pelotudeces no fantástico mundo do jornalismo

14/05/2009 § Deixe um comentário

Diferentemente do que alguns veículos querem fazer crer, jornalistas erram. E com muito mais frequência do que deixam transparecer… Mas há erros e ERROS. O do diário Olé, da Argentina, é Monumental como o estádio do River Plate.

Sem titubear, o jornal estampou na capa de terça-feira, 12 de maio, a foto “A pior dirigência da história” e a manchete “La que faltaba”. Em uma dura reportagem, o jornal criticava duramente a torcida por ter exposto a faixa contra a diretoria por apenas alguns minutos e retirado justamente quando os jogadores entraram em campo no jogo do último domingo.

Banderas_River_1

As duas fotos: em cima, a verdadeira; embaixo, a brincadeira computadorizada que o Olé engoliu

Nas palavras da publicação do multi-poderoso Grupo Clarín, é óbvio que alguém da diretoria mandou retirar a bandeira e que houve uma clara censura. Em uma matéria cheia de apurações e com alguns offs, o jornal garantiu ter visto a tal faixa no estádio.

Não fosse por um detalhe, tudo estaria correto. O “detalhe” em questão é o seguinte: a faixa nunca existiu. A foto publicada pelo Olé – e que o jornal se gabou de ter obtido com exclusividade – nada mais é que uma arte de Photoshop, programa de computador usado para editar imagens.

Um torcedor gallina, cansado da péssima fase da equipe, já eliminada da Libertadores e com campanha apenas regular no Torneio Clausura do campeonato nacional, usou a transmissão da TV Fox Sports para fazer a arte. No lugar de “defensa” colocou “dirigencia”, publicou a imagem em um dos mais frequentados fóruns de discussão de torcedores milionários e pronto: bastou a ânsia de um jornalista em busca de manchete para produzir uma das mais vergonhosas páginas da vergonhosa história do Grupo Clarín.

É bom que se diga que o torcedor em questão fez apenas uma brincadeira, em momento algum teve a intenção de ludibriar alguém (para usar um termo futebolístico), tanto que publicou uma nova mensagem no grupo de discussão do River:

No sean mentirosos los de Olé, esa bandera nunca existio en la cancha, la invente yo con el Photoshop. Los que fueron a la cancha lo pueden confirmar. Ahora quieren tapar todo lo que dijeron en el dia de hoy y hacernos creer que hubo bardo hacia la dirigencia, haciéndonos creer que los dirigentes no fueron los autores de este hecho de las banderas, por la obviedad de que no pondrían una bandera que diga “la peor dirigencia de la historia”.

Muchos foristas podrán corroborar lo que digo porque esta foto la puse ayer en el post de banderas en la popular y muchos decian que hubiese estado bueno que esa bandera estuviera ahí o que la única que tendría que haber estado es esa.

No puedo creer lo de Olé, ya pasan de la mediocridad a lo espantoso. Y de paso mi trabajito se hizo famoso.

De uma só tacada, o Olé demonstrou mentir ao dizer que obteve a foto com exclusividade, forçou fontes de confiança a se pronunciarem a respeito de um fato que não existe e perdeu qualquer confiança com metade da torcida argentina.

Para quem quer ver com os próprios olhos, eis o relato do torcedor e a barrigada do Olé, reproduzida, claro, no Clarín.

Em tempo: diga-se de passagem que tanto os diretores do Olé quanto do Clarín tiveram bom senso em não retirar os links da internet. Seria ainda mais feio, mas nada inédito…

Ainda em tempo: que não se apressem os anti-argentinos de plantão em tirar sarro da cara dos habitantes do lado de lá da fronteira. Nem vale a pena entrar na discussão de que nosso jornalismo é infinitamente mais chapa branca. O que vale é lembrar um episódio ocorrido recentemente na Rede Globo. O Globo Esporte, no dia posterior à derrota da Argentina por 6 a 1 para a Bolívia, refestelou-se na lama.

Na reportagem exibida pelo correspondente de então, o começo tradicional com as manchetes dos jornais impressos. “A Argentina de luto”, dizia um deles, obviamente ressaltado pelo jornalista. O repórter não viu, ou não quis ver, que a Argentina estava de luto pela morte do ex-presidente Raul Alfonsín, e não pela derrota para a Bolívia. –joão peres (cc)

a seleção eficaz

30/03/2009 § 4 Comentários

braecu

Pode ser que tenha sido a altitude. Eu, quando cheguei, levava meu sedentarismo ao limite em qualquer caminhada. Pior se era uma subida, e em Quito são muitas. Se os franceses tem mais de um queijo para cada dia do ano, os quitenhos podem completar o calendário subindo diferentes ladeiras entre 1º de janeiro e 31 de dezembro.

Mas os 2.900 metros que afastam a capital equatoriana do nível do mar não podem ter sido o único responsável. Porque é uma questão de glóbulos vermelhos no sangue, que se ganham ou se perdem com o tempo, de acordo com as necessidades de oxigenação do corpo. Muitos jogadores do Equador não vivem na altitude. Jogam na Espanha, no México, no litoral. E, mesmo assim, correram muito mais que qualquer brasileiro.

Tanto que me senti identificado com a Seleção. Nas arquibancadas – brasileiro só – me vi cercado de equatorianos por todos os lados. Como uma ilha de resmungos silenciosos e pequenos atos de desesperação em meio a tantas esperanças de vitória. ¡Sí, se puede! – diziam, cantavam, gritavam. Eu não dizia nada. Estava amuado, inibido, quieto, tratando de ver e só ver. Por isso, não precisei defender-me como se defendeu a Seleção. Ambos, no entanto, eu e o time, estávamos em estratégia de sobrevivência. A zaga corria, Julio César defendia e eu sofria a cada ataque equatoriano.

Não ligo tanto para futebol a ponto de patrocinar uma discussão sobre as virtudes e defeitos desta ou daquela equipe. Muito menos para dar um murro na cara de alguém que torce pelo adversário. Sou muito mais como o mendigo de Eduardo Galeano, um pedinte do bom futebol, que percorre o mundo de chapéu estendido suplicando “uma linda jogada, pelo amor de deus”.

Faz tempo que não vejo uma obra de arte futebolística assinada por um gênio da camisa amarelinha. A última, que não me sai da memória, surgiu das chaleiras de Ronaldinho – então gaúcho – contra a Venezuela. Isso faz sei lá quanto tempo. O mesmo Ronaldinho que hoje é milionário e ontem mal tocou na bola.

Talvez, de tanto que as equipes europeias contratam nossos querubins mal começam a botar as asinhas de fora, nosso futebol tenha endurecido. A Itália retranquiera, que defendendo – e não atacando – conseguiu a última Copa, se refletiu no Brasil deste domingo: um time que não correu, que preferiu chutar a bola pro alto a tocá-la no pé e evitar os gols em vez de marcá-los. E – a cada falta, escanteio ou tiro de meta – quis deliberadamente matar o tempo e o torcedor.

Éramos poucos no estádio Atahualpa. Se fôssemos mais, poderíamos, talvez, dar voz ao gol de Julio Baptista, tão silencioso quanto chorado, e em silêncio comemorado. É horrível ter que engolir um grito. Ainda mais se esse grito é mais que um grito, se é o vômito das seguidas doses de amargura empurradas goela abaixo a cada ataque bem armado e mal sucedido do time adversário. Pior se o gol nasce de uma das três únicas vezes que a Seleção pôde chegar à meta equatoriana e interromper o dia de folga do goleiro Cevallos.

Odeio falar de futebol usando cifras de Wall Street. Tudo é produtividade hoje em dia, e por isso a Seleção é tão eficiente e tão triste. São onze profissionais muito bem pagos para manter a máquina em funcionamento, da maneira mais objetiva possível. O resto de nós, pobres torcedores, temos que nos contentar com os resultados – que, no fim das contas, ultimamente tem sido positivos.

Das quatro últimas Copas, o Brasil levou duas e chegou à final de outra. Quer coisa melhor?
 
Eu, sim, gostaria. A competição talvez perca muito de seu sentido quando se transforma em negócio. Quando entramos num jogo, todos queremos ganhar, claro. Mas a que preço? Preferiria um Brasil mais moleque, menos profissional e mais arteiro, menos eficiente, menos vencedor e mais espontâneo. Mais coletivo, sobre tudo. Que jogasse as eliminatórias como se joga uma pelada na praia, fazendo graça para impressionar as morenas que tomam sol.

Uma Seleção que transformasse o jogo num espetáculo de dribles e boas jogadas, e que desse menos importância para a bola na rede do que para o gol, o grande momento do futebol, que só é grande quando grande é o futebol que o antecede.

Bom seria ir ao estádio como quem vai ao teatro, ao cinema, ao circo. Para sofrer, chorar, rir, se irritar ou divertir por causa da obra, dos seus meandros, suas tragédias, dramas, altos e baixos – não por causa de um resultado.

O que foi a Seleção domingo? Uma boa defesa, sem dúvida. Perdi as contas de quantas vezes escutei equatorianos elogiando o porterazo Júlio César. Um ataque eficiente, talvez. Nesses termos, o exato oposto foi o Equador: uma defesa tão ruim que vazou em 33 por cento das oportunidades de gol do adversário, um ataque tão horrivelmente péssimo que poderia ter feito dez gols e acertou apenas um.

Porém, vi a alegria que cada jogada, cada toque de bola Tricolor provocava na torcida ao meu lado. E também a angústia do gol jamais marcado, o êxtase da meta por fim alcançada. Pagaram para ver um espetáculo – e viram. Torceram para um time que o tempo todo correu, tocou, buscou uma vitória – que não veio. E ninguém ficou triste.

– Antes nos hacían bailar a nosotros, hoy les hicimos bailar a ellos.

Simples assim. Enquanto isso, eu confiava na salvação brotada dos pés de algum atacante brasileiro, de Luís Fabiano, de Ronaldinho, de qualquer um desses cidadãos apáticos que, num momento de inspiração, pudessem driblar um ou dois ou três e de qualquer maneira balançar a rede. Aconteceu. Mas, e daí?

Talvez no futebol os brasileiros sejam como na política: vivem – ou morrem – esperando que o messias tire o país do buraco, seja com um gol ou um governo. Os messias aparecem, sempre aparecem, goleiam ou governam, mas tudo continua igual na próxima partida, no próximo mandato e principalmente na torcida, que volta a esperar o surgimento de outro salvador. E assim vamos: dando vexame nisso, servindo de exemplo naquilo, mas sempre – sempre – classificando para a Copa do Mundo. (cc)

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