semiautobiográficos, 2

28/06/2009 § Deixe um comentário

É difícil entender exatamente o que ocorre quando viajamos. Longe de casa, poros ficam mais abertos, olhos, mais atentos, cheiros entram pelas narinas para dormirem tranquilamente por anos na memória. Posso lembrar-me perfeitamente dos traços de pessoas com as quais jamais troquei uma palavra, e lembro-me das palavras proferidas por pessoas as quais não me lembro o nome ou nem mesmo os traços.

Durante os últimos anos, visitou-me a lembrança de Gladys Helena, uma menina de apenas oito anos com a qual conversamos enquanto a altitude permitiu no trajeto entre Cochabamba e La Paz. Na ocasião, chamou-nos atenção a maneira como a menina falava com desenvoltura sobre política. Conversou uns bons minutos a respeito de variados temas bolivianos.

Na época em que Gladys Helena era criança, 2004, a Bolívia havia acabado de viver a queda de Gonzalo Sánchez de Losada, um dos presidentes mais fabricados que qualquer país do mundo já teve. Quando eu era criança, caía Fernando Collor, coincidentemente ou não, um presidente fabricado. Goni retardou a chegada de Evo Morales ao poder. Collor atrasou a vida de Lula – e é provável que hoje Lula agradeça, mas não é esse o mérito da questão.

Naqueles dias, e por mais um ou dois anos, Gladys Helena foi na minha cabeça o exemplo consolidado de como, apesar das debilidades da educação formal, a Bolívia tinha um processo muito mais vivo de discussão política que no Brasil. Entre outras coisas, Gladys falou-nos naquele momento que Evo Morales, então “somente” um líder cocaleiro, tinha chance de ser o próximo presidente do país.

Para a menina, a ideia de ter um cocaleiro como presidente provocava arrepios, sensação que eu provavelmente tive quando pequeno, influenciado por TV e parentes, ao ver Lula, operário, candidatar-se. Os anos passaram, Morales mostrou-se um presidente importante para a Bolívia altiplânica reconquistar sua força e a noção de Gladys Helena como exemplo de discussão política saudável diluiu-se.

Recentemente, conversei com o professor Nildo Ouriques, da Universidade Federal de Santa Catarina, sobre a reserva de espaços para os trabalhadores em jornais, rádios e televisões bolivianos. O decreto de Evo Morales recuperou uma conquista que, nas décadas neoliberais, foi deixada de lado. Para Ouriques, a Bolívia vive a reconstrução popular do Estado democrático e no vizinho há o respeito ao conceito de democracia participativa. O professor aponta que se criou erroneamente a noção de que a liberdade de imprensa é a liberdade de expressão. Na opinião dele, os veículos privados de comunicação, se existirem, devem ter um papel secundário e nunca um quase monopólio, como no caso das Organizações Globo.

Tudo isso para dizer que, hoje, de exemplo consolidado de discussão política, Gladys Helena passou a ser, na minha cabeça, mais uma vítima da manipulação dos meios. Ela reproduzia de maneira fiel a versão apresentada nas televisões e repercutida em conversas familiares.

Hoje, a situação mudou. A Bolívia é outra, Gladys Helena deve ser uma adolescente com seus 13, 14 anos. A discussão no país é, agora sim, mais real, está nas ruas de fato, e não no discurso da TV, a não ser no caso da conservadora Santa Cruz. Trata-se de um processo muito complexo e é impossível supor se Gladys Helena libertou-se da visão neoliberal de sociedade, mas pelo menos a chance de isso ter acontecido é maior em um país que vive um processo forte de mudança política e que escancara parte de seus problemas.

Pude notar a efervescência desse debate nas outras vezes em que estive em Santa Cruz e La Paz. Na primeira, por coincidência, estava nas terras do Oriente em pleno dia de uma visita de Evo Morales à região. Uma multidão hostilizou o carro em que chegou e saiu o presidente e os manifestantes favoráveis a Evo eram repudiados (inclusive fisicamente) pelos cruceños. Nos minutos que se seguiram à saída de Evo, além de um “conflito” entre as duas partes, houve gritos, protestos e falas de “Evo, Evo, acabó. Comunista de mierda, la puta que lo parió”. Uma antievista gritava com orgulho apontando para uma garçonete: “Vejam, ela é uma colla de merda, mas está do nosso lado” – não cabe aqui explicar o que é colla mas, de uma maneira perigosamente simplificada, é como se ela tivesse gritado “vejam, ela é uma índia de merda”. Os protestos eram fortemente veiculados pelas redes de TV, ao vivo e gravado. 

Um ou dois anos depois, estava de volta a Santa Cruz, agora às vésperas de um dos referendos ocorridos no atual governo. A “elite branca” crucenha iniciava mais uma greve de fome, agora contra impostos e sabe-se-lá-que-mais, e eu tinha a obrigação jornalística de ver o que tinham a dizer naquela confortável casa de um bairro rico da cidade. A opinião oficialista a respeito do assunto foi apresentada em uma fala de poucos segundos do vice-presidente Álvaro García Linera por uma das redes locais de TV. O presidente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, Blanko Marinkovich, no entanto, teve direito a entrevista ao vivo e com longa duração – seguida por outras entrevistas para outros meios e por uma coletiva.

A música de Tom Zé que escuto neste momento parece cair a contento: “Ah, se maldade vendesse na farmácia, que bela fortuna você faria”. Mas as ações dos grandes grupos talvez tenham perdido força em uma Bolívia que não se cansa de reafirmar, nas ruas e nas urnas, o apoio a Morales. Talvez sejam as ações militantes do presidente, os discursos na sacada do Palácio Quemado, que ocorrem com frequência, e talvez seja a criação de veículos governistas ou mais bem intencionados que os anteriores.

Provoquei o professor Ouriques a pensar o que ocorreria se, no Brasil, um presidente mais independente tentasse, como fez Hugo Chávez na Venezuela, não renovar a licença de um canal de TV. Obviamente, haveria uma ação de todos os meios, entrariam no jogo os interesses dos Estados Unidos, certamente derrubariam o presidente, foi o tom da resposta do professor. “As empresas privadas de comunicação são verdadeiros monopólios que sequer praticam a função de ouvir os dois lados”, complementa.

Felizmente, nas últimas semanas temos um infeliz exemplo vivo da fala de Ouriques. Uma aula de como ocorre a criminalização de movimentos, sejam eles populares, sociais, estudantis, basta ser movimento, basta movimentar-se. Apenas para ficar nos dois “principais” jornais impressos, Folha e Estado fazem cobertura absolutamente vergonhosa dos episódios ocorridos na Cidade Universitária, em São Paulo. Os “dois lados”, que a Folha faz questão que conste em seu Manual de Redação, mas não no jornal em si, jamais estiveram em questão. Uma tentativa malograda de dar duas versões foi realizada na quinta-feira (11), quando, na seção Tendências e debates, o jornal publicou texto da reitora Suely Vilela e, em “contraposição”, saiu um artigo de José Arthur Gianotti. Não é preciso nem conhecer o professor da Faculdade de Filosofia para ver que o outro lado não esteve nem perto de ser contemplado.

Na Bolívia, Gladys Helena talvez tenha a chance de ver o mundo por outra ótica. No Brasil, a oportunidade de deixar a Gladys Helena que nos incutem desde o primeiro momento da vida é um pouco mais remota, pelo menos por enquanto. –joão peres (cc)

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