esquerda e direita é coisa do passado

31/08/2009 § Deixe um comentário

Jimena Costa mora em uma muito elegante casa de um dos (pouquíssimos) bairros de classe alta de La Paz. São ruas infinitamente mais organizadas que as de outras regiões da cidade, com sensação de segurança, belas vistas, boa gastronomia. Naquele local ela se desenvolveu como analista política — recentemente, Jimena Costa e outros, incomodados que estavam com a proliferação dessa classe, decidiram mudar de cargo para politólogos.

Durante anos, recebeu jornalistas — inclusive este que assina estas linhas — para falar bem ou mal sobre o presidente de turno. Agora, decidiu mudar de rumos e lançou-se candidata à presidência. Ainda que não leve o projeto a cabo, como já ameaça abortar a operação, Jimena Costa coloca-se como nome possível na política boliviana.

Sergio Fajardo Walderrama morou durante muitos anos em alguma casa de Bogotá a qual eu não conheci, por isso não se sabe se era confortável, elegante ou o quê. Convidado a opinar em diversos veículos de comunicação, criou um nome forte que teve condições de comandar um bloco político independente que o conduziu à prefeitura de Medellín. Lá comandou um trabalho que, embora inconcluso por falta de tempo, levou a cidade outrora mais violenta do mundo a uma condição muito melhor. Medellín é lugar que sem dúvida não “inspira” a insegurança que se pode imaginar quando se olha apenas o passado e que de fato tem os projetos enumerados por Fajardo na entrevista abaixo.

O que os dois têm em comum? Além de serem candidatos à presidência, tentam manter o rótulo de independentes, comandantes de vontades da sociedade, e evitam definições sobre espectro político. Jimena Costa fala que vai trabalhar com os dois setores, sem importar se são de esquerda ou de direita. Fajardo, em Medellín, trabalhou com os dois setores, claramente sem buscar os extremos. E os dois entenderam muito bem a repulsa que as populações latino-americanas têm aos líderes políticos tradicionais, escorando-se nisso para ganhar o eleitorado.

Quanto às diferenças, Fajardo é um nome consolidado e, hoje, o único que vislumbra a possibilidade de bater Álvaro Uribe ou qualquer uribista no próximo ano. Jimena Costa tem pouco mais de três meses para consolidar seu nome, convencer os colegas de que é a melhor opção para o tal “bloco cidadão” e ganhar votos de Evo Morales. A seguir, as duas entrevistas concedidas por telefone na última semana. –joão peres(cc)

A Bolívia precisa de uma mãe

Quem tem medo do Uribe?

heloísa helena é cheirosa

23/08/2009 § Deixe um comentário

Nove horas de mais uma manhã chuvosa do mais chuvoso dos invernos de que se tem notícia em São Paulo neste século. Umas poucas pessoas chegam no horário ao 2º Congresso do PSOL, na quadra do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e região.

Logo na entrada há uma banquinha daquelas que vendem DVDs de filmes ‘não-hollywood’ e livros destinados ao público de esquerda. Seguem-se inúmeras outras que vão de sanduíches de carne louca a bonecas e cachecóis, passando por livros, muito mais livros.

Nos contornos da quadra há faixas. O local está repleto de faixas com os mais diversos motivos: críticas ao PT, alertas sobre a crise financeira mundial, pedido de prisão para o banqueiro Daniel Dantas, solidariedade ao povo de Honduras e Fora Sarney. Além do presidente do Senado, Heloísa Helena é o nome mais citado nas faixas. A ex-senadora, que deve sair daqui como candidata do partido à presidência da República, ainda não chegou. Ela hesita entre disputar novamente o Planalto ou entrar na corrida pelo Senado por Alagoas, confrontando-se com Renan Calheiros, do PMDB.

As centenas de cadeiras espalhadas pelo local vão sendo preenchidas aos poucos, bem aos poucos, pelos militantes do partido. A esquerda, pelo menos a atual, não é estereotipável como fez supor durante décadas o imaginário fabricado por alguns veículos de comunicação: há homens com barba por fazer e com barba feita, mulheres com roupas mais largas e outras com comportados tailleurs. Há cabelos rastafari, cortes tradicionais e outros cobertos por boinas, camisetas com motivos partidários, com mensagens de Fora Sarney e outras que teimosamente levam apenas cor e nada mais, nenhum texto.

