a ressaca do kirchnerismo

30/06/2009 § Deixe um comentário

A saída de Néstor Kirchner da presidência do Partido Justicialista (PJ) escancarou a disputa pelas eleições argentinas de 2011. Depois de perder as eleições legislativas do último domingo (28), o “Pinguim” decidiu entregar o comando da principal sigla argentina. Desde o fim da última ditadura militar, em 1983, o justicialismo governou o país entre 1989 e 1999 e de 2003 até os dias de hoje.

Com a saída de Kirchner, ficou na presidência provisória do PJ (ou peronista) Daniel Scioli, que já teve a porta golpeada algumas vezes ao longo desta semana. Passou pela sala dele o governador de Chubut, Mario Das Neves, declaradamente candidato e que afirmou que é hora de o justicialismo ser mais “aberto, mais participativo”.

Também esteve por lá Hugo Moyano, chefe da Central Geral dos Trabalhadores com o poder de deslocar multidões, mas que prefere ainda não falar abertamente sobre a candidatura. E, por último, esta terça-feira (30) teve a visita de Alberto Rodriguez Saá, governador de San Luis que há meses trabalha em uma frente antikirchnerista e que afirmou que Néstor “entrou no Partido Justicialista pela janela e se foi pela janela”.

Quem ainda não visitou Scioli, e talvez não precise fazê-lo tão cedo, foi Carlos Reutemann, ex-piloto de Fórmula 1 que levou duas das três cadeiras disponíveis para Santa Fé no Senado. É inegável o fortalecimento de Reutemann como provável nome justicialista em 2011.

E, E

Williams Gonçalves, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, destaca que a “política argentina se faz em grande medida dentro do Partido Justicialista. As relações políticas dentro do justicialismo são mais importantes para o país do que os demais partidos”.

De fato, em Buenos Aires, principal província argentina, o vencedor foi Francisco De Narváez, da coalizão de direita chamada PROperonismo. E o derrotado (ou segundo colocado, dependendo do ponto de vista) foi Néstor Kirchner, também do PJ, que para o professor da UERJ sepultou qualquer oportunidade de voltar oficialmente à presidência.

A União Cívica Radical (UCR), que já teve na Casa Rosada Raul Alfonsín e Fernando de la Rúa, hoje aparece como uma força secundária. Nas eleições legislativas, no entanto, surgiu a possibilidade de que o vice-presidente Júlio Cobos, vencedor da votação em Mendoza, viabilize sua candidatura.

Governabilidade

Como as eleições foram antecipadas de outubro para junho, a nova legislatura terá início apenas em dezembro, dando aos Kirchner mais alguns meses de maioria no Congresso para aprovar medidas de interesse do governo. A primeira da lista é a Lei de Radiodifusão, que para o oficialismo tem o poder de melhorar a imagem junto à população ao enfrentar os grandes grupos midiáticos, particularmente o Clarín.

No entanto, ciente de que terá dois anos de governo sem maioria, Cristina Kirchner tenta acenar com negociações. O primeiro paquerado foi Fernando Pino Solanas, documentarista que surpreendeu, alcançando o segundo lugar na cidade de Buenos Aires. Dois anos atrás, quando foi candidato à presidência, o líder de uma coalizão de esquerda havia alcançado 200 mil votos, contra 400 mil na votação. Mas Pino, em entrevista ao diário Crítica Digital, rechaçou qualquer aproximação: “surpreendeu muito porque até o domingo nós éramos uma porcaria para o governo, um demônio, um Judas”.

Pior para o kirchnerismo é que a bancada ruralista experimenta crescimento e pode, com alianças, aprovar projetos de interesse do setor rural no Congresso. Ainda assim, para Williams Gonçalves, da UERJ, não é provável a hipótese levantada por alguns segmentos de que Cristina Kirchner terá de antecipar o fim do mandato. “Se há uma coisa que os argentinos hoje prezam mais do que qualquer outra é o funcionamento das instituições democráticas. A nação argentina é profundamente traumatizada com o autoritarismo dos governos militares”, destaca.

Pode contribuir também para o governo a aparente apatia em certos setores da sociedade argentina. Destacou-se nos últimos dias que o país passou do ¡que se vayan todos! de 2001 e 2002 para o atual que se quede cualquiera. Parece não fazer muita diferença quem vai ocupar a Casa Rosada.

A tensão com o campo, que entre idas e vindas já dura mais de um ano, deve seguir presente no atual governo. Para o professor da UERJ, a negociação tem que ser feita: “o que tem marcado o governo dos Kirchner é o esforço em reindustrializar o país. A ideia é que a Argentina, para se reerguer, precisa se industrializar. Consequentemente, não pode ficar a reboque dos interesses do campo. Eu duvido que outro governo com a mesma disposição pudesse resolver a situação de maneira negociada”.

Política externa

Cristina Kirchner anunciou que vai acompanhar o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, no regresso ao país centro-americano, na quinta-feira. Além deles, Rafael Correa, do Equador, confirmou presença na comitiva.

É uma atitude rápida na tentativa de ganhar evidência internacional. Williams Gonçalves aponta que há uma crítica muito forte à política externa dos Kirchner exatamente por ela não ser definida, ser apenas uma extensão da política interna.

Na verdade, é fato reconhecido que o Pinguim ressentiu-se de não ter sido consultado pelo Brasil sobre os assuntos relativos ao continente e, mais especificamente, sobre o Mercosul. Com isso, buscou uma aproximação da Venezuela na tentativa de enfraquecer a liderança brasileira na região, mas essa aliança teve repercussões negativas no cenário interno.

Para o professor, o ressentimento só fez aumentar quando Barack Obama demorou a enviar manifestações aos dirigentes argentinos quando assumiu a presidência dos Estados Unidos. Mais do que isso, o novo presidente recebeu Lula em Washington e afirmou que “ele é o cara”. –joão peres (cc)

o dia mais importante da história argentina

02/06/2009 § Deixe um comentário

Historiador e argentino, Osvaldo Coggiola conta como foi o Cordobazo, movimento que iniciou a derrubada de uma ditadura e que completa 40 anos

>> publicado na rede brasil atual

“Eu era estudante secundarista, então fui quase sozinho porque não tínhamos nenhuma organização. Sabia mais ou menos por onde as pessoas iriam passar. Morava num bairro mais periférico, fui andando e comecei a me integrar às manifestações e tudo o mais. Foi duro porque estávamos nos manifestando e de repente aparecia a polícia e atirava, mas atirava para valer, era para matar”

O testemunho acima é de Osvaldo Coggiola. Hoje Professor Titular do Departamento de História e Geografia da Universidade de São Paulo, era um jovem de 17 anos na época do Cordobazo, o evento que, segundo ele, foi o “dia mais importante da história da Argentina”.

Em 1969, o país vivia sob o governo ditatorial de Juan Carlos Onganía. Poderia ter sido apenas mais um dos ditadores saudados pelo diário Clarín nos sucessivos golpes de Estado que insistiam em frequentar a Casa Rosada, mas não foi dessa maneira. Onganía realizou uma política de congelamentos salariais, proibição de greves e perseguição de dirigentes sindicais.

