quilotoa troca lava por lago

29/01/2010 § Deixe um comentário

Para imaginar o Quilotoa basta pensar num vulcão de 3.880 metros de altitude. Também é necessário parar de sonhar com erupções violentas e rios de lava descendo furiosos pelas encostas das montanhas, porque o Quilotoa há muito tempo está inativo. Em vez de fogo, há água. Dentro da cratera, a fúria das rochas incandescentes deu lugar a uma lagoa azul-turquesa, ovalada em seus três quilômetros de diâmetro, que brilha e muda de cor quando bate o sol.

Mas para ver tudo isso é necessário subir até lá. Ao contrário do que acontece com a maioria dos vulcões equatorianos, o acesso ao Quilotoa é bastante fácil. Não é necessário escalar absolutamente nada e nem ter equipamento especial para a neve. No Quilotoa faz frio, mas não o suficiente para nevar. A temperatura média varia entre dez e 14 graus durante o dia. Não se pode saber com exatidão, porque o clima dos Andes equatorianos depende muito da intensidade do sol. Se ele resolve aparecer e reinar soberano no céu azul, é provável que os menos friorentos consigam dispensar a blusa. Mas se o dia nasce e morre nublado, ou se chove, o frio vem com força e o vento corta. De noite a mesma coisa. Não é à toa que para os incas o sol – ou inti, em quéchua – era o maior dos deuses.

Chegar até o Quilotoa é tão simples quanto demorado. Em Quito, basta dirigir-se ao Terminal Terrestre de Cumandá, no centro da cidade, e pegar qualquer ônibus que vá a Latacunga. E são muitos, que saem a cada dez minutos e não custam mais de 1,5 dólar. Isso porque tanto Quito como Latacunga ficam numa mesma linha rodoviária, a Panamericana, que corta não apenas o Equador, mas todo o continente americano de norte a sul. Como a capital do país fica no norte, são muitos os ônibus que saem em direção ao sul (Riobamba, Ambato, Cuenca, etc.) e inevitavelmente acabam passando por Latacunga.

São cerca de duas horas de viagem. Uma vez em Latacunga, é altamente recomendável fazer uma parada gastronômica nas barraquinhas de comida que ficam ao lado da estação de trem da cidade. Ali se pode encontrar cuy assado, uma espécie de porquinho da Índia feito no rolete. O cuy é um dos pratos típicos dos indígenas andinos. Não tem muita carne, mas vale a pena experimentar. Negociando é possível comer um cuy – com arroz, batatas e salada à vontade – por dez dólares e sair com a barriga cheia para a próxima etapa da viagem.

Há duas opções para fazer o trajeto Latacunga-Quilotoa. Existe um ônibus que vai diretamente até o vulcão e que sai duas vezes por dia do terminal rodoviário da cidade, um de manhã e outro à tarde. A Cooperativa El Vivero tem ônibus diários normalmente às 10h e às 13h, mas esses horários não são tão rígidos assim. Quem não conseguir pegar esse ônibus tem que se colocar na avenida principal de Latacunga e esperar um transporte até Zumbahua. A passagem custa em média 1,25 dólar. O trajeto demora cerca de duas horas e é bom ficar esperto pra subir num ônibus que tenha poltronas livres. Ficar de pé todo esse tempo enquanto o coletivo serpenteia pelos Andes não é uma experiência muito agradável nem para as pernas nem para as costas.

Basta colocar o pé em Zumbahua para que algum morador local venha oferecer transporte em caminhonete até o Quilotoa. É com eles que as pessoas – inclusive os que moram ali – costumam subir e descer do vulcão. A grande diferença está no preço que cobram de uns e outros. A passagem vai depender muito da pinta de gringo (olhos e cabelos claros, roupas de aventura e mochilas grandes) e da capacidade de negociação de cada um. Aliás, quase tudo no Equador é negociável. Por isso, se a caminhonete vai cheia, não se deve pagar mais de 50 centavos de dólar pela viagem. Se são poucas pessoas, 1,50 ou 2 dólares é o máximo. Esse preço só se consegue com muita pechincha. Se não bater o pé, o viajante pagará entre 3 a 5 dólares pela meia hora de viagem até o vulcão.

Se estiver fazendo bom clima, vale a pena ir de pé na carroceria da caminhonete. O vento é frio, mas a beleza da região compensa. E no caminho existe um pequeno cânion que acompanha boa parte da estrada.

Depois de muita subida, se chega à entrada do povoado. Turistas estrangeiros têm que pagar 2 dólares para entrar na comunidade, que se encontra no topo do vulcão. Uma vez ali, basta caminhar cinco minutos até a cratera, que fica dentro do povoado mesmo. Visto de cima, o lago vai parecer pequeno e a trilha que leva até ele, curta. Mas no Quilotoa, as aparências enganam. A descida pode levar entre 45 minutos e uma hora, dependendo do preparo físico de cada um. E a volta…

Mentiria se dissesse que é fácil, porque, além da inclinação da montanha, a altitude não ajuda na hora de respirar. O sol equatorial, quando está a pino, também não é muito agradável. Mas os moradores locais pensaram nisso. Os que não conseguirem vencer a subida com suas próprias pernas podem recorrer às mulas e cavalos, sempre dispostos a conduzir o turista ao topo do vulcão em troca de dinheiro.

Lá embaixo, na lagoa, é possível alugar um barquinho, caminhar, escalar as rochas ou simplesmente ficar à toa desfrutando a paisagem. Também dá pra acampar, com a vantagem de que faz menos frio e menos vento perto da lagoa do que lá em cima. Para comer, no entanto, é necessário subir ao povoado, onde também se encontram muitas opções de alojamento. Praticamente cada casa de família é também um hostel. Cobram entre 8 e 10 dólares pela pernoite, com direito a jantar e café-da-manhã.

Do lado de fora do povoado, porém, há um hotel mais requintado, de estilo rústico. O Quilotoa Crater Lodge oferece um conforto adicional ao viajante. Se alguém pretender passar uns dias por lá, tanto o hotel quanto os moradores locais podem levar para um trekking ao redor da cratera do vulcão ou pelas trilhas da região. Os adeptos do montanhismo muitas vezes optam por ir até Chugchilán caminhando, em passeios que duram em média cinco horas e exigem algum preparo físico. O aluguel de cavalos também é uma boa opção de passeio. O pôr-do-sol no Quilotoa, acima das nuvens, também está entre as principais atrações do lugar. Enfim, são muitas as opções e nulas as chances de entediar-se. A não ser que venha uma frente fria interminável e nuble por um ou dois dias a vista que se pode ter da lagoa.

Mas aí é só sentar e esperar, aproveitar o artesanato local ou dar uma escapada à Tigua, povoado vizinho que ficou conhecido pelas pinturas folclóricas em couro de ovelha. Se for sábado, uma passadinha pela feira indígena de Zumbahua, uma das mais importantes do Equador, também é uma boa opção. A outra é colocar uma blusa impermeável e caminhar por aí. Porque nem só de sol vive o homem – e muito menos os Andes. –tadeu breda (cc)

>> publicado no uol

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la ligne qui divise l’équateur

19/01/2010 § 1 comentário

écrit par tadeu breda
traduit par marion huteau tristão

Je ne su pas où mettre les yeux lorsque Melânia termina de répondre à ma dernière question. Et croyez bien qu´il n´y en eut pas tant que ça. Melânia n´a pas l´air de quelqu´un qui adore discuter avec les étrangers, mais elle n´eut pas l´air dérangée quand nous interrompîmes son travail en lui demandant quinze petites minutes de prose. La machette encore en main, un morceau de fer oxydé avec lequel elle élaguait les pieds de cacao qui poussaient à côté, nous nous assîmes à l´ombre en bas de la maison, entre les épis de maïs, les poussins chantonnants les tronçons de bois et les seaux d´eau.

Une odeur de terre dominait. Battue ou cultivée, tout ce qui nous entourait, était de terre. Les rares bourrasques de vent de ce samedi pourtant ensoleillé, étaient toujours accompagnées d´une fragrance chimique et écoeurante. C´était de ça dont je voulais parler.

La quarantaine, Melânia Chama est agricultrice. Ce n´est pas la seule personne que j´ai connue en Équateur qui n´ait su me donner son âge avec exactitude. Qui habite à la campagne et en tire son pain peut très bien vivre en fonction du jour et de la nuit, du soleil et de la pluie, de l´été et de l´hiver. Les horloges et les calendriers ne sont pas très utiles pour celui qui connait par cœur le cycle de la terre. C´est le cas de Melânia et probablement celui de ses trois filles, qui auraient pu être huit si la mère n´était pas passée par cinq avortements spontanés.

Personne ne sait expliquer pourquoi cette paysanne a perdu autant de bébés en si peu de temps. Un médecin lui avait bien dit que sa structure corporelle n´était pas idéale pour affronter une grossesse, mais la santé de ses trois filles, qui travaillent laborieusement avec elle dans les champs, prouve le contraire. Pour Melânia, il y a d´autres motifs à ses grossesses interrompues.

« Je vis ici depuis plus de 20 ans » raconte-t-elle. Ici, c´est Shushufindi, au nord de l´Équateur, une ville au coeur de la forêt amazonienne, à un peu plus d´une heure de la frontière avec la Colombie. Melânia habite une petite maison en bois surélevée par quatre poutres pour éviter que les animaux ne rentrent. Avec son mari et ses filles, Melânia gagne son pain grâce à ce qu´elle cultive sur sa propriété. En plus du cacao, il est aujourd´hui possible, à force de beaucoup de travail, de voir pousser des pieds de manioc, des bananiers, et du maïs. Avant l´arrivée de la famille Chama, tout n´était pourtant qu´une immense piscine de pétrole.Melânia partage son histoire avec 30.000 autres agriculteurs et Indiens qui, depuis plus de quatres décennies, souffrent de la contamination de l´air, de l´eau, de la terre et des nappes phréatiques dans le nord-ouest équatorien. Shushufindi a été tant dégradée par l´activité prolifère que les habitants les plus familiers au cosmopolitanisme utilisent le terme toxic tour pour désigner le trajet emprunté par les visiteurs qui désirent connaître les conséquences sociales et environnementales de cette tragédie.

En 1964, le gouvernement de l´Équateur décida que l´heure de revendiquer sa part dans la division internationale du pétrole était arrivée. Si Dieu avait offert à presque tous les pays voisins de généreuses réserves, pourquoi les Équatoriens, si fidèles aux offices religieux, étaient-ils restés en marge? Il fut cependant nécessaire de déléguer les tâches de recherche et d´exploitation à une entreprise de confiance. L´option la plus évidente qui s’offrait aux militaires au pouvoir s’appelait Texaco Inc., la plus importante compagnie pétrolière de l´époque. L’entreprise reçut des mains des nationalistes un domaine de 1,4 million d´hectare pour trouver l´objet de convoitise officielle. Ayant toujours le feu vert des autorités, l´entreprise commença à dérober la forêt, à construire des routes et à installer les premiers puits de perforation.

Tracteurs, hélicoptères, grues. Rien de semblable n´avait été vu auparavant dans ce coin de la jungle. La population indienne, qui habitait le lieu bien avant l’apparition de Texaco et même de l´Équateur, fut ignorée au nom du bien commun. L´argent du pétrole était nécessaire et les Indiens ne comprenaient tout simplement pas ce qui se passait. La légende dit que, quelques curumins1 demandèrent à leur grand-père pourquoi pêcher dans les ruisseaux où il y avait toujours eu beaucoup de poisson devenait chaque jour plus difficile. Le vieillard, regardant les tâches colorées que le pétrole laissait dans l´eau, ne dit rien. Il ne sut pas quoi dire. Aucun des mythes transmis de génération en génération par ses ancêtres n´expliquait cela. Les arcs-en-ciel, jusqu´alors, n´existaient que dans le ciel.

Dans les années 60, peu d´Indiens parlaient l´espagnol en Amazonie équatorienne et, dans quelques tribus, le contact avec l´homme blanc venait seulement d´être établi. On ne pourrait répondre aux questions que beaucoup plus tard. « À mesure que la compagnie avançait dans la forêt et répandait les résidus de la prospection prolifère dans l´environnement, les Indiens furent délogés. Ils durent abandonner leurs terres car, évidemment, ils ne pouvaient plus y vivre », explique l´avocat Pablo Fajardo, 37 ans, qui travaille pour la défense des populations affectées par l´activité de Texaco en Équateur.

Pablo est arrivé en vélo à la rencontre que nous avions fixée au siège du Commité des Droits de l´Homme de Shushufindi, un petit bureau cédé par l´église catholique où le militantisme, qui l´amènera à la faculté de Droit, commença. Il transporte son fils sur son porte-bagage, ainsi que son expérience d’homme entêté qui s’implique corps et âme dans l´une des plus grandes batailles judiciaires de l´histoire. La lutte contre les abus commis par Texaco est le premier cas de sa carrière. Il l’a pourtant commencé bien avant que les preuves arrivent aux tribunaux. Au début des années quatre-vingt-dix, quand le procès commença à la Cour de New-York, Pablo n´était pas encore avocat. Il apprit à faire face à la justice en se confrontant quotidiennement à son revers, l´injustice, qui sévit dans presque toute l´Amazonie. Et peu importe si elle est arrosée d´eau ou de pétrole : elle fleurit de la même façon et se dissémine en tout type d´infection, de cancer ou d´intoxication qui ne cessent d´être reportés à l´hôpital municipal.

C’est avec un nœud dans la gorge que l’on découvre les conditions de vie des shushufindenses2. La première chose que l´on remarque ce sont les oléoducs. On les retrouve partout, chauds, le long des routes, au dessus des rivières, au milieu des champs. Le pompage ininterrompu du pétrole se traduit à l´oreille humaine en une stridence métallique, comme si le combustible sortait de terre armé de marteaux et frappait les tuyaux, fer contre fer, en frappant sur le compas systématique de l´extraction. Quant aux puits de pétrole, il est très facile d´en apercevoir un, suçant le sang de la terre. Pas même besoin de sortir du périmètre urbain. Espaces de jeu pour les enfants, ils se répandent entre les maisons et font partie du paysage. Et en toute discrétion. La technologie a permis de réduire ces énormes structures oscillantes, intrigant mécanisme de balanciers et de leviers typiques des films texans, à de petits appareils ressemblant jusque dans la couleur à des bouches d´incendie. Chaque puits s’accompagne toujours d´une tour. À Shushufíndi, elles sont connues comme mecheros, mot venant de mecha, qui en espagnol signifie “flamme”. En regardant une de ces tours, on comprend facilement pourquoi. Le gaz qui sort de la terre avec le pétrole et que l´on n´exploite pas brule en permanence. C´est pour cela que les nuits de la ville mélangent l´obscurité mouchetée d´étoiles aux reflets orangés d´un incendie industriel perpétuel, et que l´horizon vert des jours ensoleillés est parsemé de petits foyers incandescents au milieu de ce qu´il reste de la forêt vierge.

Il a suffit que le pétrole jaillisse pour la première fois, en 1967, pour que l´État équatorien décide d´appuyer son économie sur l´extraction et la vente de combustible. C´est encore le cas aujourd´hui. Il y a deux ans, l´Équateur est devenu camarade du Venezuela, du Nigéria, de l´Angola, de l´Iran, de l´Arabie Saoudite, du Kuwait et d´autres paradis pétroliers en entrant de nouveau dans l´Organisation des Pays Exportateurs de Pétrole (OPEP). Approximativement 40% de la recette de la balance commerciale du pays dépend de l’or noir. Au moins en théorie. Le gouvernement a en effet besoin des bénéfices du pétrole pour investir dans des programmes sociaux qui tirent les Équatoriens de la pauvreté. Pour cela, l´affirmation de la viabilité des réserves hydrocarbonifères avait provoqué un jubilé national. Mais, en regardant Shushufíndi, la salle des machines de l´économie nationale, personne ne doute de la véritable origine du sous-développement.

Là est la grande contradiction de l´Équateur. Sa plus grande richesse financière, la ressource qui subvient aux besoins du pays, provient des entrailles de sa région la plus pauvre. Santiago Chiriap, promoteur de santé interculturelle sur le territoire indien de Yamanunka, n´a jamais compris ce mécanisme. « Il y a 28 puits pétrolifères en fonctionnement dans notre communauté. Nous devrions donc bénéficier de tout type de services, mais nous n´avons même pas d´eau potable et de système sanitaire de base », lamente-t-il.

Près de 1.400 Indiens de l´ethnie shuar vivent à Yamanunka. La croisade personnelle de Santiago contre les “morts soudaines” qui ont commencé à ravager ses voisins l´a amené à enquêter sur la qualité de l´eau que l´on boit dans les environs. Cela parce que les racines et plantes médicinales qui avaient toujours guéri avec facilité les maux de ventre de son peuple ne faisaient plus effet. Chiriap, avait donc demandé de l´aide à des uiversités et des ONG de Quito. Après trois ans d´analyses en laboratroire, il avait conclu que les Indiens ingéraient des quantités considérables de plomb, d´arsenic et d´hydrocarbonates contenus dans l´eau. Il garde avec lui un dossier contenant les résultats des tests, et les montre à qui souhaite les voir. Ceux qui doutent de la parole de Santiago, ou de son dossier de documents, peuvent facilement consulter le docteur Jorge Herrera à l´Hôpital Municipal de Shushufíndi. Plus facile de croire un homme dont le diplôme est accroché au mur et qui reçoit chaque jour des cas d´infections gastro-intestinales. « L´eau de nos rivières n´est pas propre à la consommation humaine pour cause de contamination par résidus originaires de l´activité pétrolière. »

En 28 ans d´opération en Équateur, entre 1964 et 1992, Texaco a retiré près de 1,7 milliard de barrils de pétrole du sol amazonien. En échange, l’entreprise aura eu un impact socio-environnemental “incalculable” dans ce coin perdu du pays, terme par lequel l´avocat Pablo Fajardo definit les effets colatéraux de l´extraction. Pour maximiser les profits, l´entreprise a préféré ne pas suivre les paramètres de protection environnementale en vigueur à l´époque. Par exemple, Texaco ne réinjectait pas dans le sol les liquides toxiques issus du processus de perforation, connus comme “eau de formation”, une substance blanchâtre qui sort des profondeurs de la terre en exhalant une forte odeur rappelant celle du dissolvant. « De plus, raconte Fajardo, pour chaque puits qu´elle creusait, la compagnie a construit deux, trois ou quatre piscines. Elle y jetait tout type de résidus. Texaco a creusé plus ou moins mille piscines et déversé 18 milliards de galons3 d´eau de formation directement dans les rivières. Des centaines d´écoulements n´ont jamais été bouchés. Elle arrosait aussi les routes avec du pétrole pour diminuer la poussière. Avec la pluie, le combustible terminait évidemment dans les cours d´eau. Je dis tout cela parce que je l´ai vu de mes propres yeux. »

La lutte bloquée en justice depuis 1993 a commencé aux États-Unis pour arriver dix ans plus tard en Équateur. Elle a déjà produit des centaines de kilos d´expertises, de rapports, d´études techniques, impliquant des milliers de personnes et 27 milliards de dollars d´indemnisations, et concerne exclusivement la réparation des dommages à l´environnement. Aucun particulier ne touchera un centime de la fortune que Texaco devra rembourser en cas de défaite en justice.

Cependant, l´avocat sait, et le sérieux de son regard parle de lui-même, que la majeure partie des préjudices est simplement irréparable. Pablo compte dans la catégorie “irrécupérable” les 2.000 cas de cancer au-dessus de la moyenne nationale qui ont été enregistrés ces 15 dernières années dans la zone, le plus haut taux de mortalité infantile du pays, les continuels avortements spontanés, la permanente contamination des sédiments des rivières par des métaux lourds et autres résidus toxiques, les piscines de pétrole qui gisent sous terre ou à ciel ouvert depuis 30 ans, l´extinction des espèces animales et végétales, et la disparition d´au moins deux groupes d´Indiens – tetetes et sansahuaris – qui habitaient originellement la zone.

« Comment peut-on calculer le prix d´une vie ? Comment peut-on exiger une indemnisation pour l´extinction de toute une population indienne ? On ne peut pas. Les dommages sont réellement irréparables. Malgré cela, voyons ce qui peut au moins être fait. Si nous nettoyons les résidus toxiques qui demeurent dans les piscines, dans les sédiments des rivières, des marais, si nous nettoyons la nature des éléments qui continuent de tuer les gens, c´est déjà beaucoup. Ainsi on pourra rendre un peu de la dignité qui a été volée à la population locale », explique l´avocat.