As faixas vão chegando lentamente — junto com elas vêm as pessoas. Para quem tem três dias de discussão pela frente, a pressa é desnecessária. Nesse caso, a pressa é inimiga da discussão. Heloísa Helena, sabedora do tema, está atrasada.

Depois dos três dias de conversa, o partido espera ter, no mínimo, uma linha para as eleições do ano que vem. Na melhor das hipóteses, uma candidata: Heloísa Helena ouvirá durante o fim de semana argumentos contra e a favor de sua candidatura. Está claro que a maioria prefere que a ex-senadora tente novamente o Planalto – julgam insano jogar fora a demonstração de força dada pelas pesquisas divulgadas recentemente, que colocam Heloísa Helena com 12% das intenções de voto no pior dos cenários.

Quem espera pelo início do congresso do PSOL se vira como pode. Há os que antecipam a discussão, há quem prefira ler um livro, outros vão à padaria da frente jogar conversa fora, os mais modernos usam computadores portáteis para ler e escrever.

Claro, muitos não estão a toa e agradecem o tempo a mais para organizar a situação. Mais uma faixa de Fora Sarney – mas não qualquer faixa, senão a maior de todas – está agora na quadra e falta apenas encontrar um lugar para a mensagem. Os portadores da tal faixa penduram-se por todos os lados, puxam barbantes para lá e para cá, e por fim fixam os muitos metros de material plástico do lado oposto ao palco que espera os dirigentes partidários.

Uma hora e meia depois do horário marcado para o início do evento, chega a notícia: Heloísa Helena está reunida com a direção do partido em algum lugar de São Paulo. Para quem chegou no horário, ela está atrasada.45 minutos mais tarde, uma nova informação dá conta de que, em meia hora, tudo vai começar. Na quadra, agora praticamente cheia, as pessoas estão juntas assistindo ao pequeno espetáculo de um violeiro.

Perto dali, anda pelas ruas da capital paulista o deputado fluminense Chico Alencar. Caminha calmamente ao lado de dois companheiros de partido, faz uma breve parada na frente do prédio em que antigamente se reunia com os colegas de PT.Assim que entra na quadra, é saudado pelos militantes. Pega a fila do credenciamento normalmente – “aqui não tem deputado nem senador. É todo mundo soldado. Se for para construir um partido decente, tem que ser assim”, decreta do palco o violeiro.

Chico Alencar pega o credenciamento e distribui aos militantes uma síntese sobre as teses que serão apresentadas em algum momento durante a tarde. Um dos militantes brinca que o deputado, esse sim, é a síntese do PSOL. Ele ri, e rejeita a primeira tese do dia:

“Eu procuro reunir todas as vertentes. O PSOL ainda é um partido de correntes, e não com correntes. Sou independente, acho que militar no PSOL já está de bom tamanho e não tenho pernas para ir além.”

Enquanto isso, faixas continuam sendo pregadas por toda parte. Surge uma bandeira roxa enquanto o cantor-militante discursa:

“O partido é  feito de tendências. Quando uma tendência quer se tornar maior que o partido, que saia.”

Chico Alencar, novamente, concorda:

“O PSOL é  uma alternativa de esquerda com a visão estratégica do socialismo sustentável ambientalmente. E, portanto, uma candidatura à presidência é muito importante.”

Heloísa Helena, que ainda não chegou, está na boca de todos. O deputado federal Ivan Valente é outro que não tem dúvidas sobre a candidatura: afirma que 100% do partido quer a ex-senadora na primeira disputa sem o presidente Lula no pós-redemocratização.

“É a única candidatura que vai ter perfil socialista, antineoliberal, de esquerda. E além de tudo é a única com fixação de nome na sociedade, o que confere ao PSOL um status bastante competitivo na disputa.”

Para o deputado, a conjuntura se tornou rapidamente interessante para o partido com o desgaste sofrido pelo PT na defesa de José Sarney e o ingresso de Ciro Gomes e Marina Silva na corrida.