Para o dia 29 de maio, os três maiores sindicatos acertaram uma paralisação de 36 horas. Agustín Tosco, um dos protagonistas, deu na ocasião uma definição feliz sobre o episódio:

“O Cordobazo é a expressão militante, do mais alto nível quantitativo e qualitativo, da tomada de consciência de um povo que se encontra oprimido e que quer liberar-se para construir uma vida melhor, porque sabe que pode vivê-la e que quem impede são os que especulam e se beneficiam com o adiamento e a frustração de todos os dias”.

Repressão

Saídos às ruas para protestar, os trabalhadores foram reprimidos a bala pela polícia. O movimento estava longe do fim. A morte de um manifestante fez com que uma cidade inteira fosse em busca de justiça. Operários da periferia logo encontraram no centro da cidade universitários e secundaristas.

“Tudo ficou na mão dos manifestantes. A polícia fugiu, nas 24 horas seguintes praticamente não sobraram autoridades em Córdoba”, lembra Coggiola.

A polícia, despreparada para enfrentar manifestação tamanha, cedeu lugar ao Exército que, já avisado das dificuldades, organizou uma repressão que deixou dezenas de mortos. Parte da população, que ainda guardava as armas usadas para derrubar Juan Domingo Perón em 1955, atirava agora contra os militares.

Resistência

cordobazo

“Eu me lembro que se faziam barricadas para que o Exército não entrasse nas principais vias e, desde as sacadas, jogavam coisas para que fizessem as barricadas. Sofás, cadeiras, pneus. A solidariedade popular foi simplesmente enorme. Ninguém aguentava mais um governo autoritário, cretino, obscurantista, era tudo o que podia haver de insuportável”, aponta o professor.

Apesar de terem armas nas mãos e de uma população carente em termos econômicos, saques não eram permitidos durante o Cordobazo: “Não se entrou nas lojas, nas mercearias. Poderiam ter quebrado vidraças e roubado. Lembro de uma pessoa que tentou entrar em uma loja de máquina de escrever. Imediatamente, outras pessoas que estavam perto impediram que roubasse. A única coisa que houve foi roubo de registro de crédito imobiliário. As pessoas que tinham tomado crédito e que não conseguiam pagar. O restante foi tudo uma manifestação política que não teve nada a ver com vandalismo. Estavam para manifestar-se contra o governo, para defender sua posição”.

A greve nacional iniciada em Córdoba espalhou-se por todo o país. Vieram o Rosariazo e o Tucumanazo – atente-se que em Buenos Aires, onde estavam os sindicatos mais antigos e ligados ao peronismo, os líderes não permitiram que o movimento tomasse grandes proporções. Começava a cair o regime de Onganía, que teria que abrir mão do poder no ano seguinte. Lamentavelmente, foi um golpe militar organizado por Alejandro Lanusse que depôs o presidente. Com a pressão popular, eleições foram convocadas.

Aborto

A década seguinte veria Juan Domingo Perón voltar ao poder. Mas já não era o mesmo. Tratava-se de um presidente debilitado pelo câncer, que pouco governava. Depois da morte dele, assumiu a esposa, Isabelita Perón, que nem de longe tinha o mesmo carisma e habilidades de Evita, e acabou sendo um fantoche nas mãos dos generais.

Em 1976, decidiram que Isabelita já poderia retirar-se e a ditadura mais sangrenta da América Latina era oficialmente instalada – e, novamente, saudada pelo diário Clarín. O Cordobazo, nas palavras de Coggiola, abortou.

Mas seria incorreto dizer que o movimento de 69 não teve consequências: “houve nas universidades um questionamento a absolutamente tudo, não só às autoridades, mas aos métodos de ensino, aos professores reacionários, ou seja, foi um movimento que teve consequências muito além das reivindicações imediatas. No plano político, reivindicando o fim da ditadura.

Heranças

No plano ideológico, reivindicando o fim das relações autoritárias. Houve um processo de organização muito rápido. Surgiram comitês de bairro, além dos sindicatos de esquerda, que começaram a ganhar eleições uma atrás da outra”, lembra o então manifestante. Os estudantes secundaristas de Córdoba, que até 1969 não estavam organizados, dias depois se reuniram em uma federação para a qual Osvaldo Coggiola foi eleito presidente.

A Argentina transformou-se no centro de mobilização da esquerda na América Latina, ainda que a situação do Chile chamasse mais atenção por conta da atuação de Salvador Allende. A geração setentista, como ficaram conhecidos os jovens que participaram do Cordobazo, seria dizimada pelo governo ditatorial iniciado em 1976.

“Foi uma geração que teve uma posição política e cultural audaciosa, mas que sofreu muito. Quase todos meus colegas de adolescência estão mortos”, lamenta o professor. Dos 23 estudantes expulsos da Universidade de Córdoba no início do regime militar, apenas cinco sobreviveram às semanas seguintes. Coggiola é um deles. Depois de alguns anos estudando na França, acabou desembarcando no Brasil, onde está até hoje.

A comunhão entre operários, estudantes e classe média jamais voltaria a ocorrer desta forma, ainda se se pensa em uma relação parecida durante o “Que se vayan todos” do fim de 2001 e início de 2002. –joão peres (cc)

pelotudeces no fantástico mundo do jornalismo

14/05/2009 § Deixe um comentário

Diferentemente do que alguns veículos querem fazer crer, jornalistas erram. E com muito mais frequência do que deixam transparecer… Mas há erros e ERROS. O do diário Olé, da Argentina, é Monumental como o estádio do River Plate.

Sem titubear, o jornal estampou na capa de terça-feira, 12 de maio, a foto “A pior dirigência da história” e a manchete “La que faltaba”. Em uma dura reportagem, o jornal criticava duramente a torcida por ter exposto a faixa contra a diretoria por apenas alguns minutos e retirado justamente quando os jogadores entraram em campo no jogo do último domingo.

Banderas_River_1

As duas fotos: em cima, a verdadeira; embaixo, a brincadeira computadorizada que o Olé engoliu

Nas palavras da publicação do multi-poderoso Grupo Clarín, é óbvio que alguém da diretoria mandou retirar a bandeira e que houve uma clara censura. Em uma matéria cheia de apurações e com alguns offs, o jornal garantiu ter visto a tal faixa no estádio.

Não fosse por um detalhe, tudo estaria correto. O “detalhe” em questão é o seguinte: a faixa nunca existiu. A foto publicada pelo Olé – e que o jornal se gabou de ter obtido com exclusividade – nada mais é que uma arte de Photoshop, programa de computador usado para editar imagens.

Um torcedor gallina, cansado da péssima fase da equipe, já eliminada da Libertadores e com campanha apenas regular no Torneio Clausura do campeonato nacional, usou a transmissão da TV Fox Sports para fazer a arte. No lugar de “defensa” colocou “dirigencia”, publicou a imagem em um dos mais frequentados fóruns de discussão de torcedores milionários e pronto: bastou a ânsia de um jornalista em busca de manchete para produzir uma das mais vergonhosas páginas da vergonhosa história do Grupo Clarín.