Pendant que la justice travaille, Manuel Salinas attend. Attendre, d´ailleurs, c´est ce qu´il a le mieux appris à faire pendant les 23 ans durant lesquels il a vécu au-dessus d´une piscine de pétrole. Quand il est arrivé à Shushufíndi, fuyant la sécheresse qui avait tari les plantations du sud du pays, Salinas s´étonna d´une affaire irrécusable pour tout paysan : une bonne ferme à un bon prix. C´était exactement ce qu´il cherchait. L´agriculteur, qui voulait et avait besoin de travailler, n´hésita pas une seconde. Il emprunta l´argent à son frère et remit le terrain en état. Immédiatement, il commença à construire une petite maison en bois. Il sema. Manioc, banane, maïs, café, tout poussait, avec difficulté, « la terre est faible », mais ça poussait.

Manuel a toujours su que son morceau de terre, avant d´avoir été recouvert de beaucoup de terre par Texaco, avait été une piscine de pétrole. Tout le monde le disait. Quand il était arrivé, cependant, il n´avait pas observé de vestiges du lagon noir. Ce que les yeux ne voient pas, le coeur ne le sent pas. Le corps, lui, souffrirait des effets colatéraux, mais plus tard. Sur le moment, le problème semblait résolu, et la vie continuait.

« Bien sûr que tout ce qui sort de cette terre est contaminé », dit-il, d´une douce voix, presque rauque, qui coule par-dessous ses moustaches grisonnantes septuagénaires.

Pourtant, l´agriculteur n´a jamais cessé de manger les produits qui poussaient dans sa ferme, même lorsque le pétrole commença à crever sa sépulture de terre et, comme par miracle, à rejaillir du sol. « C´est la pauvreté et la nécessité qui nous meut. On fait confiance à Dieu, pour qu´il nous aide et nous favorise. En fin de compte, je suis encore vivant. » C´est comme cela qu´il justifie, dans un mélange de soulagement et de plainte, la contamination que la faim a imposé à son organisme.

Don Salinas est presque mort de gastrite après la rupture de la tubulation souterraine du puits 38 (creusé par Texaco dans les années soixante, mais aujourd´hui opéré par l´entreprise publique Petroecuador) à quelques mètres de son terrain. À côté, l´agriculteur gardait un réservoir d´eau, qu´il utilisait pour boire, se laver et cuisiner, parce qu´il n´y a pas de système sanitaire de base dans la zone rurale de Shushufíndi. Après l´incident, Salinas n´avait plus d´eau. Les liquides toxiques du puits s´infiltrèrent dans la nappe phréatique qui fournissait son réservoir et sa famille. Sauf que Manuel ne fut informé de la fuite qu´après un certain temps. Quand les techniciens de l´entreprise vinrent informer que le conduit avait explosé juste à côté et qu´ils ne pouvaient plus rien faire, l´estomac du paysan criait déjà de douleur. Si ses amis ne l´avaient pas emmené suivre un traitement spécialisé à Quito, Salinas serait déjà mort.

Avant l’appareil digestif, c´est sa peau qui avait réagi au contact quotidien de la contamination. A mesure qu’il évoque ses maladies, Salinas remonte les manches de sa chemise et nous montre les petits grains roses qui se mélangent aux rides du soleil et de l´âge. Il ne tarde pas à défaire les boutons pour prouver qu´ils s´étendent sur la poitrine, le ventre et le dos. Après avoir visité la piscine de pétrole qui s´ouvrit dans le jardin de sa maison, une éruption cutanée surgit immédiatement sur ses mollets. La démengeaison en cadeau. Et il suffit d´une demie heure de marche, pas plus, en claquettes à travers la plantation toxique de Don Salinas, au milieu des vieux barils de Texaco et les pieds de café survivants. Le pied s´enfonce. La terre est molle, mais pas parce qu´elle est fertile. « Hé, venez ici », appelle Don Salinas. Nous nous approchons. Manuel est immobile. Il tient dans ses mains une branche d´arbre longue et fine. « Regardez », dit-il, alors qu´il enfonce, sans le moindre effrot, les deux mètres de bois directement dans le sol. Je comprends alors que Don Salinas et toute sa propriété naviguent, depuis plus de deux décennies, sur des milliers de litres d´un mélange de pétrole, de vase, d´eau de formation et autres rejets. Tous toxiques. C´est exactement ici qu´ont poussé les aliments qui remplirent son assiette pendant tant d´années.

Dans le contexte shushufindense, cependant, Manuel peut être considéré comme chanceux. Il y a un peu plus de deux ans, lorsqu´il venait d´être élu, Rafael Correa, le président de l´Équateur, rendit visite à la ferme de Salinas. Il vu de près la piscine qui était apparue dans le jardin – de si près que l´un de ses conseillers glissa presque à l´intérieur de la noirceur – et il vérifia aussi la qualité de l´eau utilisée par la famille de l´agriculteur. Avec l´aide d´un assistant, le président tira un seau du fond du réservoir, y mouilla ses mains et les approcha de son nez.

« Ça sent la gazoline », dit-il.

Ça ne mit pas très longtemps pour que le gouvernement donne à Don Salinas un nouvel endroit où habiter. Le pouvoir public cèda le terrain, mais le paysan dût réunir ses petites économies et financer la construction de sa maison. Aujourd´hui il vit loin de la piscine de pétrole et de l´intoxication quotidienne, reçoit de l´eau au robinet de la cuisine et se protège de la pluie par des murs en briques. Mais il n´est pas satisfait, principalement parce que dans son nouveau jardin, il ne peut cultiver ni maïs ni manioc, ce qui allégeait la facture en fin de mois. « La contamination s´est étendue à la ville entière, à toute la région. Nous n´avons pas vraiment d’endroit où nous échapper. S´ils me donnent une indemnisation, j´achèterai un morceau de terre ailleurs, où je pourrai planter. Si je le pouvais, je partirais de Shushufíndi, sans le moindre doute. »

Bien que méconnu au Brésil et dans le monde entier, le désastre environnemental provoqué par Texaco, avec l’aide des gouvernements successifs, en Amazonie équatorienne est comparable aux accidents ayant eu lieu en Alaska avec le pétrolier Exxon-Valdez, en 1989, et sur la côte espagnole, avec l´embarcation Prestige, en 2002. Sauf que, au lieu d´avoir fui dans la mer, le pétrole s´est répandu dans la forêt, habitat non seulement d´animaux, mais aussi de personnes. Des organisations non gouvernementales, comme la britannique Oxfam, classent la contamination pétrolifère en Équateur comme la « catastrophe environnementale du siècle. » L´entreprise étasunienne, cependant, ne désiste pas de sa défense. Et elle a adopté deux tactiques pour influencer la décision du magistrat Juanm Núñez Sanabria, le juge responsable de l´affaire. La première sentence sur la querelle millionnaire doit être prononcée en fin d´année, avec droit d´appel pour chacune des parties.