“A senadora Marina Silva é uma novidade no processo, ela tem um perfil importante, é uma pessoa respeitável. Ainda é uma incógnita, mas achamos que é uma candidatura bem-vinda porque ajuda a pulverizar a polarização entre Dilma e José Serra.”

Quando termina nossa conversa, eis que chega Heloísa Helena. O 2º Congresso Nacional do PSOL finalmente pode ser aberto com direito a bateria e militância gritando o nome da ex-senadora para a presidência. Na longa trajetória de discursos até chegar o momento da estrela da festa falar, todos apoiam a candidatura à presidência: PSTU e PCB, movimentos sociais, os deputados federais e o senador do PSOL. Todos criticam o PT, o PSDB e o Dem e consideram que não há candidatura viável de esquerda sem a presidente do partido.

Duas da tarde, eis o momento em que Heloísa Helena vai falar. Por alguns momentos aparecem tietes, fãs, gente com câmeras de todos os “calibres” e mesmo os que apelam ao celular para registrar o momento. Com uma folha sulfite rabiscada e dobrada ao meio, ela se levanta, vai ao microfone e inicia o discurso inflamado que durará pouco mais de 20 minutos. Todos querem saber se assim, de cara, Heloísa Helena confirmará que é candidata – à presidência, não ao Senado.

Depois de frases e mais frases sobre o processo interno do partido e críticas ao PT – é quando as veias do pescoço saltam e o rosto fica vermelho –, ela finalmente cogita falar sobre candidatura. Diz que não se deve depositar sobre uma só pessoa a esperança do processo eleitoral e mareja os olhos ao agradecer “a generosidade do povo brasileiro de acreditar em uma mulher do povo, uma sertaneja, ora tida como louca, ora tida como histérica, dar 14 a 24% nas pesquisas”.

Ao mesmo tempo, ela adverte que a escolha do candidato do PSOL não deve ser feita pelo que mostram as pesquisas: “uma disputa eleitoral não pode ser baseada nos índices apresentados pelos institutos de pesquisa porque isso é típico de oportunismo eleitoreiro. A candidatura se dá em torno do conteúdo programático, do candidato que represente a unificação do partido”. A pré-candidata aproveita a oportunidade para fazer uma crítica ao partido, que nos últimos anos esteve com rachas internos e que agora, por conta da pesquisa, mostra uma unidade que, para ela, é artificial.

A ex-senadora, experiente na política, sabe que apenas uma mudança inédita de rumo alterará  a vida partidária até domingo de modo que seja outro o candidato. O que ela não pode é descartar de imediato a candidatura ao Senado por Alagoas: “a luta lá não é uma coisa qualquer, não é uma coisa simples. A elite política lá não é uma coisa qualquer. Então é justo que o povo de Alagoas peça que eu disponibilize meu nome para enfrentar a direita cínica, farsante, assassina e corrupta do estado”.

Durante o discurso, Heloísa Helena deixa para o partido a definição, evitando desgastes tanto de um lado quanto de outro. Ao fim, não custa tentar que a ex-senadora fale algo a mais:

“Senadora…”

Heloísa Helena beija e abraça o repórter sem dar tempo para uma apresentação e uma pergunta. Depois do abraço, é possível por fim pedir uma conversa.

“Sobre o quê?”
“Sua candidatura.”
“Não há nada definido, o congresso não está nem no primeiro dia.”

E vai-se embora levando nas mãos a espada dada pela deputada federal Luciana Genro – segundo a parlamentar, para cortar a corrupção e o neoliberalismo. Praticamente todos foram almoçar. Apenas a bateria continua por lá com gritos de Heloísa Helena presidente. –joão peres (cc)

a revolução que não é mais

17/08/2009 § Deixe um comentário

Quando visitou a Nicarágua, em 1980, Luiz Inácio Lula da Silva foi só elogios. “O que vimos foi um mundo realmente diferente, com a participação do povo, sua felicidade, o alcance da democracia interna. Em suma, o povo plenamente no poder.” No Brasil, eram os tempos das greves do ABC. Lula presidia o Sindicato dos Metalúrgicos, o PT se dizia defensor do socialismo e a ditadura militar encaminhava-se para sua fase final.