É bom que se diga que o torcedor em questão fez apenas uma brincadeira, em momento algum teve a intenção de ludibriar alguém (para usar um termo futebolístico), tanto que publicou uma nova mensagem no grupo de discussão do River:

No sean mentirosos los de Olé, esa bandera nunca existio en la cancha, la invente yo con el Photoshop. Los que fueron a la cancha lo pueden confirmar. Ahora quieren tapar todo lo que dijeron en el dia de hoy y hacernos creer que hubo bardo hacia la dirigencia, haciéndonos creer que los dirigentes no fueron los autores de este hecho de las banderas, por la obviedad de que no pondrían una bandera que diga “la peor dirigencia de la historia”.

Muchos foristas podrán corroborar lo que digo porque esta foto la puse ayer en el post de banderas en la popular y muchos decian que hubiese estado bueno que esa bandera estuviera ahí o que la única que tendría que haber estado es esa.

No puedo creer lo de Olé, ya pasan de la mediocridad a lo espantoso. Y de paso mi trabajito se hizo famoso.

De uma só tacada, o Olé demonstrou mentir ao dizer que obteve a foto com exclusividade, forçou fontes de confiança a se pronunciarem a respeito de um fato que não existe e perdeu qualquer confiança com metade da torcida argentina.

Para quem quer ver com os próprios olhos, eis o relato do torcedor e a barrigada do Olé, reproduzida, claro, no Clarín.

Em tempo: diga-se de passagem que tanto os diretores do Olé quanto do Clarín tiveram bom senso em não retirar os links da internet. Seria ainda mais feio, mas nada inédito…

Ainda em tempo: que não se apressem os anti-argentinos de plantão em tirar sarro da cara dos habitantes do lado de lá da fronteira. Nem vale a pena entrar na discussão de que nosso jornalismo é infinitamente mais chapa branca. O que vale é lembrar um episódio ocorrido recentemente na Rede Globo. O Globo Esporte, no dia posterior à derrota da Argentina por 6 a 1 para a Bolívia, refestelou-se na lama.

Na reportagem exibida pelo correspondente de então, o começo tradicional com as manchetes dos jornais impressos. “A Argentina de luto”, dizia um deles, obviamente ressaltado pelo jornalista. O repórter não viu, ou não quis ver, que a Argentina estava de luto pela morte do ex-presidente Raul Alfonsín, e não pela derrota para a Bolívia. –joão peres (cc)

as candidaturas testimoniales

12/05/2009 § Deixe um comentário

Fechadas as listas de candidatos para as eleições legislativas, nenhuma surpresa. Néstor Kirchner será um dos primeiros eleitos, e um dos muitos que não assumirão o cargo. Ao lado dele, na lista oficialista, está o governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, e o chefe de Gabinete da Presidência, Sergio Massa.

Com um cenário que muito se moverá até 28 de junho, o kirchnerismo tem até aqui a segunda posição na principal província do país, atrás dos direitistas do PROperonismo de Maurício Macri.

A principal aposta do Pinguim para manter a governabilidade na Câmara parece não render frutos. Como na política argentina o improvável é o mais comum, o Cemitério de Recoleta, na Zona Norte de Buenos Aires, andou agitado nos últimos dias. Os ossos de Evita foram novamente roubados, mas agora não por militares. Os restos mortais de Eva Duarte Perón não foram levados para a Itália, como no século passado, mas para a Casa Rosada.

Com as más notícias crescendo, alguém lembrou à presidenta e ao co-presidente que, na Argentina, o improvável jamais foi impossível. Nem todos os mortos estão impedidos de votar (diga-se de passagem, isso não é exclusividade argentina no continente) e nem todos os que se foram (não da Casa Rosada, mas para o “outro lado”) estão inelegíveis.

Che, por que não eleger Evita para deputada? – terá dito alguém para Néstor.

Boludo, Evita está morta há décadas – terá contestado o Pinguim.

Bem, mitos como Evita Perón nunca morrem. Ainda mais na Argentina.

Contra a perda de votos no conurbado bonaerense, o matrimônio presidencial atraiu Nacha Guevara. Deixando de lado o sobrenome sugestivo, Nacha tem uma virtude mais interessante: viveu, em repetidas ocasiões, Evita nos palcos e em filmes. E é esse o atributo político da atriz: associar-se à imagem do mito argentino. A base aliada quer distribuir milhões de DVDs mostrando a interpretação de Nacha como Evita. Mais do que isso, é possível que ela saia pelas ruas como se fosse a própria, ao lado de Juan Domingo Perón – outro ator, é claro.

A presidenta Cristina Kirchner recebe a louríssima Nacha Guevara

A presidenta Cristina Kirchner recebe a louríssima Nacha Guevara na Casa Rosada

Esse, aliás, deve estar entristecido com o casal K. Esquecido no Cemitério da Chacarita ao lado de Carlos Gardel, o general não foi convocado do além para essas eleições, mostrando que Evita é mais peronista que o próprio Perón. Aliás, Nacha Guevara é mais kirchnerista que os Kirchner: logo que lançada candidata, saiu por aí difundindo o voto-medo, segundo o qual a Argentina vai para o buraco se a coalizão Frente para a Vitória sai derrotada em junho – considerando os indicadores econômicos, o país vai para o buraco com ou sem vitória oficialista.

Além de Evita, há outro fantasma habilitado às eleições deste ano. Mas este, digamos, é alguém que teima em não morrer. Raul Alfonsín estava tranqüilo, isolado, pouco participava da política argentina. Mas a morte o fez renascer. A exaltação das características positivas do ex-presidente – como em toda parte, a imprensa argentina esquece-se dos erros depois da morte de alguém – fez ressurgir a força da União Cívica Radical, que sobe nas pesquisas de intenções de votos para as eleições legislativas (em algumas pesquisas, o bloco comandado por Ricardo Alfonsín, filho de Raul, fica pau a pau com a Frente para a Vitória, dos Kirchner).

Governabilidade

Tudo leva a crer que o oficialismo não poderá repetir o resultado da última votação legislativa, na qual conquistou 43% dos votos na província. Além disso, a derrota é dada como certa em províncias que se sentiram esquecidas ou que protagonizaram a briga com o setor agrário.

Com isso, a maioria apertada de Cristina Kirchner no Congresso, que já foi assunto para latitude sul, iria por água abaixo. Pior que isso, o setor rural, hoje com 108 deputados, tem alguma possibilidade de chegar à maioria. Desta maneira, não são poucos os que falam que a presidente terá que deixar a Casa Rosada antes das eleições de 2011.

Poderia mesmo ocorrer um novo panelaço?

Entre 2001 e 2002, todos saíram às ruas para pedir “que se vayan todos”, mas só se foram alguns e os outros “todos” que ficaram se reuniram para definir quem seria o próximo presidente. Saída a fumaça branca da chaminé (não se trata de ideia minha, mas do jornalita Jorge Lanata), decidiu-se por Adolfo Rodriguez Saá.

Mas o parlamentar parecia não aceitar a ideia de ficar apenas dois meses no cargo e logo os “todos” reduziram um pouco mais o grupo: Saá foi expulso e, dessa vez, a fumaça branca saiu para escolher Eduardo Duhalde. Esse, por sua vez, escolheu Néstor Kirchner, que por sua vez escolheu Cristina Kirchner.