La cible préférée de Texaco, c´est Pablo, accusé à de multiples reprises de ne chercher que la célébrité et la richesse en salissant l´image de l´entreprise. Il est vrai que l´avocat a atteint un certain niveau de gloire. Grâce à son travail en faveur des communautés, il est connu et reconnu par tous à Shushufíndi, Lago Ágrio et Sacha, les trois municipalités équatoriennes les plus affectées par la contamination. Il reste tout de même relativement méconnu dans le reste du pays, et ce, malgré le prix qui lui avait été attribué par la chaîne de télévision CNN et la fondation américaine Goldman, et qui lui avait donné droit à un clip vidéo et un discours. L´image préférée des média internationaux pour décrire l´avocat est celle d´un petit David, métis et sous-développé, engagé dans une lutte inégale contre le Goliath impérialiste. Toutefois, la richesse est loin des portes de Pablo. L´avocat continue d’habiter dans une petite maison de deux chambres à Lago Ágrio. De là-bas, il prend le bus pour Quito au moins trois fois par mois. Il partage sa vie entre deux bureaux, un à la capitale et un en Amazonie, tous deux bondés d´enveloppes en papier kraft et de tomes bien plus gros que la Bible, autant de preuves soutenant sa défense. Huit heures de bus séparent les deux villes. Pablo profite du « temps libre » dont il dispose sur le trajet pour apprendre l´anglais de la même façon qu´il apprit le droit : seul. Et si pour obtenir son diplôme il a bénéficié d´une bourse d´études de l´église, il compte aujourd´hui avec l´aide d´un discman.

Une autre stratégie de Texaco consiste à inclure l´état équatorien comme accusé dans le procès judiciaire. Selon une information de la compagnie, « les principaux problèmes de santé de la région ne sont pas le résultat des opérations pétrolières, mais bien du manque d´infrastructures pour le traitement de l´eau, le système sanitaire de base et l´accès insuffisant de la population aux soins médicaux. » Pour cela, l´entreprise « repousse fermement l´idée d´endosser la responsabilité de résoudre les problèmes de la région, qui résultent de l´indisposition ou de l´incapacité du gouvernement et de l´entreprise pétrolière nationale à répondre à ses obligations. » A plusieurs reprises, des avocats de Texaco en Équateur ont mis en doute la responsabilité des écoulements et de la construction des piscines de résidus toxiques existants dans les environs. Adolfo Callejas a l´habitude de dire que le pétrole déversé dans la nature ne montre pas le logotype de l´entreprise étasunienne et, comme il est impossible de le dater, on ne peut pas savoir avec exactitude qui est responsable de la tragédie, Texaco ou, plus récemment, Petroecuador. La compagnie allègue également que – sous supervision des autorités équatoriennes – elle a exécuté un programme de récupération environnementale d´une valeur de 40 millions de dollars avant de sortir du pays. « Les travaux ont fait l´objet d´inspections et furent certifiés et approuvés par le gouvernement d´Équateur, qui libéra pleinement et cabalistiquement Texaco de toute plainte ou obligation future. »

Toutefois, un document de caractère « personnel et confidentiel », émis par les bureaux de l´entreprise aux États Unis pour une succursale équatorienne semble être la clé de l’opposition à ces allégations. Le 17 juillet 1972, R.C. Shields écrivit en Floride une lettre à N.E. Crawford à Quito, expliquant les procédures recommandées pour rapporter des incidents environnementaux :

Seuls les évènements importants doivent être communiqués. Un « évènement important » est défini comme celui qui attire l´attention des moyens de communication ou des autorités ou qui, selon votre opinion, mérite d´être rapporté. Aucun rapport ne doit être élaboré sur la base de données. Tous les communiqués précédents doivent être détruits.

Pour cela, et pour d´autres raisons, Pablo ne considère pas la possibilité de défaite devant les tribunaux. « 55 inspections judiciaires ont été effectuées et chacune d´entre elles montre qu´il y eu une contamination par hydrocarbonates, que cela a porté préjudice à la santé humaine, que les peuples indiens ont été affectés, que Texaco a pollué intentionnellement, que les dommages ont été provoqués pour des raisons économiques et aussi probablement par racisme. » Pablo a tout sur le bout de la langue. « Ce serait pervers de donner gain de cause à l´entreprise. »

Pas très loin de Shushufíndi, mais pas tout près non plus, on trouve une étendue d’un million d´hectares connue comme Parc National de Yasuní. Là, le gouvernement équatorien a récemment trouvé de nouveaux gisements de pétrole. Nouveaux et importants. On estime que 20% des réserves du pays se cachent sous la forêt encore vierge. Ce sont plus de 850 millions de barils qui pourraient permettre au secteur pétrolier équatorien de survivre, secteur en voie d´extinction dû au tarissement des vieux puits en opération depuis les années soixante-dix. Pour exploiter le Yasuní, il sera cependant nécessaire d´abattre une partie de la forêt. Cela signifierait attenter à un des patrimoines mondiaux de la biosphère, titre que l´Unesco concéda à ce lieu parce qu´y ont survécu au moins 165 espèces de mammifères, 110 d´amphibiens, 72 de reptiles, 630 d´oiseaux, 1130 d´arbres et deux groupes indiens en isolement volontaire, les tagaeris et les taromenanis, qui ont décidé de s´interner dans la jungle pour éviter le contact avec le monde occidental.

Pour préserver ce territoire intact du pays, et certainement en ayant le mauvais exemple de Texaco en tête, le président Rafael Correa a décidé d´innover. Il s´est engagé à ne pas creuser un seul puits dans le Yasuní s´il recevait, de la part de la communauté internationale, une compensation financière d´au moins 300 millions de dollars annuels pendant une période de dix ans. La somme varie selon le cours du baril de pétrole, mais elle correspond à la moitié de la facturation qui serait réalisée par le pays s´il décidait d´extraire le pétrole de la forêt. C´est le prix de la renonciation. « Ce sera un sacrifice partagé entre l´Équateur et le monde », dit Correa. Mais cela n´a rien à voir avec de la philanthropie.

Toutes les émissions de CO2 qui seraient évitées en laissant le combustible sous terre pourraient être négociées sur le marché du carbone établi par le Protocole de Kyoto ou par un mécanisme similaire devant encore être inventé. L´Équateur vendrait donc des « droits de contamination » aux gouvernements européens, qui à leur tour vendraient aux enchères ces quotas aux entreprises n´atteignant pas les objectifs de réduction des émissions établis par les accords internationaux. Ainsi, les pays développés pourraient maintenir leur rythme de production industrielle et l´Équateur recevrait l´argent qu´il recevrait s´il abattait la forêt pour l´extraction du pétrole. La jungle demeurerait entière, les animaux vivants, et les peuples indigènes loin de la civilisation blanche – l´ordre actuel des choses.

« Le capital international obtenu grâce à la vente des crédits de carbone serait utilisé principalement pour promouvoir un changement dans l´offre et la demande d´énergie du pays, de telle façon que l´économie équatorienne devienne plus durable. Nous voulons développer la génération de l´énergie hydroélectrique, géothermique, éolienne et solaire pour que d´ici à quelques années l´Équateur réduise au maximum sa dépendance au pétrole », explique Carlos Larrea, conseiller technique de l´initiative. – Un autre objectif du projet est d´investir dans le développement humain et social dans les domaines de la préservation, ce qui éviterait aux habitants de détruire la forêt pour survivre.

Un des paris des défenseurs du Yasuní est d´habiliter les communautés indigènes et riveraines à travailler dans l´écotourisme. C´est ainsi que le gouvernement prétend combattre la déforestation et autres activités prédatrices qui, peu à peu, et aussi à cause du manque de contrôle, dégradent les réserves naturelles du pays. C´est exactement cette idée qui suscite la méfiance d´une des plus importantes écologistes de l´Équateur. Esperanza Martínez, de l´ONG Acción Ecológica, ne manque pas d´éloges sur la décision du gouvernement de maintenir la forêt, mais elle ne croit pas que l´initiative représente une rupture avec le modèle de développement adopté par le pays et qui, au fil des années, est le responsable de la silencieuse dégradation environnementale.

« Comme nous n´avons pas encore de modèle alternatif à suivre, ce que nous pouvons faire, c´est freiner l´avancement du développement actuel jusqu´à ce qu´apparaisse une alternative. Dans ce sens, la préservation du Yasuní est une conquête impressionnante. Le parc doit être conservé, mais cela ne signifie pas nécessairement un changement de modèle économique pour le pays. Un Équateur post-pétrolier n´est pas un Équateur d´exploration minière ou de barrages. Pour tout cela, on peut affirmer, sans exagérer, que l´Équateur passe actuellement par un des moments les plus importants de son histoire. »

Il y a un (plus tout à fait) nouveau président, une nouvelle constitution et un chemin assez incertain vers l´avant. Rafael Correa est une personne assez jeune. Il a 46 ans et n´a jamais vraiment été lié à la politique. Avant d´intégrer le Movimento Pátria Altiva e Soberana, parti dont il est aujourd´hui le leader, il n´était qu´un tranquille professeur d´économie dans la plus grande et la plus chère université privée de Quito. Né dans une famille de classe moyenne, il a suivi une éducation religieuse, a fait sa maîtrise en Belgique et son doctorat aux États-Unis. Il ne montre pas l´ombre de lutte sociale du Bolivien Evo Morales ou du Brésilien Luiz Inácio Lula da Silva. Il n´a jamais été poursuivi par aucune dictature ou été leader d´un syndicat. De telle manière que plus d´une fois Hugo Chavez a utilisé le terme Chicago boy pour faire référence à sa trajectoire personnelle. Malgré cela, quand il a été élu pour la première fois en 2006, Rafael Correa affichait un sourire sur son visage et un projet dans les mains : rompre avec les traditions politiques équatoriennes.

« C´est un individu différent de tous les présidents précédents. Il a surgit de secteurs non traditionnels de la politique, mais avec une vision progressiste jamais vue au gouvernement. Correa vient d´ailleurs. Il n´a jamais rien eu à voir avec la politique. C´est comme s´il était entré par la fenêtre », explique le journaliste Kintto Lucas, auteur de Rafael Correa, un extraño en Carondelet4 (Editora Planeta).

Carondelet est le nom du palais qui abrite le gouvernement équatorien. Là, ces dernières douze années, se sont succédé sept présidents dans un triumvirat militaire. La crise institutionnelle a commencé en 1996. À l´époque, Abdalá Bucaram, un descendant libanais qui affichait fièrement une moustache à la Adolf Hitler, gouvernait le pays. Il aimait dire qu´il avait les testicules plus grosses que ceux de ces adversaires ou que le sperme de ses opposants était aqueux. Son mandat ne dura pas longtemps. Un peu plus de six mois, le temps suffisant pour commettre des bizarreries mémorables, comme déclarer héros nationaux certaines personnes qui avaient contracté le sida dans une clinique privée, ou rendre hommage à une Équatorienne résidant aux États Unis parce qu´elle avait été relaxée après avoir coupé le pénis de son mari. Comme si cela ne suffisait pas, Bucaram fut impliqué dans des dénonciations de corruption. La société, bien sûr, réagit. D´intenses protestations obligèrent le Congrès à le destituer. La principale justification des parlementaires pour en finir avec le gouvernement naissant de Bucaram fut la supposée « incapacité mentale » du président à diriger le pays.

Le symbole le plus fort de son excentricité a surement été son intention déclarée à amener Diego Armando Maradona au Barcelona de Guayaquil pour y défendre les couleurs de l´équipe pour un match seulement. L´embauche du joueur argentin n´aurait pas couté moins d´un million de dollars, payé, évidemment, avec l´argent public.

La chute d’Abdalá “El Loco” Bucaram5 jeta l´Équateur dans un va-et-vient présidentiel actionné à tour de rôle par les Forces Armées, le peuple insatisfait ou le mécontentement général. Le dernier à tomber fut Lucio Gutiérrez, qui ne supporta pas la pression d´un Palais de Carondelet assiégé par les manifestants et désista dans le courant de 2005.

Rafael Correa, a réussi, au moins pour l´instant, à mettre un frein au processus. Il a aussi réussi à faire approuver une nouvelle constitution qui reconnait une série de droits inédits en Amérique Latine. L´un d´entre eux est la plurinationalité. Depuis son fondement en 1830, et avant, l´Équateur est un état qui abrite plusieurs nationalités. Par essence, ces nationalités possèdent des langues, des économies, des formes de justice, des religions, des traditions et des cultures différentes. Aujourd´hui, au moins sur le papier, le pays reconnait la validité et la richesse de chacune d´entre elles. Et elles sont nombreuses, qu´elles soient indigènes ou afro-descendantes, blanches ou métisses. Elles sont éparpillées dans la Cordillère des Andes, la forêt amazonienne, le littoral et les îles du Pacifique – les quatre mondes existants sur le territoire équatorien. Le nouveau texte constitutionnel déclare aussi l´environnement comme une entité juridique dont la survie – c´est à dire la conservation – jouie de garanties légales. « La Nature ou Pacha Mama, où se reproduit et se réalise la vie, a le droit d´être respectée intégralement dans l´existence, préservation et régénération de ses cycles de vie, structures, fonctions et processus évolutifs », dit l´article 71. Mais il est évident qu´aucun arbre, jaguatirica6 ou jacaré7 ne fera de manifestation en cas de non-respect de ses droits par le gouvernement.

Pour cela, la Constitution laisse aux hommes la responsabilité de surveiller les écosystèmes et d´exiger du gouvernement qu´il applique la loi. Les droits de la nature sont, en bonne partie, la reconnaissance que, ni le système capitaliste actuel, ni la supposée bonne volonté de l´être humain n´ont été suffisants pour empêcher la destruction de la planète. Au contraire, on pourrait dire qu´ils ont été responsables de la dévastation croissante. Texaco et Shushufindi en sont la preuve.