Nesta mesma época, os partidários da democracia festejavam a revolução que acabava de estourar na Nicarágua. No dia 19 de julho de 1979 – há 30 anos – o Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) havia unificado a maioria dos nicaraguenses contra o governo de Anastásio Somoza Debayle e marchava triunfante sobre Manágua para tomar o poder. Acuado, o presidente fugira para Miami. “Da noite para o dia”, diz a historiadora Matilde Zimmermann, do Sarah Lawrence College, em Nova York, “a capital passou de uma guerra civil a uma paz interrompida por comemorações e demonstrações de júbilo.”

Foi com este cenário que se deparou Lula ao desembarcar na Nicarágua no ano seguinte da Revolução Sandinista. Então, o governo se encontrava mergulhado na difícil tarefa de construir o novo. A Nicarágua havia vivido por 43 anos sob uma espécie de ditadura familiar iniciada com um golpe de estado aplicado por Anastásio Somoza García (o pai) em 1936. Então, Somoza era o comandante da Guarda Nacional e havia combatido com sucesso a primeira guerrilha sandinista que existiu no país, liderada pelo próprio Augusto César Sandino. À frente do Exército Defensor da Soberania Nacional, Sandino lutava para pôr um basta na constante intervenção militar dos Estados Unidos em território nicaraguense.

“Entre 1849 e 1933, os fuzileiros navais invadiram a Nicarágua nada menos que catorze vezes”, escreve Zimmermann. Depois de sete anos lutando contra esse tipo de abusos, Sandino foi obrigado a assinar um armistício. Na mesma noite em que depôs as armas, foi assassinado por uma conspiração de Somoza.

Muito tempo depois, em 1963, a figura de Sandino seria recuperada pelo líder estudantil Carlos Fonseca Amador na organização de um novo grupo guerrilheiro, o FSLN. O principal objetivo do Frente Sandinista, no entanto, não era acabar com a presença dos Estados Unidos na Nicarágua, mas sim com a ditadura de Luis Somoza Debayle (o outro filho), que na década de 50 havia incrementado a repressão contra as forças opositoras do regime hereditário. Tudo porque o êxito da Revolução Cubana havia disseminado pela resistência nicaraguense, especialmente entre a juventude, a certeza de que era possível derrubar um governo autoritário por meio de uma insurreição popular.

“O Frente Sandinista mostrou ao povo que a luta armada era a única maneira de sair da ditadura. Para começar, as eleições eram uma farsa e Somoza se apoiava no terror da Guarda Nacional. Era necessário neutralizar o poder militar do governo”, conta o escritor Sérgio Ramírez, que foi vice-presidente da Nicarágua durante o governo revolucionário. “A atividade guerrilheira demonstrou que a Guarda Nacional era vulnerável a ponto de ser atacada e derrotada em seus próprios quartéis.”

Ademais, o FSLN propôs alianças com todos os setores da sociedade nicaraguense: trabalhadores, campesinos, empresários, igreja católica, classe-média, pequenos e médios proprietários etc. “Somoza apenas perdeu respaldo social e ficou isolado precisamente devido a essa aliança”, analisa.

A verdade é que a ditadura se desgastava cada vez mais, e um dos fatores preponderantes para a ruína do somozismo foi o terremoto que destruiu Manágua em 1972, matando dez mil pessoas. Ao invés de trabalhar pela vida dos sobreviventes, o governo de Somoza preferiu vender os milhares de litros de sangue doados pelo povo cubano a empresas norte-americanas e desviar os recursos financeiros enviados para a reconstrução. “Nessas circunstâncias, até as instituições que anteriormente apoiavam Somoza, como a hierarquia da igreja católica, começaram a criticar o regime”, explica Zimmermann.

O primeiro ano do sandinismo no poder foi marcado por uma ampla campanha de alfabetização. Antes da revolução, metade dos nicaraguenses não sabia ler ou escrever. O FSLN mobilizou mais de sessenta mil brigadistas para combater o analfabetismo e, poucos meses depois, já havia reduzido em 13 por cento a porcentagem da população sem acesso à educação básica. As brigadas também foram utilizadas para levar saúde aos rincões mais afastados do país, e certamente não teriam colhido os mesmos resultados sem a massiva participação de voluntários cubanos. “Cuba teve muita importância para a Nicarágua, enviando médicos e professores”, conta Sérgio Ramírez. “Houve muita solidariedade, uma solidariedade sem limites, eu diria.”

