as candidaturas testimoniales

12/05/2009 § Deixe um comentário

Fechadas as listas de candidatos para as eleições legislativas, nenhuma surpresa. Néstor Kirchner será um dos primeiros eleitos, e um dos muitos que não assumirão o cargo. Ao lado dele, na lista oficialista, está o governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, e o chefe de Gabinete da Presidência, Sergio Massa.

Com um cenário que muito se moverá até 28 de junho, o kirchnerismo tem até aqui a segunda posição na principal província do país, atrás dos direitistas do PROperonismo de Maurício Macri.

A principal aposta do Pinguim para manter a governabilidade na Câmara parece não render frutos. Como na política argentina o improvável é o mais comum, o Cemitério de Recoleta, na Zona Norte de Buenos Aires, andou agitado nos últimos dias. Os ossos de Evita foram novamente roubados, mas agora não por militares. Os restos mortais de Eva Duarte Perón não foram levados para a Itália, como no século passado, mas para a Casa Rosada.

Com as más notícias crescendo, alguém lembrou à presidenta e ao co-presidente que, na Argentina, o improvável jamais foi impossível. Nem todos os mortos estão impedidos de votar (diga-se de passagem, isso não é exclusividade argentina no continente) e nem todos os que se foram (não da Casa Rosada, mas para o “outro lado”) estão inelegíveis.

Che, por que não eleger Evita para deputada? – terá dito alguém para Néstor.

Boludo, Evita está morta há décadas – terá contestado o Pinguim.

Bem, mitos como Evita Perón nunca morrem. Ainda mais na Argentina.

Contra a perda de votos no conurbado bonaerense, o matrimônio presidencial atraiu Nacha Guevara. Deixando de lado o sobrenome sugestivo, Nacha tem uma virtude mais interessante: viveu, em repetidas ocasiões, Evita nos palcos e em filmes. E é esse o atributo político da atriz: associar-se à imagem do mito argentino. A base aliada quer distribuir milhões de DVDs mostrando a interpretação de Nacha como Evita. Mais do que isso, é possível que ela saia pelas ruas como se fosse a própria, ao lado de Juan Domingo Perón – outro ator, é claro.

A presidenta Cristina Kirchner recebe a louríssima Nacha Guevara

A presidenta Cristina Kirchner recebe a louríssima Nacha Guevara na Casa Rosada

Esse, aliás, deve estar entristecido com o casal K. Esquecido no Cemitério da Chacarita ao lado de Carlos Gardel, o general não foi convocado do além para essas eleições, mostrando que Evita é mais peronista que o próprio Perón. Aliás, Nacha Guevara é mais kirchnerista que os Kirchner: logo que lançada candidata, saiu por aí difundindo o voto-medo, segundo o qual a Argentina vai para o buraco se a coalizão Frente para a Vitória sai derrotada em junho – considerando os indicadores econômicos, o país vai para o buraco com ou sem vitória oficialista.

Além de Evita, há outro fantasma habilitado às eleições deste ano. Mas este, digamos, é alguém que teima em não morrer. Raul Alfonsín estava tranqüilo, isolado, pouco participava da política argentina. Mas a morte o fez renascer. A exaltação das características positivas do ex-presidente – como em toda parte, a imprensa argentina esquece-se dos erros depois da morte de alguém – fez ressurgir a força da União Cívica Radical, que sobe nas pesquisas de intenções de votos para as eleições legislativas (em algumas pesquisas, o bloco comandado por Ricardo Alfonsín, filho de Raul, fica pau a pau com a Frente para a Vitória, dos Kirchner).

Governabilidade

Tudo leva a crer que o oficialismo não poderá repetir o resultado da última votação legislativa, na qual conquistou 43% dos votos na província. Além disso, a derrota é dada como certa em províncias que se sentiram esquecidas ou que protagonizaram a briga com o setor agrário.

Com isso, a maioria apertada de Cristina Kirchner no Congresso, que já foi assunto para latitude sul, iria por água abaixo. Pior que isso, o setor rural, hoje com 108 deputados, tem alguma possibilidade de chegar à maioria. Desta maneira, não são poucos os que falam que a presidente terá que deixar a Casa Rosada antes das eleições de 2011.

Poderia mesmo ocorrer um novo panelaço?

Entre 2001 e 2002, todos saíram às ruas para pedir “que se vayan todos”, mas só se foram alguns e os outros “todos” que ficaram se reuniram para definir quem seria o próximo presidente. Saída a fumaça branca da chaminé (não se trata de ideia minha, mas do jornalita Jorge Lanata), decidiu-se por Adolfo Rodriguez Saá.

Mas o parlamentar parecia não aceitar a ideia de ficar apenas dois meses no cargo e logo os “todos” reduziram um pouco mais o grupo: Saá foi expulso e, dessa vez, a fumaça branca saiu para escolher Eduardo Duhalde. Esse, por sua vez, escolheu Néstor Kirchner, que por sua vez escolheu Cristina Kirchner.

Os anos se passaram, a economia argentina deu sinais cada vez mais preocupantes, Duhalde arrependeu-se profundamente da escolha que fez e o matrimônio K enfraqueceu-se no projeto de ficar por muito tempo no poder. Agora, é possível que muitos argentinos repitam o voto-bronca de 2002, quando mais de 40% votaram nulo ou branco ou simplesmente não compareceram. –joão peres (cc)

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