a ressaca do kirchnerismo

30/06/2009 § Deixe um comentário

A saída de Néstor Kirchner da presidência do Partido Justicialista (PJ) escancarou a disputa pelas eleições argentinas de 2011. Depois de perder as eleições legislativas do último domingo (28), o “Pinguim” decidiu entregar o comando da principal sigla argentina. Desde o fim da última ditadura militar, em 1983, o justicialismo governou o país entre 1989 e 1999 e de 2003 até os dias de hoje.

Com a saída de Kirchner, ficou na presidência provisória do PJ (ou peronista) Daniel Scioli, que já teve a porta golpeada algumas vezes ao longo desta semana. Passou pela sala dele o governador de Chubut, Mario Das Neves, declaradamente candidato e que afirmou que é hora de o justicialismo ser mais “aberto, mais participativo”.

Também esteve por lá Hugo Moyano, chefe da Central Geral dos Trabalhadores com o poder de deslocar multidões, mas que prefere ainda não falar abertamente sobre a candidatura. E, por último, esta terça-feira (30) teve a visita de Alberto Rodriguez Saá, governador de San Luis que há meses trabalha em uma frente antikirchnerista e que afirmou que Néstor “entrou no Partido Justicialista pela janela e se foi pela janela”.

Quem ainda não visitou Scioli, e talvez não precise fazê-lo tão cedo, foi Carlos Reutemann, ex-piloto de Fórmula 1 que levou duas das três cadeiras disponíveis para Santa Fé no Senado. É inegável o fortalecimento de Reutemann como provável nome justicialista em 2011.

E, E

Williams Gonçalves, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, destaca que a “política argentina se faz em grande medida dentro do Partido Justicialista. As relações políticas dentro do justicialismo são mais importantes para o país do que os demais partidos”.

De fato, em Buenos Aires, principal província argentina, o vencedor foi Francisco De Narváez, da coalizão de direita chamada PROperonismo. E o derrotado (ou segundo colocado, dependendo do ponto de vista) foi Néstor Kirchner, também do PJ, que para o professor da UERJ sepultou qualquer oportunidade de voltar oficialmente à presidência.

A União Cívica Radical (UCR), que já teve na Casa Rosada Raul Alfonsín e Fernando de la Rúa, hoje aparece como uma força secundária. Nas eleições legislativas, no entanto, surgiu a possibilidade de que o vice-presidente Júlio Cobos, vencedor da votação em Mendoza, viabilize sua candidatura.

Governabilidade

Como as eleições foram antecipadas de outubro para junho, a nova legislatura terá início apenas em dezembro, dando aos Kirchner mais alguns meses de maioria no Congresso para aprovar medidas de interesse do governo. A primeira da lista é a Lei de Radiodifusão, que para o oficialismo tem o poder de melhorar a imagem junto à população ao enfrentar os grandes grupos midiáticos, particularmente o Clarín.

No entanto, ciente de que terá dois anos de governo sem maioria, Cristina Kirchner tenta acenar com negociações. O primeiro paquerado foi Fernando Pino Solanas, documentarista que surpreendeu, alcançando o segundo lugar na cidade de Buenos Aires. Dois anos atrás, quando foi candidato à presidência, o líder de uma coalizão de esquerda havia alcançado 200 mil votos, contra 400 mil na votação. Mas Pino, em entrevista ao diário Crítica Digital, rechaçou qualquer aproximação: “surpreendeu muito porque até o domingo nós éramos uma porcaria para o governo, um demônio, um Judas”.

Pior para o kirchnerismo é que a bancada ruralista experimenta crescimento e pode, com alianças, aprovar projetos de interesse do setor rural no Congresso. Ainda assim, para Williams Gonçalves, da UERJ, não é provável a hipótese levantada por alguns segmentos de que Cristina Kirchner terá de antecipar o fim do mandato. “Se há uma coisa que os argentinos hoje prezam mais do que qualquer outra é o funcionamento das instituições democráticas. A nação argentina é profundamente traumatizada com o autoritarismo dos governos militares”, destaca.

Pode contribuir também para o governo a aparente apatia em certos setores da sociedade argentina. Destacou-se nos últimos dias que o país passou do ¡que se vayan todos! de 2001 e 2002 para o atual que se quede cualquiera. Parece não fazer muita diferença quem vai ocupar a Casa Rosada.

A tensão com o campo, que entre idas e vindas já dura mais de um ano, deve seguir presente no atual governo. Para o professor da UERJ, a negociação tem que ser feita: “o que tem marcado o governo dos Kirchner é o esforço em reindustrializar o país. A ideia é que a Argentina, para se reerguer, precisa se industrializar. Consequentemente, não pode ficar a reboque dos interesses do campo. Eu duvido que outro governo com a mesma disposição pudesse resolver a situação de maneira negociada”.

Política externa

Cristina Kirchner anunciou que vai acompanhar o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, no regresso ao país centro-americano, na quinta-feira. Além deles, Rafael Correa, do Equador, confirmou presença na comitiva.

É uma atitude rápida na tentativa de ganhar evidência internacional. Williams Gonçalves aponta que há uma crítica muito forte à política externa dos Kirchner exatamente por ela não ser definida, ser apenas uma extensão da política interna.

Na verdade, é fato reconhecido que o Pinguim ressentiu-se de não ter sido consultado pelo Brasil sobre os assuntos relativos ao continente e, mais especificamente, sobre o Mercosul. Com isso, buscou uma aproximação da Venezuela na tentativa de enfraquecer a liderança brasileira na região, mas essa aliança teve repercussões negativas no cenário interno.

Para o professor, o ressentimento só fez aumentar quando Barack Obama demorou a enviar manifestações aos dirigentes argentinos quando assumiu a presidência dos Estados Unidos. Mais do que isso, o novo presidente recebeu Lula em Washington e afirmou que “ele é o cara”. –joão peres (cc)

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