Os anos se passaram, a economia argentina deu sinais cada vez mais preocupantes, Duhalde arrependeu-se profundamente da escolha que fez e o matrimônio K enfraqueceu-se no projeto de ficar por muito tempo no poder. Agora, é possível que muitos argentinos repitam o voto-bronca de 2002, quando mais de 40% votaram nulo ou branco ou simplesmente não compareceram. –joão peres (cc)

trem para alguns

29/04/2009 § Deixe um comentário

“Nós temos uma estrada de ferro que liga Santos a Corumbá e que, portanto, liga Santos a Bolívia. O mais grave é que a estrada na Bolívia está pronta, na Argentina está pronta, no Chile está pronta até o porto de Antofogasta, e o nosso pedaço, aqui dentro, que custa apenas 80 milhões de reais, está paralisado há muito. E nós vamos ter que fazer com que essa ferrovia volte a funcionar. O problema não é muito custoso, trata-se apenas do problema de conserto dos dormentes e de alguns trilhos que se estragaram ao longo do tempo. O que foi grave no Brasil é que não só não se fez as coisas novas que precisariam ser feitas, como não se fez corretamente a manutenção daquilo que precisaria ser feito”

Lula, 15 de março de 2004 

:: por joão peres ::

Apenas R$ 80 milhões. Cinco anos depois e só agora a ferrovia que corta parte do Pantanal começa a voltar às operações, mas apenas para inglês ver. Num primeiro momento, pelo menos, as populações locais não usarão um trem que poderia facilitar o deslocamento a regiões pouco assistidas pelo transporte rodoviário. A ideia é que o Trem do Pantanal seja meramente turístico – e não liga Santos a Corumbá.

http://www.trenparatodos.com.ar

Não é um caso isolado. A política do governo atual para as ferrovias está longe de ser perfeita. Oficialmente, o país tem mais de 57 mil quilômetros de trilhos em operação, contabilizados aqui também os trens urbanos. Fora das grandes cidades, o transporte de passageiros é irrisório: RFFSA, Fepasa e Vale, que assumiram o controle ferroviário de importantes trechos graças à política “privatória” de FHC, ignoram que há populações necessitadas de condução. Outras duas concessões, EFVM e EFC, levam por ano menos de um milhão e meio de passageiros. Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres, 300 mil a menos que o número registrado antes do desmonte do setor.

Agora, quando o Brasil comemora a entrada no grupo dos prestigiados países amigos dos ricos, vem com toda a força um projeto que não pode deixar de nos levar às memórias del subdesarollo. Anunciado com toda a pompa, o trem bala ligando Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro deve ser licitado ainda no primeiro semestre com um orçamento previsto em US$ 11 bilhões (setores do governo admitem que o investimento pode ser maior, de US$ 14 bi). Tudo isso por um trecho de menos de 500 quilômetros e que depois deve ser administrado pela iniciativa privada.

O discurso de 2004 do presidente Lula mostra o quanto o projeto do trem bala é caro: o custo para reativar os trilhos entre Santos, litoral de São Paulo, e Corumbá, fronteira brasileira com a Bolívia, seria de R$ 80 milhões. Para um trecho de 1.500 quilômetros. Uma conta simples mostra que o preço do quilômetro seria de R$ 53 mil. No caso do trem bala, algo como US$ 22 milhões por quilômetro. Ou seja, pela cotação atual do dólar e pelas contas do presidente Lula, 2 quilômetros de trem bala seriam suficientes para reativar 1.500 quilômetros de trilhos tradicionais – e ainda sobra troco.

Na Argentina, um grupo chamado “Trem para todos” fez as contas e mostrou quão inteligente é focar em ferrovias convencionais: com um investimento de US$ 3,1 bilhões, quase dois bilhões a menos que o que seria investido no trem bala entre Rosário, Córdoba e Buenos Aires, seria possível reativar 18 mil quilômetros de trilhos, sete mil deles para uso de passageiros. A reversão do processo levado a cabo por Carlos Menem, mais do que isso, geraria a reativação de economias locais e possibilitaria a todos viajar por preços acessíveis e a boa velocidade, em torno de 120 quilômetros por hora.

Segundo o projeto de trem bala desejado pelos Kirchner, a Argentina ficaria durante 30 anos dependente da tecnologia francesa da Alstom [sem entrar nos méritos de uma empresa que, no ano passado, esteve envolvida em escândalos de corrupção da ponta do Alaska a Ushuaia], pagando à empresa subsídios que fariam os gastos aumentarem vertiginosamente. Lançada em 2006 por Néstor, a proposta foi arquivada recentemente por Cristina que, pelo secretário de Transporte, Ricardo Jaime, admitiu: o projeto não encontra quem o banque ou, nas palavras do diário Critica de la Argentina, descarrilou.

Em “La próxima estación” (disponível para download na internet e em exibição em algumas salas de Buenos Aires), o documentarista Fernando Solanas mostra o desmonte do setor ferroviário ao longo da história argentina. Mas vale a pena focar-se na década menemista (1989-99), quando os trens foram privatizados sob a alegação de que davam prejuízo de US$ 1 milhão por dia – hoje, custam US$ 3 mi por dia ao Estado graças aos subsídios, mas com apenas 20% da malha inicial operando. Aparte isso, os roubos e acidentes cresceram vertiginosamente e a desativação de vários trechos deixou povos isolados. É o caso de Patrícios, cidade que tinha 6.000 habitantes e, depois de Menem, tem apenas 600 saudosos que esperam pelo dia em que retornará o trem. Além disso, a supressão do transporte ferroviário sobrecarregou o uso de automóveis, que hoje são uma das principais causas de mortes na Argentina (8.100 pessoas por ano, em média), muito acima de homicídios, por exemplo.

Jorge Rúben Contestí, ex-ferroviário e autor do livro “La República que ¿perdió? el tren”, apresenta os investimentos necessários para a recuperação. A renovação de 40% dos trilhos teria um custo de US$ 169 mil por quilômetro nos trechos de passageiros e de US$ 49 mil nos trechos usados apenas para transporte de carga. Com materiais e mão de obra, menos de US$ 2 bi, além de outros US$ 370 milhões com locomotoras nas primeiras três décadas. Os gastos de manutenção também são muito mais baratos: seriam economizados 37 milhões de litros de combustível ao ano apenas com os trens cargueiros.

Leonardo Rico, integrante do Tren para Todos em Rosário, Argentina, conversou conosco sobre o desmonte do setor ferroviário no país e como se fez para brecar o projeto de trem bala.

Em primeiro lugar, gostaria que falasse como foram desenvolvidos os estudos para provar, por exemplo, que o investimento seria bem inferior ao do trem bala. Vocês falam que os custos com o trem bala podem chegar a 14.000 milhões se considerarmos os próximos 30 anos.

