integração, pero no mucho

10/02/2010 § 1 comentário

Dizem que os países não tem amigos, mas interesses. Apesar de terem acelerado os processos de integração, as afinidades ideológicas entre os governos sul-americanos não foram capazes de acabar com os conflitos diplomáticos bilaterais. Questões militares e econômicas ainda dão a tônica da relação entre vizinhos

A Venezuela tem problemas com a Colômbia, que também não agrada muito o Equador. O Equador e a Venezuela, porém, são bons amigos. O Uruguai está de mal com a Argentina, mas só com a Argentina. O Peru não vê o Chile com bons olhos, mas compartilha opiniões políticas com a Colômbia. A Bolívia mantém uma grande afinidade com Venezuela e Equador, e pouco a pouco vai resolvendo suas diferenças com o Chile. O Brasil não possui nenhum inimigo declarado na vizinhança, porém negocia em silêncio algumas reclamações de Bolívia, Equador e Paraguai.

Eis o panorama geral das relações bilaterais na América do Sul, que mais parecem fofoca de condomínio, mas que são fruto do fenômeno político iniciado com a vitória eleitoral de Hugo Chávez, em 1998. A opção por candidatos de origem popular ou inspiração socialista em quase todo o continente tem agilizado os processos de integração. Recentemente saíram do papel projetos como o Banco do Sul e o Conselho de Defesa do Sul, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) se fortaleceu e estão em gestação mecanismos financeiros para reduzir a dependência regional de dólares.

Entretanto, as afinidades ideológicas parecem não ser suficientes para concretizar o sonho de Simón Bolívar, e a consolidação da “pátria grande” tem esbarrado em divergências estratégicas que frequentemente colocam países vizinhos em lados opostos da arena diplomática.

O entrevero mais antigo é o que contrapõe interesses argentinos e uruguaios devido à instalação de uma usina de celulose às margens do rio Uruguai. Em 2007, a companhia finlandesa Botnia começou a operar no município de Fray Bentos, ligado por uma ponte à localidade de Gualeguaychú, na Argentina. Os gualeguaychulenhos acreditam que o processamento da celulose vai poluir as águas do rio que abastece a ambos os países. Por isso, são contrários ao funcionamento do complexo industrial. Entretanto, de olho nos empregos trazidos pela transnacional, os uruguaios negam qualquer risco de contaminação.

As chancelarias de Montevidéu e Buenos Aires entraram na briga quando alguns movimentos socioambientais e sindicatos argentinos resolveram bloquear a ponte que conecta os dois países. O caminho já leva três anos fechado e a disputa foi parar na Tribunal Internacional de Haia, na Holanda. O governo argentino diz que os uruguaios violaram um acordo sobre a utilização das margens do rio e pede que a fábrica da Botnia seja removida para algum outro lugar onde não ofereça riscos às águas binacionais. A corte dará seu veredicto final sobre a contenda em março.

Feridas abertas

Outro desacordo diplomático que foi parar na arbitragem internacional diz respeito aos limites marítimos do Chile, que em tese estariam violando as milhas oceânicas pertencentes ao Peru. O presidente Alan García quer modificar os termos de um acordo assinado entre Lima e Santiago na esteira da Guerra do Pacífico (1879-1883). O tratado define a extensão territorial soberana de cada um sobre o mar. O governo peruano acredita que saiu prejudicado na assinatura do documento e pretende revertê-lo em Haia.

“O Peru quer aumentar em mais de um terço seu domínio marítimo-econômico, passando a ter mais acesso a recursos pesqueiros”, explica Guillermo Holzmann, analista político da Universidade do Chile. “Ao conduzir a questão a Haia, o Peru tem um objetivo estratégico, do qual se deriva outro, de cunho histórico, que tem mais impacto na opinião pública.”

A presidenta Michelle Bachelet levou a mal o recurso movido por Alan García e decidiu congelar as relações políticas com o vizinho. Contudo, conservou o diálogo diplomático e, para não prejudicar os investimentos chilenos no Peru, manteve intactos os laços financeiros.

Mas a complicada relação entre os dois países se agravou ainda mais quando foi descoberto um caso de espionagem chilena na força aérea peruana. O pivô da crise é o suboficial Víctor Ariza, que teria sido recrutado há sete anos pelo serviço secreto de Santiago para repassar informações confidenciais sobre os planos militares do vizinho.