Enfin, une autre nouveauté de la Constitution équatorienne est le principe de « vivre bien » ou, en quéchua, sumak kawsay. Il s´agit de voir l´homme en harmonie avec lui-même et avec la nature. Cela peut sembler difficile de comprendre, ou trop abstrait pour être appliqué à la vie réelle, mais en vérité, l´idée est assez simple. L´être humain ne réussit à vivre en communion avec la nature que lorsqu´il peut tranquillement boire l´eau d´une rivière (parce qu´il sait qu´elle n´est pas polluée), qu´il ne contracte pas de maladie respiratoire parce qu’il est obligé d´inhaler l´air contaminé, qu´il peut profiter des bois dont toute la biodiversité a été conservée ou qu´il consomme des aliments cultivés sans pesticides et autres produits chimiques agricoles nuisibles à la santé. Le sumak kawsay est une relecture des valeurs indigènes qui, peu à peu, ont été détruites par la civilisation occidentale. Il ne communique pas seulement la possibilité, mais principalement la nécessité de changer les habitudes et attitudes relatives à la nature. Parce que c’est de là que nous venons et que nos vies en dépendent.

La présence des concepts fondamentaux de la pensé aborigène dans la nouvelle constitution équatorienne est le résultat d´une lutte sociale permanente dont l´épisode inaugural fut le recensement indigène de 1990. À cette occasion, une bonne partie du pays fut paralysé quelques jours par des marches, des manifestations, des grèves et des occupations réalisées par des Indiens de différentes nationalités de l´Équateur. En avant de la rébellion, on trouvait les communautés établies dans les Andes. Ce sont elles qui ont marché jusqu´à Quito pour exiger du gouvernement qu´il réponde aux traditionnelles demandes de réforme agraire et d´accès à la terre, mais pas seulement.

« Comme la pensé coloniale, le racisme et la discrimination contre les peuples originaires existaient encore, le recensement prétendait rendre la question indigène visible pour la société », explique Luís Macas, intellectuel et activiste quéchua qui mena la rébellion de 1990. « Nous avons mis les problèmes de l´accès aux terres et à la démocratie sous le feu des projecteurs, mais nous cherchions principalement la convocation d´une assemblée constituante qui permette de réformer l´Etat et de reconnaitre le caractère plurinational de l´Équateur. »

La base matérielle à partir de laquelle les peuples indigènes peuvent y pratiquer leurs cultures est le territoire. Ce n´est pas pour rien que le processus d´appauvrissement et la misère auxquels les habitants originaires de l´Amérique furent soumis commença avec l´arrivée des Espagnols et l´instauration de modèles agricoles seigneuriaux tournés vers l´exportation. Mita, concertaje, obraje, huasipungo, il y eut beaucoup de règles d´esclavage que les conquérants européens, d´abord, et l´élite créole, ensuite, inventèrent pour soumettre et explorer l´indigène équatorien.

Le chantier colonial débarqua en 1526 sur les terres connues plus tard comme l´Audience de Quito et, avec l´indépendance, comme Équateur. En vérité, avant d´être baptisé du nom de la ligne imaginaire qui divise le monde, l´Équateur s´appelait Département du Sud. C´était l´un des trois territoires de la Grande Colombie, un immense pays formé par ce que l´on appelle aujourd´hui Venezuela, Colombie et Équateur et dont l´union était le plus grand rêve du libérateur Simón Bolívar.

Luís Macas considère que le processus colonisateur qui débuta il y a 500 ans avec Francisco Pizarro n´a pas encore terminé. De nombreuses rébellions eurent lieu dans les domaines fermiers et les villes depuis lors, mais c´est seulement en 1990 que les indigènes se firent entendre réellement pour la première fois. Et ils profitèrent de l´opportunité pour commencer à fortement remettre en question les valeurs défendues par la civilisation occidentale, qui commençait alors à s´exprimer par des politiques néolibérales et des privatisations.

Les Indiens furent les grands acteurs politiques et sociaux équatoriens des années 90. Et, profitant de l´appel populaire qu´ils gagnèrent pendant le recensement, ils fondèrent le Pachakutik, un parti à travers lequel ils commencèrent à disputer les élections. Sa force, cependant, a toujours été plus présente dans les communautés rurales, le travail collectif, le respect de la nature et la culture des fruits et légumes qui alimentent l´Équateur, qu´au Parlement. Les valeurs indigènes, qui pénétrèrent les rues de Quito pendant les années 90, contribuèrent en bonne partie à la chute de trois présidents en moins de dix ans. Ama quilla, ama shua, ama llulla (ne pas mentir, ne pas voler, ne pas chômer) furent pour un moment les contributions politiques du mouvement indigène qui se propagèrent dans la société et qui, pour le bien et pour le mal, donnèrent place au cycle d´instabilité politique et institutionnelle qui débuta en 1996.

Le changement, toutefois, semble venir au compte-goutte. D´ailleurs, il est très compliqué de parler de changement dans un pays où chaque citoyen a dans sa manche la solution aux problèmes nationaux. Ce n´est pas que les Équatoriens soient un peuple politisé, mais ils aiment parler de politique. Rafael Correa, par exemple, bénéficie de l´appui de la majorité, mais il est encore loin de faire l´unanimité. Lors des dernières élections, en avril, il a obtenu 51% des votes. Lucio Gutiérrez, qui, il y a quatre ans, a utilisé un hélicoptère pour fuir du pays et d´une foule en délire, avait obtenu 30%. Correa a gagné au premier tour et a encore quatre ans devant lui, mais beaucoup bavent de rage quand il commence à parler de son gouvernement. À chaque fois que le président fait un discours ou défile aux côté d’Hugo Chávez, par exemple, quelqu´un, dans les quartiers les plus aisés de Quito ou de Guayaquil, perd le sommeil ou entre dans une discussion. Si le gouvernement va à l´encontre des profits abusifs d´une compagnie transnationale, alors… Les journaux et la télé sont les plus grands adversaires politiques du président. Ils verbalisent et transmettent tous les jours à 14 millions d´Équatoriens les valeurs d´une opposition qui a été défaite lors des six consultations populaires, élections et référendums compris, réalisées durant les trois dernières années. Cependant, le président possède également des opposants à gauche. A commencer par le mouvement indigène et écologiste, qui depuis longtemps lutte pour un vrai cambio8 pour l´Équateur. Et le point névralgique qui sépare le passé du futur est le respect de l´environnement. La seule façon de réellement briser les paradigmes – disent-ils – c´est de changer le modèle de développement.

« Quand nous parlons de « modèle de développement », nous faisons référence à la forme d´accumulation et de distribution du développement. Depuis 1830 et jusqu´à aujourd’hui, nous avons été un pays primaire-exportateur de banane, de café, de cacao et de crevette. Ensuite, nous avons découvert le pétrole. Nous avons essayé de viabiliser l´industrie, mais ce n´a pas été possible », témoigne René Ramirez, secrétaire national de la Planification. « Maintenant nous voulons construire d´autres moyens pour gérer de la richesse. Mais cela ne se fait pas d´un jour à l´autre. »

N´importe qui sait – parce que cela se voit – que l´Équateur n´est pas un pays développé. Non pas parce que les gens n´ont pas d´iPod dans la poche ou d´ordinateur portable dans le sac à dos, mais parce que les taux d´analphabétisme sont si hauts et que les services basiques de santé et d´éducation sont loin d´une bonne partie de la population, parce que le racisme envers les Indiens et les noirs est encore très présent, parce que la société équatorienne est extrêmement inégale et que la délinquance ne fait qu´augmenter. L´argent que l´on tire de la terre – que ce soit des fermes ou des puits de pétrole – ne profite qu´à peu. Shushufíndi, encore une fois, sert de (mauvais) exemple. C´est de là que viennent les réclamations pour un changement profond, structurel qui, s´il dépendait de Rafael Correa, ne surgirait pas avant les vingt prochaines années. Une nouvelle loi d´exploitation minière vient d´être approuvée, et à cause d´elle, des scènes désolatrices pour certaines régions qui devraient être protégées pour leur biodiversité sont à espérer.

