quando bebemos com amigos. Era o seu caso: estava com seus panas, sentado sobre uma caixa cheia de Pilsener, a mais popular do Equador, e provavelmente não iam ajudar na minga, nome kichwa para as sessões de trabalho coletivo na comunidade.

A cada dia o mundo indígena me parece mais maravilhoso e mais complexo. Visitar os páramos andinos, que estão acima dos 4.000 m, é uma experiência incrível. E mais incrível é saber que muita gente vive e convive com a hostilidade da temperatura, do solo, do vento e do abandono do estado. Mantêm suas plantações de fréjol, choclo, batata, madioca, verduras e legumes, criam lhamas, alpacas, cabras, cavalos, porcos, ovelhas e cuis – uma espécie de porquinho da índia que se come.

São pobres. Mas, afinal, o que é a pobreza? Nas cidades, nossa riqueza parece estar atrelada à quantidade de bens de consumo que temos em casa, os quais, por sua vez, nos oferecem o conforto “necessário” para viver bem. Já não se concebe a vida sem eles, sejam automóveis ou celulares. Por outro lado, estão as comunidades tradicionais, radicadas por infelicidades históricas nos altos páramos, muitos sem eletricidade nem nenhuma outra facilidade do mundo moderno. E vivem, duramente, mas vivem. Tem suas necessidades reais atendidas e estão longe de estar apenas sobrevivendo às adversidades. Prova disso é sua cultura, rica e colorida.

Para mim é difícil falar sobre o choque entre nossos valores capitalistas e as formas de vida não acumulativas, entre o conforto ou a rusticidade, entre poder comprar um pacote de arroz no supermercado ou tê-lo que cultivá-lo todo o ano, entre ligar o aquecedor num dia de frio ou ter de cortar lenha nos dias de verão e deixá-la armazenada para quando chegue o frio. As comunidades andinas tampouco podem (como atualmente estão) reféns de estradas que se desmororam e as isolam do mundo na época das chuvas, ou do analfabetismo.

Sem embargo, é nítido que nosso estilo de vida nos está levando a todos – inclusive quem dele não usufrui – para o buraco quente. Os indígenas lembram que a verdadeira riqueza está numa natureza exuberante e devidamente preservada, que a verdadeira sabedoria está em encontrar formas de organizações sociais que se desenvolvam em comunhão com o entorno ambiental, que a terra e a água e o ar fazem parte do homem e que este não pode viver sem eles.

Nosotros les preguntamos al hombre blanco: ¿cómo se le pone precio a la madre y cuánto es ese precio? Lo preguntamos no para desprendernos de la nuestra, sino para tratar de entender lo más a él. Tal vez conozca una forma de poner precio a su madre y venderla, sin caer en la vergüenza en que caería un “primitivo”, porque la tierra que pisamos no es sólo tierra, es el polvo de nuestros antepasados, por eso caminamos descalzos, para estar en contacto con ellos. [1]

Ao mesmo tempo em que do mundo indígena emerge tal sabedoria, dele também nascem e permanecem práticas como o açoite e a humilhação pública. Por mais que, segundo os indígenas, este tipo de punição seja melhor que jogar milhares de seres humanos em celas apertadas, para mim é difícil aceitá-lo, da mesma forma que difícil engolir cadeias superlotadas.

Aliás, as formas ancestrais de administração de justiça são o ponto mais delicado dos estados plurinacionais que se estão fundando no Equador e na Bolívia. Até que ponto uma cultura tradicional pode se sobrepor aos direitos universais do ser humano?

La comunidad, el modo comunitario de producción y de vida, es la voz que más porfiadamente anuncia otra América posible. Esa voz suena desde los tiempos más remotos; y suena todavía. Hace cinco siglos que los dueños del poder quieren callarla a sangre y fuego; pero suena todavía. La comunidad es la más americana de las tradiciones, la más antigua y obstinada tradición de las Américas. Mal que les pese a quienes dicen que el socialismo es una idea foránea, nuestra raíz más honda viene de la comunidad, la propiedad comunitaria, el trabajo comunitario, la vida compartida, y tiene a la solidaridad por centro. La propiedad privada, en cambio, vida y trabajo centrados en la codicia y el egoísmo, fue un producto de importación, que los conquistadores europeos impusieron en las Américas a partir de 1492. [2]

Este sistema comunitário – que respeita a natureza, que não é consumista, que reconhece a terra como propriedade de todos e de ninguém – é incompatível com o capitalismo. Tal é o maior desafio de um estado plurinacional. Como compatibilizar estilos de vida não acumulativos com um sistema que tem por base a acumulação e o consumo cada vez maiores? Tais são os problemas que as comunidades historicamente vem enfrentando frente ao “interesse nacional” em explorar as reservas de petróleo e minérios do Equador e, assim, ganhar mais e mais dinheiro à medida que se destrói o meio ambiente.

Cuando pedimos el reconocimiento de la plurinacionalidad, en realidad estamos planteando que haya el reconocimiento de varios sistemas de vida. El estado ecuatoriano no está respetando nuestra plurinacionalidad cuando ha adoptado modelos económicos que no nos permiten vivir de modo comunitario (…) En la historia, nosotros hemos tenido que aprender de la otra cultura para poder sobrevivir. Hemos aprendido el idioma. Por eso, una propuesta nacional va naciendo desde acá. Pero qué porcentaje de la sociedad blanco-mestiza habla el kichwa o el shuar (…) planteamos que tenemos que reconocernos mutuamente. [3]

Está claro que a sociedade latinoamericana tem uma dívida com os povos indígenas. E, diferentemente do que fizeram os católicos espanhóis com os espanhóis muçulmanos depois de 600 anos de convivência na Península Ibérica, as culturas indígenas não começaram nem demonstram a intenção de começar uma cruzada contra o “branco invasor” na América. Sabem que todos já somos americanos, filhos dessa mesma terra e desse mesmo sol que um dia foram só deles.

Estamos interrelacionados, después de todo, y es necesario tender un mecanismo de encuentro, una identidad política con la otra sociedad (…) En occidente hay teorías buenas y malas, y las malas hay que desecharlas. Pero las buenas hay que saber integrarlas a nuestro pensamiento como la otra sociedad debe también integrar mucho de nuestra sabiduría. Eso es parte de la interculturalidad. [3] (cc)

——
[1]
Pensamento uwa.
[2] Eduardo Galeano. Apuntes sobre la memória y sobre el fuego. Bogotá, 1989.
[3] Luís Macas. Somos hijos del sol y de la tierra. Quito, 2007.

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