o marketing e a ética (?)

16/03/2009 § Deixe um comentário

Rafael Correa teve que retirar da programação o videoclipe que mais vem dando o que falar no Equador. Nem o último sucesso do reguetón nacional conseguiu tanta notoriedade. A equipe de marketing de Carondelet contratou uma série de artistas populares do país, de vários estilos musiciais, para cantarem juntos uma mesma canção: “Pátria”. A letra fala da Revolução Cidadã e do grande serviço que esta vem prestando à nação ao incluir todos os equatorianos sob o manto da cidadania, inclusive os que não querem. [1]

A música ficou a cargo dos Beatles, que emprestaram compulsoriamente os acordes e a fama de “Hey Jude” para harmonizar o patriotismo e a autoestima que o correismo pretender difundir entre os homens e as mulheres que preside.

Depois de muito ser pressionado pelos partidos e forças da oposição, o Conselho Nacional Eleitoral deu o ultimato para que Correa abrisse mão da peça publicitária por entender que a canção é campanha eleitoral sem sê-la e promove o regime que tenta a reeleição. As regras eleitorais equatorianas se enrijeceram depois da nova Constituição. Pública e limitada é a verba que os candidatos podem empregar em propaganda. [ver campanha eleitoral pública]

Ao que parece, Correa burlou as normas ao veicular a paródia dos Beatles depois do dia 10 de março (quando oficialmente teve início a corrida presidencial). Por isso, foi multado em 650 dólares pelo CNE. Depois da reprimenda, aceitou meter “Hey Jude” na gaveta, mas suas cadeias nacionais de rádio (aos sábados) e televisão (às segundas-feiras) continuam, bem como os “gabinetes itinerantes” que com frequência realiza no interior do país.

São propostas que o presidente vem levando a cabo desde quando ascendeu ao governo, em janeiro de 2007. Faziam parte das promessas de campanha que lhe conduziram ao poder. Por meio delas, Correa se aproxima dos equatorianos, que, por sua vez, disfrutam de uma relação povo-presidente inédita no país. Mais que nada, sentem que o governante lhes presta conta do que faz ou deixa de fazer. O mandatário sai no meio da gente, abraça, aperta mãos, troca ideia – e isso sempre, não apenas durante a campanha.

Há, logicamente, muitas críticas a Correa. A mais imediata delas classifica o presidente como “mais um populista latinoamericano”, como “mercader de sueños” e “usurpador de esperanzas”. Outras apontam para os elevados gastos em propaganda oficial, “dinheiro que poderia estar sendo investido em saúde, educação e segurança”, mas que, em vez disso, é utilizado para uma “campanha eleitoral permanente”.

Este é o ponto de vista da diretora executiva da ong Participación Ciudadana, uma das mais ativas da sociedade civil na vigilância à Correa. Ruth Hidalgo me disse que

– permanentemente hemos tenido mucha información por parte de la propaganda de los ministerios, del propio presidente. Estos gabinetes itinerantes, desde el punto de vista político, me parecen importantes e interesantes, son un nuevo acercamiento del presidente con el pueblo, sin intermediarios. Pero también hay que ponerse a ver cual es el costo de eso, porque el presidente no se mueve solo, va con toda una comitiva, va llamando ministros, gente, todo con recursos del estado. Entonces sí creemos que se ha privilegiado las campañas electorales versus otras necesidades.

O que incomoda à Ruth Hidalgo, no entanto, parece ser os pronunciamentos do presidente, e não necessariamente suas viagens pelo país, porque

– sería interesante que este ejercicio de acercamiento fuera un ejercicio auténtico de recogimiento de necesidades. No sólo sentarse y hablar y hablar y caminar y hacer el contacto con la gente desde que llega al aeropuerto. ¿Por qué no hace más bien el ejercicio de coger necesidades? En vez de sentar y “me escuchen hablar”, yo me siento y quiero escucharles a hablar ustedes. ¿Qué necesitan? Más bien esa es una postura más sana.