 

Em um estudo publicado no livro “La república que ¿perdió? el tren. Análisis y proyecto para refundar el ferrocarril en la Argentina”, Jorge Contestí, especialista em temas ferroviários, calcula o custo de reativar 18.000 quilômetros de vias: 7.000 para trens de passageiros e de carga e 11.000 a mais somente para trens de carga. Umas 300 locomotivas novas, 900 vagões de passageiros e 15.000 de carga por um custo de US$ 3,1 bilhão (com base em cálculos do ano de 2005). Um trem de alta velocidade é muitas vezes mais caro que um trem de velocidade normal (entre 120 e 160 km/h) para passageiros. Além disso, há os custos de manutenção posteriores que acarretaria o trem de alta velocidade e o alto consumo de energia. O trem bala não permite o transporte de carga e nos endivida por 30 anos a US$ 14 bilhões segundo o contrato com a empresa francesa Alstom. 

Como o movimento começou a se organizar e por que alcançou tamanha importância? Há uma “Argentina latente”, como supõe Fernando Pino Solanas?

 

O movimento surge de uma necessidade de recuperar o transporte terrestre mais econômico, ecológico e popular que tinha o nosso país. Existe uma “Argentina latente” que sabe que o trem é estratégico para avançar em um projeto de país para todos.

Em abril de 2008, em um grupinho começamos a nos reunir todas as terças-feiras e convidamos outras pessoas para que se somassem (ferroviários, organizações sociais e políticas que estejam de acordo com o projeto). Organizamos atos públicos para debater e explicar nosso projeto e promovemos um referendo popular sobre dois pontos: a reconstrução do sistema ferroviário nacional, estatal, controlado por usuários e trabalhadores; e a anulação do trem bala. Fizemos uma página na internet para que se pudesse assinar de forma eletrônica e nos comunicarmos. Essa iniciativa obteve um apoio massivo muito rapidamente e desde então crescemos e fomos nos organizando por todo o país. Alguns dos pontos que saíram foram os seguintes: entender o Tren para Todos como um movimento social que não pertence a nenhuma agrupação em particular, mas à maioria da população; Ter uma proposta convincente baseada em um trabalho sério, além de nos opormos ao projeto oficial; Lançar o referendo em todo o país e realizar atividades públicas; Utilizar a página na internet como meio massivo de comunicação. E tudo isso sobre a base do grande suporte de referentes sociais como Pino Solanas e a força de milhares de vontades e organizações que já vinham reclamando pela volta dos trens.  

Os investimentos de US$ 3,1 bi contemplam simplesmente a reativação das linhas que antes existiam ou será necessário construir novos trilhos?

 

O projeto, em uma primeira etapa, contempla recuperar o traçado ferroviário existente. Mas não gostaríamos de ficar por aí, queremos cruzar transversalmente a rede ferroviária com novos trilhos para unir as províncias de Noroeste e Nordeste com projeções para os países limítrofes. É um desafio do Tren para Todos e um objetivo da unidade latinoamericana. 

O trem bala tem como reativar a indústria ferroviária nacional? Há algum estudo que mostre qual a diferença no número de passageiros contemplados pelo trem bala e pelo convencional?

 

O trem bala implica dependência tecnológica da França. Recuperar o Tren para Todos significa estimular a indústria metal-mecânica, baixar o custo do transporte de carga, a reativação de oficinas e escolas em todo o país. Tren para Todos se faria investindo a maior parte do dinheiro da Argentina e de países do Mercosul, como o Brasil em caso de necessitar importações, de modo que o dinheiro ficaria na região e estimularia nosso desenvolvimento industrial regional.

Há estudos que demonstram que na Argentina não é viável o trem bala porque não haveria suficiente demanda de passageiros, além do preço da passagem Rosario-Buenos Aires (350 quilômetros), que seria comparável ao que custa viajar em avião, entre 350 e 500 pesos. O preço de um trem que viaja a 120 km/h poderia sair por 20 pesos. No trem bala viajariam os 11 jogadores do Palmeiras (a minha equipe de coração no Brasil), ao passo que no trem convencional viajaria toda a equipe mais a torcida. Hoje em dia há centenas de milhares de pessoas que viajam em péssimas condições e obrigadas a pagar preços de empresas monopólicas em estradas e rodovias colapsadas, e vem nos falar de trem bala… Construir o trem bala é diretamente transferir recursos desde as maiorias para as multinacionais estrangeiras e manter um serviço subsidiado por todos para um grupo reduzido de executivos e turistas VIP que poderão escolher entre viajar de avião ou de trem bala… É um desgaste que não podemos permitir. 

Em que pé está o projeto de trem bala na Argentina?  

O trem bala está “em espera” por causa do custo político que o governo não pode afrontar devido ao rechaço que desperta em toda a sociedade. As pessoas fazem filas para assinar as listas. Além disso, a crise econômica deixa às claras esta negociação imposta pelo Clube de Paris, diretamente relacionado com a renegociação de nossas dívidas externas fraudulentas. 

Nos governos ditatoriais sul-americanos, em especial aqueles sob as asas da Operação Condor, a privatização de ferrovias (e de outros bens públicos) foi bastante comum. Mas, na Argentina, antes o setor já havia sofrido um desmonte. Como foi? E como funcionou a reversão durante os governos de Perón?

 

Como disse um grande defensor do nosso patrimônio público, Scalabrini Ortiz, a história das ferrovias “reconforta, assombra e indigna”. A ferrovia argentina nasce em 1854 e desde então esteve vinculada a diversos interesses em ocasiões contrapostas. A extensão da fronteira com o índio, o desenvolvimento e a integração regional com as ferrovias estatais, os interesses imperialistas ingleses e franceses, que pressionam para apoderar-se e controlá-lo, a renacionalização em 1946 e finalmente o lobby automotor que iniciou o retrocesso e que continua até hoje. Desde o começo, a ferrovia em mãos do Estado demonstrou que era mais eficiente que nas mãos privadas e realizou uma tarefa essencial de integração e fomento regional. Quando esteve em mãos inglesas e francesas, primou pelo interesse de fazer lucros extraordinários e servir para extrair matéria prima exportável aos grandes centros industriais. A renacionalização durante o primeiro governo peronista foi positiva para um projeto de independência econômica do país. Já em 1958, no governo Frondizi, o plano que obedecia às linhas impostas pelo General estadunidense Larkin marca uma inflexão e o trem começa a ser desbancado pelo transporte automotor impulsionado pelas grandes montadoras. Na última etapa, a partir da ditadura de 76, com terrorismo de Estado e liberalismo econômico, e especialmente durante o menemismo dos 90, o abandono, o corte de financiamento e a sabotagem externa e interna das empresas públicas abriram o caminho para a liquidação das ferrovias. 

Voltando a falar de Pino Solanas e de privatizações, em “La próxima estación” ele narra o caso de Patrícios, uma cidade que praticamente desapareceu depois do desmonte promovido por Carlos Menem no setor ferroviário. Não é um caso isolado, não? Como a reativação de 18 mil quilômetros de linhas mudaria as realidades locais?