A Revolução Sandinista também abriu espaço para um processo inédito de reforma agrária, que começou dividindo as propriedades da família Somoza, cujas fazendas correspondiam a 20% do solo arável da Nicarágua. “Pela primeira vez na história, os campesinos tinham crédito para plantar, recebiam assistência técnica e tinham preços garantidos de compra de sua colheita”, lembra Zimmermann. As mansões do ditador se transformaram em escolas, creches e centros sociais. Os bancos foram todos nacionalizados, assim como as exportações mais importantes do país: algodão, café e açúcar. Apesar disso, “a FSLN alegava estar comprometida com uma ‘economia mista’ e com a proteção da propriedade privada, e insistia com os capitalistas para que investissem e aumentassem a produção a fim de revitalizar a economia nacional.”

O jornalista brasileiro José Arbex Jr, que esteve na Nicarágua em 1986, explica que o Frente nunca foi revolucionário, no sentido marxista do termo. “Nunca assumiu um programa claramente anticapitalista, de clara ruptura com o imperialismo. As forças de esquerda, dentro do FSLN, sempre tiveram que lutar contra a maioria revisionista e moderada.” Mesmo assim, a oposição não tardou em organizar-se para combater o sandinismo da pior maneira possível.

“Começamos com amplo consenso nacional, inclusive dos empresários, mas algumas das nossas políticas enviaram sinais contrários à propriedade privada que afetaram não só os grandes, mas também os pequenos e médios proprietários”, explica Manuel Morales, ex-dirigente do FSLN. A elite industrial nicaraguense começou a investir seu capital no exterior, reduzindo a produtividade nacional e agravando o desemprego. A Nicarágua sofria com o desabastecimento e com boicotes à produção. Fábricas fechavam as portas e fazendeiros se recusavam a semear. Enquanto isso, o governo se debatia em busca de uma fórmula mágica para ganhar a confiança da burguesia e, ao mesmo tempo, manter-se fiel às exigências populares.

Até que, em 1982, veio uma nova guerra civil. Antigos quadros da Guarda Nacional e tropas mercenárias baseadas em Honduras começaram uma movimentação contra-revolucionária que lançaria o país numa aguda crise. O dinheiro que financiou as operações militares dos “contras” veio dos Estados Unidos. Além de injetar 400 milhões de dólares no conflito, Washington debilitou o sandinismo no plano econômico. Assim como Cuba, a Nicarágua passou a amargar um embargo comercial.

Para combater a insurgência conservadora, o FSLN instituiu o serviço militar obrigatório e uma série de medidas de emergência que desagradaram à população. O desgaste, inevitável devido ao esforço de guerra, culminou com a derrota do FSLN nas eleições de 1990. “As pessoas votaram pela paz”, diz o ex-guerrilheiro Manuel Morales. “Se o Frente Sandinista continuasse no poder, continuariam os enfrentamentos com o governo dos Estados Unidos. Naquele contexto de Guerra Fria, Washington dificilmente deixaria de nos agredir.”

O professor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) na Costa Rica, Abelardo Morales, concorda que a guerra civil foi o golpe mais duro desferido contra o regime revolucionário. No entanto, argumenta que “o FSLN tampouco soube conduzir suas relações com os grupos de oposição e outros setores da sociedade que se sentiam prejudicados em seus interesses. A revolução também teve problemas com a população indígena da Nicarágua que, por isso, veio a se transformar numa das bases de apoio dos contras.”

Então vice-presidente da Nicarágua, Sérgio Ramírez acredita que um dos principais pecados do governo revolucionário foi o excesso de ideologização. “Dentro do FSLN se acreditava que com a ideologia poderíamos resolver as carências materiais da população. Isso envenenou todas as relações, dividiu a sociedade, destruiu as alianças e nos colocou num caminho de confrontação interna do qual o governo de Ronald Reagan se aproveitou.”