Todos sabemos que é tênue a linha que divide a prestação de contas de um governo e sua publicidade. Talvez nem sequer exista, ou se apresente mais ou menos acentuada de acordo com a preferência eleitoral de cada cidadão: onde um vê propaganda, outro pode ver o anúncio de um bom trabalho. E bom trabalho não deixa de ser (não sendo) propaganda.

O fato é que as eleições provocam o surgimento de acusações de todos os lados e de todos os candidatos contra todos os adversários. Ao contrário da grama do vizinho, sempre mais verde, a ética do concorrente é via de regra mais manchada. Cada um cola e descola sua imagem a quem lhe convém no momento, os tetos de vidro ganham reforços ou rachaduras… às vezes se quebram. Os mais hábeis na hora de jogar pedras (ato proibido pelas leis eleitorais) conseguem embrulhá-las em papel de presente e dar-lhes endereço certo, sem que com isso recebam broncas financeiras da justiça.

Esperar ética na política oficial (que disputa verbas e poder) é o mesmo que esperar papai noel. A regra se aplica também a Correa, como não? Entrevistando o sociólogo Francisco Hidalgo sobre algumas contradições entre o governo da Revolução Cidadã e a Constituição equatoriana, ouvi:

– Correa es un político. Y un político nunca es muy coherente, sino no sería político.

E é assim com todos: votamos esperando vinho quente e no governo somos surpreendidos com água, um balde de água fria. Por isso, política é o que fazemos todos os dias – na rua, no trabalho, na universidade – e não a cada quatro anos nas urnas.

A imprensa cai matando em cima das contradições de Correa, claro. Foram suas críticas, aliás, que aumentaram a fama do “Hey Jude” cidadão. Como pode o presidente conduzir uma Revolução autoproclamada Cidadã com posturas que atentam contra a ética da cidadania? – perguntam. É complicado cobrar coerência dos outros quando somos, cada um de nós e ainda mais a imprensa, incoerentes por natureza.

Porque, no fim das contas, cada um faz o que convém a seus interesses, imediatos ou de longo prazo. Isso já nos disse o filósofo alemão Immanuel Kant, com seus conceitos de atuar contra o dever, por dever ou de acordo com o dever. Os dois últimos parecem mas não são a mesma coisa, porque só o mais cristão (teria agido Cristo de acordo com o dever?) dos seres humanos poderia tomar decisões contra sua própria vontade ou interesse. Por exemplo, alguém que esteja morrendo de vontade de se matar, mas que acaba não se matando porque tem consigo a absoluta convicção de que acabar com a própria vida é uma atitude moral e condenável, porque sabe que a máxima de sua ação não pode ser uma regra universal. [2]

Mas também tanto faz, porque Kant ele mesmo dizia que os desejos e intenções mais profundas do ser humano são inescrutáveis, de maneira que ninguém pode saber o quê o outro deveras pensa ou por quê faz ou deixa de fazer isso ou aquilo. Tudo cai, então, na especulação, no moralismo. A começar pelo mesmo filósofo que tão brilhantemente nos fez entender tudo isso e que uma vez disse:

Los índios de América son incapaces de civilización y están condenados al exterminio. [3]

Qual teria sido o interesse de Kant para, em apenas uma frase, golpear duramente toda a teoria moral que construiu em volumes e mais volumes da melhor filosofia? E Correa, por que escolheu “Hey Jude” e não “Revolution” para promover a Revolução Cidadã? (cc)

——
[1] “Pensar que no somos indígenas, sino ciudadanos, es individualizar las comunidades, a los pueblos, pasando por alto los conceptos de reciprocidad y complementariedad, haciendo caso omiso a los derechos internos de cada pueblo (…) La ciudadanía es la relación del estado con el individuo, pero no considera a las nacionalidades ni a los pueblos, ni a las futuras generaciones. Esta relación viene profundizando el individualismo. Estamos en contra el ideal de ciudadanía.” Luis Macas. Somos hijos del sol y de la tierra. Quito, 2007.
[2] Immanuel Kant. Fundamentación de la metafísica de las costumbres. Barcelona, 1996.
[3] Eduardo Galeano. Patas Arriba. Buenos Aires, 1998.

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