 

Logo do fechamento e saqueio das ferrovias, 800 povos do interior se converteram em “povos fantasmas”, milhares de pessoas são expulsas aos cinturões de pobreza das grandes cidades e as rodovias colapsam, provocando mais de 8.000 mortes em acidentes de trânsito só em 2008. Há numerosos estudos a respeito: “Ferrocídio”, de Juan C. Cena, é testemunha disso, mas basta percorrer o interior do país para deparar-se com estações abandonadas e povos deprimidos que esperam a volta do trem para reviver. O trem levava e trazia as famílias, transportava pequenas conduções regionais, dava trabalho, levava água a regiões que necessitavam, integrava o país. Por isso, a volta do trem é necessidade de todo o interior. Além disso, façamos uma conta muito simples: o transporte de carga a grandes distâncias por trem é quatro vezes mais econômico que o transporte automotor. 

Ainda em relação a Menem, para quem não viu o filme, qual o destino tomado pelo patrimônio das empresas estatais de ferrovias? Hoje, o governo segue subsidiando essas companhias? Em troca, o que recebem os usuários? 

 

O destino foi o saqueio, o desmantelamento e a venda de locomotoras e vagões como sucata, o roubo de tornos, trilhos, galpões inteiros. Hoje em dia, o governo subsidia as empresas ferroviárias concessionárias que só mantêm um mínimo de sistema em mau funcionamento e se esqueceram do transporte de passageiros. Nenhuma dessas empresas privadas fez os investimentos prometidos por contrato e, no entanto, cobram subsídios milionários. Na Grande Buenos Aires, um dos poucos lugares do país que ainda tem transporte de passageiros, as pessoas viajam como gado e frequentemente “explodem” em reação ao péssimo serviço, descarregando sua ira, quebrando ou incendiando os vagões, que logo o mesmo Estado se fará responsável por reparar… 

No Brasil, está em forte andamento um projeto de trem bala para conectar São Paulo e Rio de Janeiro com investimento de US$ 11 bi para um trecho de 500 quilômetros. Vocês já tiveram algum contato com o tema, conversaram com alguma organização por aqui?

 

Sabemos do projeto São Paulo-Rio, mas não tivemos contato com grupos brasileiros. Conversamos sim com organizações italianas e bascas que se opõem à construção de trens similares em seus respectivos territórios por questões de meio-ambiente, econômicas, geográficas e de prioridades no investimento público. Gostaríamos muito de poder ter contato com organizações brasileiras por esse tema. 

Parece contraditório que governos ditos de esquerda priorizem um projeto que é claramente elitista? 

Na Argentina, a classe média não teria acesso ao trem bala, apenas uma classe “VIP”, muito reduzida. Por aqui, o que acontece é que uma coisa são os discursos, e outra as medidas reais. Subestima-se demasiadamente a população ao querer convencê-la de projetos faraônicos e envolvidos em uma máscara de progresso.

Para nós, há algo que está muito claro: o trem bala não surge de uma necessidade de nosso país, de nosso povo, ninguém por essas pampas pediu nem discutiu isso. É uma imposição que responde a outros interesses.

O Tren para Todos, por outro lado, é pedido por milhares de povos e cidades. É, sim, nossa necessidade social, econômica e socioambiental. (cc)

endurecido e perdendo a ternura

17/04/2009 § 1 comentário

por joão peres :: O governo Kirchner pode estar dando seus últimos passos. Talvez Cristina Kirchner não deixe a Casa Rosada depois das eleições legislativas de junho, mas corre o risco de ficar isolada. Estarão em disputa metade das cadeiras da Câmara baixa e um terço das vagas no Senado. Tendo em conta que o apoio parlamentar ao governo já está altamente comprometido e que a presidenta tem maioria apertada nas duas casas, uma derrota colocará em jogo a possibilidade do atual projeto de se manter vivo. 

O desgaste do governo é rápido e notório, e aumentam as vozes que falam que Cristina Kirchner terá que entregar o cargo, algo que obviamente não seria desejável para a solidez das instituições argentinas. De fato, uma renúncia já esteve perto de acontecer em julho do ano passado, depois de quatro meses de briga com o setor agrário. A votação de um projeto que o governo enviou ao Senado exatamente a respeito dos desentendimentos com o campo terminou empatada.

Pela Constituição argentina, cabe ao vice-presidente dar o voto de minerva: Júlio Cobos migrou para a oposição e desde então não troca palavras com Cristina Kirchner nem com o “Pinguim”. Uma derrota que não marcou “apenas” a ruptura: deu início àquele que é conhecido como o pior dia do governo. Na ocasião, especula-se que em torno de 50 funcionários estiveram reunidos para anunciar a decisão de deixar a Casa Rosada e a carta de renúncia da presidenta começou a ser escrita. Nas horas de tensão que se seguiram, inclusive o presidente Lula teria sido acionado. Partiu de Cristina a decisão de seguir governando mesmo com um prognóstico pouco tranquilo.

Não há dúvidas de que os desentendimentos com o campo são parte fundamental do desgaste. A briga ganhou novos capítulos recentemente, quando o governo evitou a votação de uma lei que reduziria os impostos sobre a soja e, no dia seguinte, anunciou que repassaria às províncias e aos municípios 30% do arrecadado com as taxas sobre o grão.

Omar Marchetta, secretário gremial da Federação Agrária Argentina (FAA), observa que “não podemos pagar 35% de retenções. Isso é claramente confiscatório. O que queremos é que o pequeno produtor tenha uma retenção menor. Na Argentina, temos 74 mil produtores de soja, mas apenas 2.800 respondem por 64% da produção”. Luis D’Elia, líder da Federação Terra e Vivenda (FTV), lembra que o governo acertou vários pontos com o setor agrário no início de março, e portanto “é inadmissível que a Mesa de Enlace pretenda obter resultados que se encarregou de negar e combater poucos meses atrás”.

Agora, o campo prepara um dos passos que afetarão seriamente a governabilidade de Kirchner. Os agraristas tem o apoio (direto ou indireto) de 108 dos 257 deputados, faltando pouco para atingir a maioria, o que pode acontecer nas eleições. Por sua vez, o oficialismo conta atualmente com o número exato de legisladores para a aprovação na Câmara e tem dificuldades no Senado.

Só na província de Buenos Aires estarão em jogo 20 cadeiras da base aliada, e tudo indica que será difícil manter o número atual. O professor Diego Reynoso, coordenador do Programa de Governabilidade da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), aponta que restaria a Cristina Kirchner lançar mão de um recurso constitucional: o veto, que é um instrumento de exceção e que teria alto custo político.

O adiantamento

A antecipação das eleições de outubro para junho foi resultado de uma conjunção de análises do governo. O ponto mais óbvio é a crise, que vai afetar muito seriamente a Argentina nos próximos meses, provocando desemprego em massa em uma região particularmente favorável aos Kirchner: Buenos Aires. Deixar a votação para outubro seria um ato quase suicida para o governo.

Em outro ponto, o Partido Justicialista, presidido por Néstor Kirchner, sofreu recentemente uma derrota na província de Catamarca, que deu o sinal de alerta. Como cada vez menos governadores apoiam Cristina Kirchner, o temor era de que todos antecipassem eleições nas províncias e que a base aliada sofresse consecutivas derrotas, ficando ainda mais enfraquecida.

E, por último, o governo acredita que é necessário encurtar o tempo que a oposição tem para fazer articulações. A mais importante delas, no entanto, já vinha em andamento: o chamado PROperonismo, que une o direitista Maurício Macri, prefeito de Buenos Aires, e os ex-integrantes da base kirchnerista Felipe Solá e Francisco De Nárvaez.

No entanto, para o professor Diego Reynoso, a união é altamente transitória e tem uma base muito frágil. “Há conflitos de interesses que não são assimiláveis. A curto prazo, Solá y De Narváez vão disputar quem encabeçará a lista da eleição para deputados. Depois, tanto Solá quanto Macri querem ser candidatos à Presidência”, adverte o docente da Flacso.

Formar coalizões é algo que parece cada vez mais complexo para os Kirchner. Com forte dissidência dentro do Partido Justicialista, Néstor Kirchner sairá como candidato a deputado pela província de Buenos Aires em uma tentativa de garantir a governabilidade no Congresso.

Ainda não há projeções confiáveis, mas, de qualquer maneira, o cenário não é muito otimista: o Partido Justicialista pode não atingir o nível histórico regional. Fora da principal província, o governo deve sofrer derrotas em Córdoba, Mendoza, Santa Fé e Chaco, uma represália da população à briga com o setor agrário e a suposta distribuição desigual de verbas entre governos opositores e oficialistas.

Para o líder da FTV, Luís D’Elia, uma vitória governista na votação para o Legislativo define o futuro da política argentina a favor da atual gestão pelos próximos seis anos. Prevendo o triunfo da oposição, o secretário da FAA, Omar Marchetta, considera que “haverá um desastre para o governo nacional, que quer aparentar ser progressista e termina sendo de extrema direita. Estão concentrando cada vez mais a produção, fazem com que haja cada vez mais gente fora do sistema”. Contudo, se houver um desastre para Cristina Kirchner, aparentemente haverá um desastre para a Argentina: não há um líder de projeção nacional capaz de dar governabilidade a uma nova gestão, que teria de lidar com um país em profunda crise econômica.

Em 2011, as condições já seriam diferentes. O professor Diego Reynoso aponta que o kirchnerismo “está muito deteriorado e caindo a uma velocidade muito alta. Sem o apoio dos setores médios e da população do interior do país, perdeu suas bases eleitorais. Outro aspecto muito forte é o comportamento dos governadores e dos líderes do Partido Justicialista: estão insubordinados em relação à condução nacional e isso é algo que é muito difícil recompor”. São exatamente os líderes do PJ que vão decidir o candidato do partido nas eleições presidenciais e, mais uma vez, o partido rachado deve contar com mais de um nome.

Analisando as chances dos que se colocam hoje como possíveis presidenciáveis, Jorge Mayer considera que o nome mais forte é o do senador Carlos Reutemann, ex-piloto de Fórmula Um que recentemente rompeu com o kirchnerismo.

Quanto a Maurício Macri, as chances são mais complicadas por ele não pertencer ao justicialismo. Além disso, em um momento de crise é pouco provável que tenha sucesso alguém que lembre tanto as políticas de Carlos Menem. A reeleição de Cristina Kirchner ou o regresso de seu marido mostram-se duvidosos por todos os fatores já apresentados. É também pouco provável que se escolha um outro nome de dentro do governo, já que os ministros têm pouca expressão.

¿Qué te pasa, Clarín, eh?

Os Kirchner já tiveram uma boa relação com a imprensa. Não têm mais. Pelo menos não com os todo-poderosos do Grupo Clarín, o equivalente vizinho das Organizações Globo: são donos do jornal de maior circulação, de alguns canais de TV aberta e a cabo, controlam a transmissão a cabo e as conexões de internet.

Durante o primeiro governo, as conversas foram as melhores possíveis: Néstor autorizou a fusão de duas firmas de TV a cabo para o grupo, estendeu as licenças concedidas para a empresa e chegou a aprovar leis de interesse do Clarín. A ruptura aconteceu com uma manchete do diário mais lido da Argentina que culpava o “Pinguim” por não baixar o dinheiro retido nas negociações da soja. Uma mudança de rumos suficiente para Jorge Mayer, diretor de Ciências Políticas da UBA, afirmar que não há qualquer lógica na política kirchnerista para os multimeios.

Em meio à guerra, uma batalha que pode ser decisiva: o governo apresentou o projeto da Lei de Radiodifusão, elaborado em conjunto com os movimentos sociais e que mexe diretamente com os interesses dos grandes grupos. Ainda em fase de discussão, o texto que chegará ao Congresso dias antes das eleições prevê a redução da quantidade de licenças de serviço de um mesmo operador de 24 para 12 e divide igualmente em três o espectro de frequências disponíveis para meios comerciais, públicos e sem fins de lucro (universidades, movimentos sociais, cooperativas, ONGs e igrejas).

Pepe Frutos, coordenador da Rede Informativa do Fórum Argentino de Rádios Comunitárias (Farco), comemora o que pode ser o fim de uma lei sancionada durante a ditadura. Para ele, a Lei de Radiodifusão não é uma represália ao Grupo Clarín: “é um projeto a favor da democratização e contra os monopólios. Há que abrir o jogo para outros atores, para que mais vozes possam ser ouvidas, e para isso é necessário democratizar a participação da população. Muito antes que essa briga midiática aparecesse já tínhamos nossas propostas, não estamos contra nenhum grupo em especial”.

O fato é que há vários pontos no projeto que contribuem para a democratização da comunicação na Argentina. Um deles prevê que uma prestadora dos serviços de TV a cabo não possa atingir mais de 35% dos assinantes – o Clarín tem 70%. Outro determina que um mesmo grupo não pode ser dono, simultaneamente, de uma rádio, um canal de TV a cabo e outro de TV aberta na mesma região. Além disso, as companhias telefônicas podem ser autorizadas a entrar no mercado de TV paga, mais um setor dominado pelo poderoso grupo.

Por fim, um negócio bilionário pode deixar de existir ou, no mínimo, tornar-se menos lucrativo. O governo Kirchner estuda declarar o futebol um esporte de “interesse nacional”, o que acabaria com a exclusividade do Clarín sobre a transmissão de partidas da Primeira Divisão. Hoje, o torcedor que quer acompanhar os jogos mais importantes tem duas opções: ir ao estádio ou ouvir pelo rádio.

Na verdade, quem pode elege o terceiro caminho: pagar mais de 100 pesos ao mês para ter acesso à cobertura pela TV, um negócio estimado em 9 bilhões de pesos ao ano (em torno de US$ 2,5 bi). Para aprovar a mudança, Néstor Kirchner conta com o apoio dos clubes, hoje insatisfeitos com o pouco que recebem pelos direitos de televisão (Boca e River, os mais abonados, lucram menos de 20 milhões de pesos anuais, algo irrisório se comparado aos ganhos do Clarín com o negócio).

