táxi, bus e medo

19/03/2009 § Deixe um comentário

bus-quito1

Saio de uma cabine telefônica e o que vejo é muita gente, muita muita gente caminhando pelo meio da rua. Uma manifestação, pensei. Entro no meio da multidão.

– Hermano, ¿es una manifestación de qué?
– Contra los taxistas ilegales, hermano.
– Ustedes son taxistas, pues.
– Sí, pero ¡legales!

Havia realmente muita gente. Quarteirões e quarteirões de gente. Isso é porque em Quito há muitos taxistas. Se nota caminhando pelas ruas ou olhando pela janela de casa. Os carros amarelos dominam a paisagem automobilística. É a alternativa que o quiteño encontra para deslocar-se pela cidade depois das nove horas da noite.

O sistema de transporte da capital equatoriana é bastante deficiente. Não existe uma empresa pública que controle nada em termos de transporte coletivo. E aqui não me refiro a um sistema estatal, com ônibus do estado, motoristas do estado, cobradores do estado. Isso não existe aqui, mas tampouco existe uma empresa municipal que concessione linhas e trajetos à iniciativa privada e fiscalize seus horários e práticas, como ensina a cartilha neoliberal.

Há, na verdade, duas opções de transporte – três, se contabilizamos os táxis: um oficial e outro privado. O oficial é mantido pelo poder público, mas tem um alcance limitado. Trafega em corredores exclusivos e faz o trajeto do sul ao norte ou do norte ao sul da cidade.

São movidos por energia elétrica, tem horários mais rigorosos e só param nos pontos predeterminados, elevados em relação à rua. Para entrar, há que depositar uma moeda de 25 centavos na máquina e passar por uma roleta. Se você não tem trocado, um funcionário te facilita a vida com moedas miúdas. Outro, o segurança, zela pelo patrimônio de vidro.

Podem ser de três tipos: EcoVía, TroleBus ou MetroBus. Funcionam basicamente da mesma maneira. O passageiro entra no ponto, as portas se abrem automaticamente quando chega o ônibus articulado. Aí é entrar, se apertar quando estiver lotado e tomar cuidado para não ficar preso nas portas que se fecham sem prestar muita atenção se há gente no meio do caminho.

25 centavos também custa a passagem no outro sistema. Este é privado, mantido por pequenas cooperativas que operam uma ou duas ou três linhas, no máximo. Os ônibus são de todas as cores, azuis, amarelos, verdes, vermelhos. O passageiro se guia muito mais pelo nome da empresa do que pelo trajeto estampado no vidro, porque sempre fazem o mesmo. Eu, por exemplo, sempre pego o Bus Tipo Latina ou San Francisco. Mas há uma infinidade deles: Tipo Catar, Tipo Atahualpa, Tipo Quitumbe, dependendo do nome da cooperativa.

Não há catracas. As paradas existem, mas não se respeita. Qualquer lugar é lugar para subir ou descer, dependendo do gosto ou da necessidade do passageiro. Isso é bom e ruim. Bom para quem usa e não se vê obrigado a perder a condução só porque não estava exatamente no ponto correto quando o busão passou. Quando se está atrasado, faz toda a diferença.

O trânsito, em compensação, sofre um pouco com a soberania dos coletivos. Acredito que boa parte da responsabilidade pelos congestionamentos frequentes – e pelas buzinas que nunca deixam de ressoar – se deva à simpatia dos motoristas pelo cidadão que pede pra descer ou acena na calçada querendo subir.

Mas, como tudo na vida, há uma razão pra isso. E, como quase tudo na vida, esta razão é financeira. Como são autônomos, para os trabalhadores do transporte público de Quito parar e deixar subir ou ignorar o sinal do passageiro significa 25 centavos que entram no orçamento ou ficam na rua resmungando.

O pior de tudo, porém, é que às nove da noite as cooperativas deixam de operar. São elas que entram nos bairros e levam a gente pelas ruas mais estreitas, onde se mora. Os corredores da EcoVía, do MetroBus e do TroleBus sim funcionam até um pouco mais tarde, dez, dez e meia. Mas em seu caminho estão principalmente empresas, lojas e escritórios. O grosso da população não vai pra lá à noite, mas sim foge de lá à tarde.

Portanto, não há opção barata de voltar pra casa depois desse horário. É aí que entram os táxis. Como pouca gente pode pagar pelo preço que pedem, ainda que não enfiem a faca em ninguém que saiba pechinchar, as ruas ficam desertas. Salvo a exceção de alguns bairros mais boêmios e turísticos, o movimento de gente é pouco nas calçadas. Nas ruas, sim, se vê até que bastantes carros passando. Mas, caminhando ou tomando conta do espaço urbano, quase ninguém.

Talvez por isso haja um clima de insegurança nas ruas de Quito à noite. Ainda não sei até que ponto é uma sensação real ou fruto da paranóia que os latinoamericanos que vivemos em capitais e cidades grandes temos todos. O que sei é que vira e mexe escuto os amigos contando suas experiências de assalto ou quase assalto. Já aconteceu com muita gente e, com quem ainda não, se sabe que é perfeitamente possível no momento mais inesperado.

O norte da cidade, por exemplo, teve um aumento de 22 por cento na taxa de criminalidade entre 2007 e 2008. E o bairro onde há mais chances de roubos, segundo a Polícia Nacional, é justamente onde se concentra a atividade e serviços turísticos de Quito: Mariscal. Cerca de 40 por cento dos assaltos são realizados com armas de fogo.

Assim, se evita caminhar por determinados bairros a partir das dez. O quiteño parece conhecer os trajetos mais recomendáveis a cada hora do dia e da noite. E a cidade que não vai em táxi, muitas vezes prefere dormir mais cedo e deixar a vida pra amanhã. (cc)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento táxi, bus e medo no Latitude Sul.

Meta

%d blogueiros gostam disto: