honduras e o autogolpe do psdb

04/07/2009 § Deixe um comentário

Presta o jornalismo brasileiro mais um desserviço esta semana com a cobertura sobre Honduras. A começar pelas tentativas de justificar o golpe, que não eram somente frágeis, mas principalmente mentirosas. Em momento algum Manuel Zelaya propôs que fosse ele o reeleito. Pontue-se que a pergunta a ser feita paralelamente às eleições de fim de ano era sobre a convocação de uma Constituinte.

A Folha deste sábado (4) dá uma aula exemplar de diversos pesos, diversas medidas. Em primeiro lugar, o governo golpista não é tratado como tal, mas como “governo interino”. Claro, por que alguém não pode decidir passar um tempinho na presidência?

A recusa de José Miguel Insulza, secretário-geral da OEA, em conversar com os seguidores do golpista Roberto Micheletti é tida pelo repórter Fabiano Maisonnave (ou seu editor, dá no mesmo) como o primeiro passo de uma dificuldade das duas partes em chegar a um acordo. Afinal de contas, todo governo golpista, no fundo, quer é chegar a um acordo, está louco por isso.

A OEA, até outro dia a toda-paciente com seus 47 anos de veto a Cuba, é agora a intransigente: “Na entrevista coletiva de ontem à noite, Insulza voltou a qualificar o que houve no país de ‘golpe militar’”. Mais uma vez, fica evidente como é maldosa essa insistência do chileno em chamar de golpe o que ocorreu em Honduras. Semanticamente impecável seria dizer que houve uma “transição de poder”.

Hugo Chávez aparece como um “aliado do ex-presidente e considerado por muitos no país como o pivô da crise”. Obviamente, uma vez que todos os envolvidos no rearranjo de poder – diga-se dessa forma para que não se provoque rebuliço – eram pessoas das mais bem intencionadas e jamais quiseram provocar uma crise, longe disso. A transição foi feita na mais absoluta tranquilidade, como mostram os relatos dos dias seguintes aos fatos.

Além disso, destaca a reportagem que “a substituição de Zelaya por Micheletti, até domingo presidente do Congresso, contou com respaldo de todos os Poderes hondurenhos, da cúpula das Forças Armadas, da maior parte dos empresários e da maioria do Partido Liberal”. Uma substituição, assim, como num jogo de futebol.

Teria gritado Micheletti: Ô Zelaya, sai aí que eu to loco pra marcar um golzinho?

Obviamente, Zelaya, que não é bobo nem nada, jogou o treinador contra a torcida ao se negar a sair. Que desleal.

Esquece-se a Folha de dizer que os mesmos “todos Poderes hondurenhos” são nomeados pelo… Congresso que, agora sim auxilia-nos o repórter, era presidido até semana passada por Micheletti.

Até agora, o jornal negou-se a fazer uma análise aprofundada da vida partidária em Honduras, mostrando que, até os primeiros anos do governo Zelaya, os movimentos sociais e sindicais eram duramente reprimidos.

Mais do que isso, o país vive há 108 anos um sistema bipartidarista, em que duas legendas revezam-se no poder – uma é o PLH de Zelaya e Micheletti; outra, o PNH, que apoia a pena de morte e tudo que se pague para que eles apoiem.

Voltando ao glorioso parágrafo da Folha, a cúpula das Forças Armadas, usada para justificar o apoio interno a Micheletti, foi formada na década de 80 pela Escola das Américas, plano de treinamento da CIA que formou os exércitos sul-americanos responsáveis pela Operação Condor das décadas de 60 e 70 – apenas para resumir de maneira grotesca.

Na década de 80, presidentes extremamente favoráveis aos Estados Unidos permitiram que por ali fosse instalada uma base estadunidense de treinamento para combater os sandinistas. Nessa época, formou-se a mentalidade da mesma cúpula das Forças Armadas que hoje serve de embasamento para o golpe. Não por acaso, o embaixador dos EEUU na época era John Negroponte, o mesmo do Vietnã de Johnson e do Iraque de Bush. Os ovos que ele botou, portanto, finalmente vieram à luz. Se esses se tornaram vivíssimos agora, 30 anos depois, é bom começar a ter medo do que estará por vir.

Não é exagerado, portanto, estabelecer um paralelo entre o que ocorreu em Honduras agora e a Venezuela em 2002, embora deva-se dizer que há um espaço infinito ideologicamente entre Zelaya e Chávez. E, também, é o mesmo caso ocorrido na Bolívia, em que tentativas de golpe não foram levadas a cabo por fatores que se desconhece.

Volto ao tema do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz e às suas reais intenções.

Em Santa Cruz, Bolívia, lembro-me das conversas que tivemos com a professora Paula Peña, da Universidade Autônoma Gabriel René Moreno, e o amigo dela, um pintor-escritor-historiador cujo nome me foge à memória. Diziam eles que não tinham preconceito algum contra Evo Morales pelo fato de ele ser indígena. O problema era que Evo queria fazer imperar no país o modelo de desenvolvimento superado, sem participação do capital privado, algo incaico. E eles, como crucenhos, tinham o direito de fugir daquele modelo.

Para os dois historiadores, bom modelo de desenvolvimento para a Bolívia era German Busch, militar que governou o país entre 1938 e 39. Se ocorressem hoje, os três golpes dados por Busch provavelmente receberiam outro nome da Folha. E, claro, o governo dele seria interino.

E o que o PSDB fez no meio da semana, que seria? No português correto, um autogolpe. No português da Folha, uma prorrogação de mandato. Sai apenas na esvaziada edição de sábado a notícia de que, na quarta, a Executiva Nacional do PSDB “prorrogou o próprio mandato por mais um ano e confere a si mesma o poder de manter ou destituir diretórios estaduais”.

Começa a matéria dizendo que houve o aval dos governadores José Serra e Aécio Neves. Informa ainda o jornal que caberá à “Executiva Nacional buscar uma saída negociada nos estados onde há risco de turbulência”. Em outras siglas, a tal turbulência é também conhecida como discussão interna, ou melhor, democracia.

Estranhamente, os repórteres em momento algum ouvem fontes do próprio partido que sejam contrárias à medida – e certamente há, embora a estrutura interna tucana não seja exatamente um modelo de amplo debate. Não há alusões ao chavismo e o jornal tampouco fala que a medida vai atrasar a “substituição” das forças internas.

Se fosse em um partido da esquerda, ou mesmo no PT, qual seria a classificação da Folha para a medida? Bom, ditabranda certamente não seria. –joão peres (cc)

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