A paz chegou em 1987. Um acordo assinado entre o FSLN e os contras, com a mediação do presidente costa-riquense Oscar Arias, tinha colocado fim à guerra civil e estabelecido um programa de anistia aos inimigos da revolução. O país que se dirigia às urnas em 1990 chorava a morte das 30 mil vítimas fatais do conflito, lamentava o desalojo forçado de 350 mil famílias de lavradores e computava nove bilhões de dólares em danos econômicos diretos. O Frente Sandinista ganhou as duas guerras que disputou – uma contra Somoza e, outra, com os contras – mas a população não queria saber de mais conflitos. Mesmo tendo abandonado o vermelho e negro do FSLN durante a campanha e trazido seu discurso para o centro, Daniel Ortega foi vencido com folga por Violeta Chamorro, da União Nacional Opositora (UNO).

Em 1996 e 2002, Ortega voltaria a disputar a presidência da Nicarágua antes de sair vitorioso em 2006. A estas alturas, porém, o FSLN já havia perdido muitas das características que um dia lhe definiram como organização revolucionária. “O legado fundamental do Frente Sandinista foi a derrota da ditadura somozista e a criação das condições para a busca de estabilidade democrática no país”, explica Abelardo Morales, da FLACSO. “Houve avanços importantes, mas lamentavelmente temos que reconhecer que não aconteceu nenhuma grande transformação estrutural na Nicarágua.”

Durante as comemorações dos 30 anos da Revolução Sandinista, em Manágua, a ex-guerrilheira Dora María Téllez disse que o país atualmente vive sob um governo “orteguista” e não sandinista. “Do sandinismo revolucionário não sobrou nada. O que existe hoje em dia é um governo com discurso de esquerda, muito retórico contra o imperialismo e a burguesia, como nos anos 1980, mas com políticas conservadoras e de direita”, critica Sérgio Ramírez.

Abelardo Morales acredita que o personalismo de Daniel Ortega é contrário aos cânones sandinistas. “O sandinismo nunca girou em torno da figura de um caudilho, aliás, rompe com essa lógica, é a antítese desta cultura política que se baseia na existência de um caudilho que se elege como um senhor todo-poderoso perante a sociedade”, explica. “O orteguismo, pelo contrário, é parte da cultura política tradicional nicaraguense.” Ainda mais agora, que o presidente acaba de anunciar a intenção de reeleger-se indefinidamente. Para José Arbex Jr, as diferenças entre o Ortega de 1979 e o atual são basicamente “as mesmas que podem ser apontadas entre o Lula das grandes greves do ABC e o Lula da ‘Carta ao Povo Brasileiro’ de 2002, claro que respeitando as diferenças de contexto histórico”. –tadeu breda (cc)

entre o presente e o passado

17/08/2009 § Deixe um comentário

A escultura de Fernando Botero no Parque San Antonio está ali para que ninguém se deixe esquecer: a violência faz parte da história de Medellín. Doada pelo artista em 1989, El Pájaro (O pássaro, em português) teve seu interior usado na década de 90 para realizar um atentado que deixou 28 mortos na segunda maior cidade colombiana. Em protesto, Botero criou outra escultura idêntica, metálica, de mais de dois metros, que hoje está ali, ao lado da danificada pela explosão.

Em qualquer parte que se ande, a tentativa é de mostrar que a cidade está transformada e que os tempos de narcotráfico são passado. Faz parte do orgulho do povo paisa, de Antioquia, mostrar que tudo vai bem e que o local é perfeitamente seguro. Sem dúvida, andar por essas ruas, na maior parte do tempo, não guarda uma ínfima parte do risco que se poderia esperar do município que em 1991 ostentava 381 mortes a cada 100 mil habitantes.

A trajetória começou a mudar, primeiramente, em 2003, com a desmobilização de paramilitares. E logo em seguida, com a eleição de Sérgio Fajardo, matemático colombiano sem histórico de carreira política e que hoje sonha com a presidência. Evitando definir-se de direita ou de esquerda, a administração da cidade entre 2004 e 2007 – e eleita para novo mandato sob comando de Alonso Salazar Jaramillo para 2008-2011 – investe fortemente em cultura e em educação (sempre 30% do orçamento, contra 21% de São Paulo, por exemplo), realizando obras em regiões carentes da cidade e eventos de lazer.

