aquele entrevero diplomático

27/03/2009 § Deixe um comentário

No dia 21 de novembro de 2008, a chancelaria brasileira chamou a consultas o embaixador em Quito, Antonino Marques Porto. Na época a imprensa colocou em xeque o histórico de boas relações entre Brasil e Equador. A culpa – diziam – era de Rafael Corra, cujo governo havia adotado uma postura agressiva e autoritária no que diz respeito à dívida que mantém com o BNDES.

Fontes do Itamaraty, no entanto, consideram a medida algo normal no mundo diplomático. “As consultas são um sinal de desconforto, claro, mas também mostram-se inevitáveis entre países que estreitam suas relações.” O funcionário – que prefere não se identificar – cita como exemplo a recente polêmica envolvendo o refugiado italiano Cesare Battisti. “Ao saber que o Brasil concedeu asilo político a Battisti, Roma chamou seu embaixador a consultas. A relação entre os dois países, porém, permanece dentro da normalidade.”

Apesar disso, o embaixador Antonino Marques Porto foi proibido pelo Ministério das Relações Exteriores de conceder qualquer entrevista ou dar declarações sobre o tema. Uma nota oficial do Itamaraty esclarece que a razão de sua estada de quase dois meses em Brasília deveu-se “ao anúncio equatoriano, feito sem prévia consulta ou notificação ao governo brasileiro, de submeter à corte da Câmara de Comércio Internacional uma dívida contraída junto ao BNDES, relativa ao financiamento da construção da hidrelétrica San Francisco”.

Temos que lembrar que a tal usina não funcionou como deveria. Suas turbinas apresentaram problemas logo nas primeiras semanas de funcionamento e a geração de energia teve que ser interrompida. Por estas e outras, a Odebrecht, empreiteira responsável pela obra, foi expulsa do Equador.

O Itamaraty considera que a natureza das medidas equatorianas não se haviam coadunado com o espírito de diálogo, amizade e cooperação que caracteriza as relações entre os dois países. “Foi um problema de forma, não de fundo.” Ou seja, o que desagradou ao governo brasileiro foi a maneira como as coisas foram conduzidas e não a decisão de apelar à arbitragem internacional.

Apesar dos pesares, o embaixador brasileiro retornou a Quito em 13 de janeiro de 2009.

A amizade bilateral com o país andino se reflete, por exemplo, no aumento de 33 por cento nas trocas comerciais em relação a 2007. No ano passado, o fluxo de mercadorias atingiu a cifra de 920 milhões de dólares, com um superávit de 878 milhões para o Brasil. De janeiro a fevereiro de 2009, o intercâmbio foi de 89 milhões.

Mas as boas relações vem de antes. Em março do ano passado, quando a Colômbia bombardeou um acampamento das Farc no Equador, [ver o caso de angostura] foi o Grupo do Rio quem mediou a crise diplomática entre os dois países e repreendeu o governo de Álvaro Uribe pelos ataques.

Rafael Correa e Lula são parceiros com interesses bastante parecidos no que diz respeito à criação do Banco do Sul, que deve entrar em operação ainda este ano com um capital de 10 bilhões de dólares. Servirá como um organismo regional de crédito. Ademais, o presidente equatoriano desde 2006 vem manifestando a intenção de ingressar no Mercosul, ainda mais agora que a Comunidade Andina de Nações ameaça repreender o Equador por haver estabelecido medidas protecionistas à entrada de 650 produtos estrangeiros.

Historicamente, foi o Protocolo do Rio de Janeiro que estabeleceu a paz entre Equador e Peru depois de uma guerra territorial em 1942. Mas os dois países voltariam a enfrentar-se ao longo do século XX. Assim, em 1995 a América do Sul assistiria à Guerra do Cenepa. Novamente, o Brasil assumiria protagonismo nos acordos de cessar-fogo com a Declaração do Itamaraty e, logo, com o Acordo de Brasília.

É verdade que desde a época da independência, no século XIX, Peru e Equador tem problemas com suas fronteiras. Também é verdade que muitos equatorianos ainda hoje não engolem as resoluções do Protocolo do Rio de Janeiro, que significou para o país a perda de metade de seu território amazônico em favor do Peru. Não é difícil ver e confundir-se com mapas políticos, muito comuns por aqui, que demarcam as fronteiras do Equador por encima do Protocolo de 1942.

Atualmente há 30 projetos de cooperação entre Brasília e Quito nas áreas técnica, social, educacional, cultural, diplomática, de promoção comercial e defesa. O Itamaraty informa ainda que entre 515 e mil brasileiros vivem regularmente no Equador. ((i))

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento aquele entrevero diplomático no Latitude Sul.

Meta

%d blogueiros gostam disto: