a revolução que não é mais

17/08/2009 § Deixe um comentário

Quando visitou a Nicarágua, em 1980, Luiz Inácio Lula da Silva foi só elogios. “O que vimos foi um mundo realmente diferente, com a participação do povo, sua felicidade, o alcance da democracia interna. Em suma, o povo plenamente no poder.” No Brasil, eram os tempos das greves do ABC. Lula presidia o Sindicato dos Metalúrgicos, o PT se dizia defensor do socialismo e a ditadura militar encaminhava-se para sua fase final.

Nesta mesma época, os partidários da democracia festejavam a revolução que acabava de estourar na Nicarágua. No dia 19 de julho de 1979 – há 30 anos – o Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) havia unificado a maioria dos nicaraguenses contra o governo de Anastásio Somoza Debayle e marchava triunfante sobre Manágua para tomar o poder. Acuado, o presidente fugira para Miami. “Da noite para o dia”, diz a historiadora Matilde Zimmermann, do Sarah Lawrence College, em Nova York, “a capital passou de uma guerra civil a uma paz interrompida por comemorações e demonstrações de júbilo.”

Foi com este cenário que se deparou Lula ao desembarcar na Nicarágua no ano seguinte da Revolução Sandinista. Então, o governo se encontrava mergulhado na difícil tarefa de construir o novo. A Nicarágua havia vivido por 43 anos sob uma espécie de ditadura familiar iniciada com um golpe de estado aplicado por Anastásio Somoza García (o pai) em 1936. Então, Somoza era o comandante da Guarda Nacional e havia combatido com sucesso a primeira guerrilha sandinista que existiu no país, liderada pelo próprio Augusto César Sandino. À frente do Exército Defensor da Soberania Nacional, Sandino lutava para pôr um basta na constante intervenção militar dos Estados Unidos em território nicaraguense.

“Entre 1849 e 1933, os fuzileiros navais invadiram a Nicarágua nada menos que catorze vezes”, escreve Zimmermann. Depois de sete anos lutando contra esse tipo de abusos, Sandino foi obrigado a assinar um armistício. Na mesma noite em que depôs as armas, foi assassinado por uma conspiração de Somoza.

Muito tempo depois, em 1963, a figura de Sandino seria recuperada pelo líder estudantil Carlos Fonseca Amador na organização de um novo grupo guerrilheiro, o FSLN. O principal objetivo do Frente Sandinista, no entanto, não era acabar com a presença dos Estados Unidos na Nicarágua, mas sim com a ditadura de Luis Somoza Debayle (o outro filho), que na década de 50 havia incrementado a repressão contra as forças opositoras do regime hereditário. Tudo porque o êxito da Revolução Cubana havia disseminado pela resistência nicaraguense, especialmente entre a juventude, a certeza de que era possível derrubar um governo autoritário por meio de uma insurreição popular.

“O Frente Sandinista mostrou ao povo que a luta armada era a única maneira de sair da ditadura. Para começar, as eleições eram uma farsa e Somoza se apoiava no terror da Guarda Nacional. Era necessário neutralizar o poder militar do governo”, conta o escritor Sérgio Ramírez, que foi vice-presidente da Nicarágua durante o governo revolucionário. “A atividade guerrilheira demonstrou que a Guarda Nacional era vulnerável a ponto de ser atacada e derrotada em seus próprios quartéis.”

Ademais, o FSLN propôs alianças com todos os setores da sociedade nicaraguense: trabalhadores, campesinos, empresários, igreja católica, classe-média, pequenos e médios proprietários etc. “Somoza apenas perdeu respaldo social e ficou isolado precisamente devido a essa aliança”, analisa.

A verdade é que a ditadura se desgastava cada vez mais, e um dos fatores preponderantes para a ruína do somozismo foi o terremoto que destruiu Manágua em 1972, matando dez mil pessoas. Ao invés de trabalhar pela vida dos sobreviventes, o governo de Somoza preferiu vender os milhares de litros de sangue doados pelo povo cubano a empresas norte-americanas e desviar os recursos financeiros enviados para a reconstrução. “Nessas circunstâncias, até as instituições que anteriormente apoiavam Somoza, como a hierarquia da igreja católica, começaram a criticar o regime”, explica Zimmermann.

O primeiro ano do sandinismo no poder foi marcado por uma ampla campanha de alfabetização. Antes da revolução, metade dos nicaraguenses não sabia ler ou escrever. O FSLN mobilizou mais de sessenta mil brigadistas para combater o analfabetismo e, poucos meses depois, já havia reduzido em 13 por cento a porcentagem da população sem acesso à educação básica. As brigadas também foram utilizadas para levar saúde aos rincões mais afastados do país, e certamente não teriam colhido os mesmos resultados sem a massiva participação de voluntários cubanos. “Cuba teve muita importância para a Nicarágua, enviando médicos e professores”, conta Sérgio Ramírez. “Houve muita solidariedade, uma solidariedade sem limites, eu diria.”

A Revolução Sandinista também abriu espaço para um processo inédito de reforma agrária, que começou dividindo as propriedades da família Somoza, cujas fazendas correspondiam a 20% do solo arável da Nicarágua. “Pela primeira vez na história, os campesinos tinham crédito para plantar, recebiam assistência técnica e tinham preços garantidos de compra de sua colheita”, lembra Zimmermann. As mansões do ditador se transformaram em escolas, creches e centros sociais. Os bancos foram todos nacionalizados, assim como as exportações mais importantes do país: algodão, café e açúcar. Apesar disso, “a FSLN alegava estar comprometida com uma ‘economia mista’ e com a proteção da propriedade privada, e insistia com os capitalistas para que investissem e aumentassem a produção a fim de revitalizar a economia nacional.”