Michelle Bachelet negou qualquer relação com o episódio e garantiu que iria apurar a acusação junto às forças armadas, prometendo aplicar sanções caso a espionagem tenha realmente existido. “A resposta chilena é positiva e alivia a tensão”, disse o chanceler peruano José Antonio Balaunde. “Para superar a crise, no entanto, falta que nos informem sobre o resultado das investigações. Esperamos uma resposta antes de março, quando muda o governo no Chile”, completa o ministro.

O peso das armas

Outra coisa que incomoda o Peru é o armamentismo chileno: “Não entendemos porquê o Chile gasta tanto em armas e porquê essas armas apontam para o Peru”, questiona Balaunde. A preocupação é tamanha que Alan García acaba de propor um acordo para reduzir a militarização dentro da Unasul. O plano também estabelece pactos de não-agressão e resolução pacífica de conflitos entre os países do bloco. É um recado para o Chile, mas não só.

Quem lidera o processo de modernização militar na América do Sul é o Brasil. O acordo assinado pelo presidente Lula com a França deve equipar o país com tanques, helicópteros, submarinos – um deles com propulsão nuclear – e talvez caças Rafale de última geração. Se as compras se concretizarem, o Brasil gastará R$ 30 bilhões para equipar suas forças armadas e defender os recursos naturais da Amazônia e do pré-sal.

A Venezuela também chama a atenção quando o assunto é rearmamento. Quando Hugo Chávez quis modernizar seus exércitos, recorreu primeiro ao varejão bélico dos Estados Unidos. A Casa Branca, ferrenha opositora de Caracas, proibiu a transação. Chávez, então, foi às compras na Rússia: já gastou US$ 4,4 bilhões com aviões, helicópteros, tanques e fuzis, e promete ainda adquirir submarinos do Kremlim.

Hugo Chávez argumenta que precisa se defender. Primeiro porque tem na bacia do rio Orinoco uma das maiores reservas petrolíferas do mundo. Depois, porque os Estados Unidos assinaram um acordo com a Colômbia que permite a instalação de soldados e armamentos ianques em sete bases espalhadas pelo país.

Álvaro Uribe, artífice e entusiasta da parceria, afirma que o Pentágono há muito tempo dá apoio material ao governo colombiano na luta contra o narcotráfico e a guerrilha, enquanto os vizinhos não fazem mais do que enviar manifestações de solidariedade. Ademais, garante o presidente, a força norte-americana será utilizada apenas em território colombiano.

Tão perto e tão longe

Hugo Chávez não está convencido. Por isso, cortou relações com a Colômbia, com reflexos importantes para o comércio binacional. As exportações colombianas para a Venezuela caíram mais de 70% entre outubro de 2008 e 2009. A estatal petrolífera PDVSA também parou de vender combustível subsidiado ao país vizinho. Os discursos esquentaram, tropas foram enviadas para monitorar as fronteiras e Hugo Chávez conclamou seus compatriotas a defenderem o país de uma agressão imperialista iminente.

Álvaro Uribe também tem problemas com o Equador desde que, em março de 2008, decidiu violar o território equatoriano para eliminar um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) camuflado do lado de lá da fronteira. Na operação foram mortas 25 pessoas, entre elas Raúl Reyes, um dos cabeças da guerrilha. Ao tomar conhecimento do episódio, o presidente Rafael Correa cortou imediatamente as relações com Bogotá. Os laços apenas serão reatados caso o governo colombiano se retrate publicamente da invasão, entre outras exigências.

“Os conflitos diplomáticos criam uma cultura onde a opinião pública não encontra razões para se mobilizar a favor da integração”, observa Tullo Vigevani, pesquisador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI). “A maior dificuldade para a integração, porém, está nos sistemas econômicos e na estrutura social das nações sul-americanas. Por exemplo, todos os países são produtores de bens agrícolas. Portanto, não há complementariedade econômica.”

“Para que exista uma integração efetiva, os países vizinhos devem ser também os primeiros sócios comerciais uns dos outros”, comenta Guillaume Long, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), em Quito. “Mas na América Latina o principal parceiro comercial dos países são os Estados Unidos.” E agora também a China. –tadeu breda (cc)

>> publicado na revista do brasil

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