Mas a aprovação da lei vai depender de vários fatores, entre eles como se configura o Congresso depois das eleições de junho. Ao que parece, esse jogo está longe do fim. (cc)

>> publicado na revista fórum

juízo e castigo

07/04/2009 § Deixe um comentário

Filhos de vítimas da ditadura argentina buscam justiça e, na falta dela, se fazem notar em toda parte.

por joão peres Contra a falta de justiça, a condenação social. Contra o esquecimento, a exposição pública dos fatos. Uma pessoa não descansa enquanto não conhece sua origem. E não se tranquiliza enquanto não vê punidos os que lhe roubaram a família. Esse é o combustível do H.I.J.O.S (Hijos por la Identidad y la Justicia, contra el Olvido y el Silencio), grupo de jovens argentinos que luta pela condenação dos repressores participantes da ditadura do país (1976-1983). Alguns conheceram a violência nos primeiros dias de vida, outros antes mesmo de vir à luz. O que os une não é um partido político ou uma religião, mas a dor causada pela perda dos pais durante o regime.

A força do grupo é grande, há quem fale em uma “geração H.I.J.O.S”. Eles cresceram vendo as ações incansáveis das Mães e das Avós da Praça de Maio, entidades que até hoje lutam contra o desaparecimento de corpos promovido durante a ditadura. Azucena Villafllor, a primeira líder das Mães da Praça de Maio, foi morta pelo regime. Atualmente, há dois grupos de madres: a Linha Fundadora, parceira do H.I.J.O.S, e a Associação Mães da Praça de Maio, famosa pelas marchas realizadas há mais de 1.600 quintas-feiras em frente à Casa Rosada, sede do governo, sempre com lenços brancos na cabeça. Em outra frente, as Avós da Praça de Maio dedicam mais de 30 anos à busca dos bebês raptados pelos militares. Até agora, 96 pessoas recuperaram a identidade.

O H.I.J.O.S foi fundado em 1995: era o momento em que os filhos de mortos pela ditadura chegavam à faculdade, com consciência política, e davam-se conta de que também eram vítimas do terrorismo de Estado. Para Agustín Cetrangolo, há seis anos na organização, existia outro cenário para a criação do movimento. “Era meados do governo de Carlos Menem, e o menemismo foi o projeto mais claro de onde queriam chegar as multinacionais, as oligarquias. Os prejuízos se alastravam para os planos político, econômico e cultural”, relata. Além disso, durante o governo de Menem foram editadas duas leis que deram guarida aos militares: a Ponto Final e a Obediência Devida.

Com tudo isso, coube aos filhos levar adiante as ideias dos pais, mas com ajustes importantes. No grupo não há chefes, presidentes, diretores ou líderes. “Não é um lugar em que dizem que você deve fazer isso e aquilo, onde há um responsável pela sua prática, um tutor que o controle. É uma organização horizontal com compromisso de formação dos integrantes para promover uma discussão parelha”, diz Cetrangolo.

Os primeiros meses no grupo não são fáceis: é preciso fazer transbordar histórias doloridas e lidar com assuntos complexos. Muitas vezes a entrada é vetada até que o interessado tenha certeza de que quer envolver-se profundamente. Antes de participar das assembleias (nas noites de sexta-feira, com até seis horas de duração), o postulante convive com integrantes do grupo e realiza tarefas cotidianas. Essas precauções foram motivadas, também, pelo excessivo entra-e-sai, que atrapalhou as ações durante alguns anos: mais de mil pessoas já passaram pelo H.I.J.O.S de Buenos Aires.

A unidade da capital federal é a mais movimentada, mas não é mais importante que nenhuma das outras espalhadas no território argentino (Paraná, Mar del Plata, Chaco, Córdoba e Rosário) ou que as 16 representações em outros países. Todas mantêm encontros anuais para discutir diretrizes, o que não tira a autonomia de cada uma em relação ao todo. O H.I.J.O.S de La Plata, por exemplo, editou neste ano um calendário em protesto contra a desaparição de Julio Lopez, que, aos 76 anos, é considerado testemunha-chave no caso do repressor Miguel Etchecolatz e está desaparecido há mais de dois anos. Por isso, o calendário do grupo saiu sem o mês de julho (julio, em espanhol).

Sem justiça, o escrache

Ainda no governo Menem, sem ter como lutar diretamente por justiça, o H.I.J.O.S deu início aos escraches. Nos primeiros anos, a prática consistia em chamar a atenção para o fato de haver repressores soltos pelas ruas. Integrantes iam até o bairro em que morava um ex-colaborador dos militares e explicavam aos vizinhos quem vivia logo ao lado.

“Num momento em que a sociedade estava paralisada, essa prática serviu para evidenciar que em qualquer bairro havia um promotor das práticas mais atrozes conhecidas pela história. O repúdio a esses personagens serviu para promover a condenação social e, com condenação social, é mais fácil ter justiça”, explica Cetrangolo.

Em 2003, com o governo de Néstor Kirchner, chegaram mudanças importantes para o grupo: a revogação das leis Ponto Final e Obediência Devida abriu espaço para que se pudesse lutar pela condenação efetiva dos militares. Após a fuga de um bombeiro que seria submetido a julgamento (e desapareceu depois de ser “escrachado”), o H.I.J.O.S viu que era tempo de fazer com que o escrache fosse levado às portas da Justiça.

O problema é que os militares tentavam arrastar os processos pelo máximo de tempo, recorrendo a todas as instâncias penais. “A Câmara de Cassação Penal, última instância antes da Corte Suprema, foi criada durante o menemismo, com juízes claramente identificados com o terrorismo de Estado. A causa ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada), em que se julgavam centenas de repressores, ficou adormecida uns dois anos. Então, fizemos um escrache pesado, e o presidente da Câmara acabou renunciando”, conta Cetrangolo.

Se por um lado ajudou a colocar repressores na cadeia, por outro, o kirchnerismo dividiu os movimentos de luta por direitos humanos. Hebe Bonafini, líder histórica das Mães da Praça de Maio, declarou-se governista, recebendo elogios e críticas. Integrantes de organizações de esquerda passaram a participar do governo, também provocando vaias e aplausos.

Com o H.I.J.O.S não foi diferente, mas Cetrangolo não vê nada de negativo no fato de seus integrantes comporem órgãos governamentais, desde que as duas atuações fiquem bem separadas. Ele mesmo milita em uma organização kirchnerista, mas afirma que jamais os filhos vão declarar-se oficialistas. “Seria muito difícil forçar o H.I.J.O.S a tomar algumas posições. Nós temos uma heterogeneidade que nos dá uma riqueza muito grande. Não supomos um governo pela ideologia, analisamos a política de direitos humanos que queremos levar adiante e, se o governo não serve para isso, não serve para o H.I.J.O.S.”

É engano pensar que os julgamentos dos últimos anos esgotam as causas do Juízo e Castigo. Os integrantes admitem que, ainda que leve muitos anos, um dia essa bandeira estará esgotada. No entanto, as consequências da ditadura estão longe de desaparecer.

Para que se formem outras gerações de hijos, os militantes tomam a luta em um sentido mais amplo. “Entendemos que a violação aos direitos humanos ocorre todos os dias e em todo o mundo. Podemos fazer uma ponte entre a ditadura, o genocídio e as relações de direitos humanos de hoje. Nas delegacias e nas prisões há incontáveis casos de tortura”, observa Cetrangolo. ((i))

>> publicado na revista do brasil

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