Uma das áreas que recebem as obras é Santo Domingo, uma das comunas (favelas) da cidade. À medida que o Metrocable, mistura de bondinho, teleférico e transporte público, sobe o morro, vai ficando claro que falta a Medellín um longo caminho a percorrer. Olhando para baixo ou para a frente, dá-se conta do número de construções precárias existentes nos morros da desafiante geografia da capital antioquenha. “A cidade tem cor de tijolo”, define de maneira precisa um jornalista que faz a subida.

De longe, é possível ver um dos projetos-piloto da administração municipal na luta contra a violência: o Parque Biblioteca Espanha. Há outros quatro iguais a este, com áreas para oficinas, exposições, acesso à internet sem custo e realização de eventos para a comunidade – além de livros, obviamente. Mais cinco estão em projeto e outros três devem ser inaugurados no biênio 2010-2011.

Nas palavras de Adriana Gonzáles, diretora do Medellín Convention Bureau, instituição privada que trabalha em parceria com a prefeitura para melhorar a imagem da capital antioquenha, a recuperação consiste em “fazer com que os cidadãos retomem para si os espaços da cidade”.

Retomar os espaços quer dizer investir em cultura. Todo ano, em agosto, a cidade abriga a Feira das Flores, evento mais importante do calendário paisa e que tem várias atrações todos os dias, estimulando a população a ficar nas ruas. Mas o horário dos acontecimentos, até meia-noite, indica a cautela com a qual o problema é tratado. Houve anos em que 70 mortes eram registradas durante os dez dias de feira.

De fato, discursos otimistas não conseguem ocultar os fatos. Neste ano, Medellín já tem em torno de 1.100 homicídios, mais que os 1.044 do ano passado – em 2007 haviam sido 771. O temor é retornar aos níveis de 2003, de 184 para cada 100 mil habitantes, ou 2.012 ao longo do ano.

A crise financeira internacional não é suficiente para explicar o aumento da taxa. A elevação das mortes evidencia que há disputa pelo controle de bocas de tráfico e que vários paramilitares tidos como reinseridos na sociedade voltaram às armas, como admite Jorge Humberto Melguizo Posada, secretário de Desenvolvimento Social.

Ele aponta que certos territórios ficaram sem comando devido à prisão de chefes, e agora os “de segundo e terceiro níveis estão se enfrentando para dominar o mercado do vício. Há um ressurgimento deste conflito entre grupos”.

William Ortiz Jimenez, professor da Escola de Ciências Políticas da Universidade Nacional da Colômbia (Unal), critica que “nos bairros populares, outra vez há um imaginário de que não se pode passar a certas áreas porque há um enfrentamento direto. Há todo um controle da cidade pelas quadrilhas” (leia aqui a entrevista completa).

Jorge Humberto Melguizo Posada acrescenta aos problemas a falta de uma política nacional para a segurança em meios urbanos, preocupando-se mais com as zonas rurais, e o desenvolvimento do narcotráfico, hoje maior que há 15 anos, como mostram as estatísticas de venda de cocaína. “Medellín é uma cidade ainda vulnerável porque estamos no meio de um conflito colombiano, no meio das máfias de droga. Os avanços que fizemos em termos de segurança e de homicídio devem ser zelados a cada dia”, afirma.

A dúvida entre dinheiro fácil e perda de tranquilidade, como em outras partes, gera uma balança que tem pendido para o lado financeiro, levando jovens a ingressarem para o narcotráfico. Estima-se que existam 150 combos (quadrilhas) operando na cidade.

Esta semana, o prefeito Alonso Salazar admitiu que Medellín vive momentos difíceis. “Não podemos permitir que se prejudique a cidade. Daqui em diante, não vamos nos deixar dobrar por essa tendência negativa que recordam épocas que não vale nem a pena mencionar”, disse. Ao mesmo tempo, foram anunciados novos planos para o setor de segurança e a chegada de 1.150 homens da Polícia Nacional que se somam aos da Polícia Metropolitana.

Para William Ortiz Jimenez, esse fator só se resolve quando empresários e comerciantes deixarem de estigmatizar os moradores de favelas, que hoje são descartados na busca por empregos. –joão peres (cc)

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