O jornalista brasileiro José Arbex Jr, que esteve na Nicarágua em 1986, explica que o Frente nunca foi revolucionário, no sentido marxista do termo. “Nunca assumiu um programa claramente anticapitalista, de clara ruptura com o imperialismo. As forças de esquerda, dentro do FSLN, sempre tiveram que lutar contra a maioria revisionista e moderada.” Mesmo assim, a oposição não tardou em organizar-se para combater o sandinismo da pior maneira possível.

“Começamos com amplo consenso nacional, inclusive dos empresários, mas algumas das nossas políticas enviaram sinais contrários à propriedade privada que afetaram não só os grandes, mas também os pequenos e médios proprietários”, explica Manuel Morales, ex-dirigente do FSLN. A elite industrial nicaraguense começou a investir seu capital no exterior, reduzindo a produtividade nacional e agravando o desemprego. A Nicarágua sofria com o desabastecimento e com boicotes à produção. Fábricas fechavam as portas e fazendeiros se recusavam a semear. Enquanto isso, o governo se debatia em busca de uma fórmula mágica para ganhar a confiança da burguesia e, ao mesmo tempo, manter-se fiel às exigências populares.

Até que, em 1982, veio uma nova guerra civil. Antigos quadros da Guarda Nacional e tropas mercenárias baseadas em Honduras começaram uma movimentação contra-revolucionária que lançaria o país numa aguda crise. O dinheiro que financiou as operações militares dos “contras” veio dos Estados Unidos. Além de injetar 400 milhões de dólares no conflito, Washington debilitou o sandinismo no plano econômico. Assim como Cuba, a Nicarágua passou a amargar um embargo comercial.

Para combater a insurgência conservadora, o FSLN instituiu o serviço militar obrigatório e uma série de medidas de emergência que desagradaram à população. O desgaste, inevitável devido ao esforço de guerra, culminou com a derrota do FSLN nas eleições de 1990. “As pessoas votaram pela paz”, diz o ex-guerrilheiro Manuel Morales. “Se o Frente Sandinista continuasse no poder, continuariam os enfrentamentos com o governo dos Estados Unidos. Naquele contexto de Guerra Fria, Washington dificilmente deixaria de nos agredir.”

O professor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) na Costa Rica, Abelardo Morales, concorda que a guerra civil foi o golpe mais duro desferido contra o regime revolucionário. No entanto, argumenta que “o FSLN tampouco soube conduzir suas relações com os grupos de oposição e outros setores da sociedade que se sentiam prejudicados em seus interesses. A revolução também teve problemas com a população indígena da Nicarágua que, por isso, veio a se transformar numa das bases de apoio dos contras.”

Então vice-presidente da Nicarágua, Sérgio Ramírez acredita que um dos principais pecados do governo revolucionário foi o excesso de ideologização. “Dentro do FSLN se acreditava que com a ideologia poderíamos resolver as carências materiais da população. Isso envenenou todas as relações, dividiu a sociedade, destruiu as alianças e nos colocou num caminho de confrontação interna do qual o governo de Ronald Reagan se aproveitou.”

A paz chegou em 1987. Um acordo assinado entre o FSLN e os contras, com a mediação do presidente costa-riquense Oscar Arias, tinha colocado fim à guerra civil e estabelecido um programa de anistia aos inimigos da revolução. O país que se dirigia às urnas em 1990 chorava a morte das 30 mil vítimas fatais do conflito, lamentava o desalojo forçado de 350 mil famílias de lavradores e computava nove bilhões de dólares em danos econômicos diretos. O Frente Sandinista ganhou as duas guerras que disputou – uma contra Somoza e, outra, com os contras – mas a população não queria saber de mais conflitos. Mesmo tendo abandonado o vermelho e negro do FSLN durante a campanha e trazido seu discurso para o centro, Daniel Ortega foi vencido com folga por Violeta Chamorro, da União Nacional Opositora (UNO).

Em 1996 e 2002, Ortega voltaria a disputar a presidência da Nicarágua antes de sair vitorioso em 2006. A estas alturas, porém, o FSLN já havia perdido muitas das características que um dia lhe definiram como organização revolucionária. “O legado fundamental do Frente Sandinista foi a derrota da ditadura somozista e a criação das condições para a busca de estabilidade democrática no país”, explica Abelardo Morales, da FLACSO. “Houve avanços importantes, mas lamentavelmente temos que reconhecer que não aconteceu nenhuma grande transformação estrutural na Nicarágua.”

Durante as comemorações dos 30 anos da Revolução Sandinista, em Manágua, a ex-guerrilheira Dora María Téllez disse que o país atualmente vive sob um governo “orteguista” e não sandinista. “Do sandinismo revolucionário não sobrou nada. O que existe hoje em dia é um governo com discurso de esquerda, muito retórico contra o imperialismo e a burguesia, como nos anos 1980, mas com políticas conservadoras e de direita”, critica Sérgio Ramírez.

Abelardo Morales acredita que o personalismo de Daniel Ortega é contrário aos cânones sandinistas. “O sandinismo nunca girou em torno da figura de um caudilho, aliás, rompe com essa lógica, é a antítese desta cultura política que se baseia na existência de um caudilho que se elege como um senhor todo-poderoso perante a sociedade”, explica. “O orteguismo, pelo contrário, é parte da cultura política tradicional nicaraguense.” Ainda mais agora, que o presidente acaba de anunciar a intenção de reeleger-se indefinidamente. Para José Arbex Jr, as diferenças entre o Ortega de 1979 e o atual são basicamente “as mesmas que podem ser apontadas entre o Lula das grandes greves do ABC e o Lula da ‘Carta ao Povo Brasileiro’ de 2002, claro que respeitando as diferenças de contexto histórico”. –tadeu breda (cc)

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