« La richesse de ce pays est immense, elle est supérieure à 200 milliards de dollars. Nous allons laisser tout cela intact parce qu´on ne peut pas abattre un arbre ou un oiseau ? », s´est demandé le président lors d´une de ses défenses de l´exploitation minière. « Détruire la jungle peut être immoral, mais renoncer aux ressources qui peuvent tirer un pays du sous-développement, qui peuvent éliminer la misère et la pauvreté de notre patrie est encore plus immoral. »

L´insistance de Rafael Correa a provoqué d´importants découragements dans son gouvernement. Le mouvement indigène est l´un de ceux qui ont dérobé le soutien au président, un soutien qui jusqu´alors était inconditionnel. Alberto Acosta, un des économistes les plus importants du pays aussi. Avant de commencer à critiquer le correisme, il fut ministre de l´Énergie et des Mines et présida l´assemblée qui a écrit la nouvelle constitution. Les dissensions, cependant, devinrent de plus en plus insoutenables. De nouveau, la question écologique parla plus fort.

« Nous devons reconnaitre que le pétrole touche à sa fin, qu´il provoque de graves problèmes environnementaux et surtout que nous ne pouvons pas continuer à vivre simplement de ce que la nature nous donne. Pour cela, une proposition post-pétrolière doit être simultanément une proposition post-extractiviste, argumente-t-il. Il ne s´agit pas seulement d´abandonner le pétrole, mais de faire que l´exploitation contaminatrice des ressources naturelles ne soit plus la base de notre développement, ou mieux, de la croissance économique, parce que l´extractivisme n´a jamais géré de développement. »

La loi minière ouvre les portes à l´extraction de grande échelle et à ciel ouvert. Les cibles sont les gisements d´or, d´argent, de cuivre et de tout ce qui pourrait être trouvé dans le sous-sol équatorien. Qui a déjà vu des photos de la Serra Pelada9 à l´apogée de l´exploitation aurifère ou des régions minières du Chili et de la Bolivie peut imaginer les conséquences de cela pour la réserve florestale, pour les rivières et pour la population locale. Shushufíndi a servi d´alerte pour ne pas toucher au pétrole de Yasuní, mais il semble que n´ait pas été suffisant pour contenir les aspirations du gouvernement face à l’éclat des métaux précieux.

Malgré cela, Rafael Correa est convaincu que son socialisme du XXIè siècle est l´alternative. Et, quand j´eus l´opportunité de questionner son gauchisme, lors d´un entretien collectif obtenu un jour après sa réélection, le président n´a pas hésité à se défendre à l´aide d´exemple du passé.

« Si l´on soutient l´exploitation minière, on est de droite, donc Che Guevara était de droite et Fidel Castro est de droite, parce qu´un des principaux produits d´exportation de Cuba est le zinc, qui, de plus, est exploité en mines à ciel ouvert. La Chine aussi serait un pays capitaliste puisqu´elle a déjà beaucoup de mines. L´Union Soviétique avait aussi l´exploitation minière… ».

Je me rappelle alors de Melânia, de sa casquette jaune délavé presque blanche, de ses 40 et quelques années, de ses cinq avortements et de sa maison en bois, depuis la fenêtre de laquelle on peut contempler un puits de pétrole et une tour d´incinération perpétuelle de gaz. Je me rappelle qu´à côté elle cultive, avec l´aide de ses trois filles qui ont réussi à naitre, un jardin de cacao, de maïs et de manioc, et que quelques poules et quelques porcs se promène dans le potager sans se préoccuper de rien. Je me rappelle qu´un jour tout n´était qu´une piscine de pétrole, et que tout a été enterré sans aucun traitement. Et je me rappelle de la réponse qu´elle avait donnée, platement, à la dernière question de notre entretien, après avoir discuté des bonheurs et des malheurs d´habiter là.

– Y a-til autre chose que vous voudriez dire, Melânia ?

– Non… – rires. – Je n´ai rien à dire.

C´est comme si la parole avait perdu son pouvoir dans le désespoir des discours vides. (cc)

notes

1 Mot d´origine tupi, tribu brésilienne, désignant de manière générale les enfants indigènes.
2
Habitants de Shushufindi.
3
Près de 80 milliards de litres.
4 Rafael Correa, un étranger à Carondelet
5 Abdala “Le Fou” Bucaram.
6 Carnivore sauvage de la famille des félidés, aussi connu sous le nom de maracajá, vivant en Amérique, depuis le nord du Mexique jusqu´à la Bolivie et le Brésil.
7 Caïman sud-américain.
8 Changement.
9 Serra Pelada est une région de l´État du Pará (nord du Brésil) qui devint célèbre durant les années 80 à cause d´une ruée vers l´or moderne car la plus grande mine à ciel ouvert y avait été ouverte.

desfalcado

13/01/2010 § Deixe um comentário

O Equador acaba de perder seu ministro de Relações Exteriores. Fánder Falconí renunciou ao cargo neste 12 de janeiro depois que o presidente Rafael Correa desqualificou, sem citar nomes, os resultados até agora obtidos pela comissão encarregada de materializar a Iniciativa Yasuní-ITT.

A Iniciativa Yasuní-ITT é um projeto bastante ambicioso lançado pelo governo equatoriano em 2007. Seu objetivo é manter debaixo da terra uma significativa reserva petrolífera encontrada no Parque Nacional Yasuní, mais exatamente numa zona limitada pelos rios Ishpingo, Tambococha e Tiputini — daí a sigla ITT. A região, localizada na Amazônia, foi declarada patrimônio da biosfera pela UNESCO e concentra uma diversidade animal e vegetal exuberante, além de abrigar dois povos indígenas em isolamento voluntário.

O Equador mais do que nenhum outro país sabe que a exploração petrolífera destrói a floresta. Basta lembrar o caso de Shushufindi, onde a extração trouxe piscinas tóxicas, rios contaminados, baixos índices de desenvolvimento humano, taxas de câncer acima da média nacional e violência para além do imaginável para uma cidade de apenas 18 mil habitantes. [ver passado negro] Por isso apostou-se na ideia de substituir os poços por um mecanismo financeiro que pega carona no Protocolo de Kyoto para angariar os fundos necessários para o desenvolvimento do país sem derrubar uma árvore sequer.

A Iniciativa consiste, pois, em deixar os 850 milhões de barris debaixo da floresta e, em troca, negociar no mercado internacional de carbono os gases estufa que deixarão de ser emitidos pela renúncia em explorar as reservas. Fazendo os cálculos, o Equador faturaria cerca de 6 bilhões de dólares caso extraísse e vendesse o petróleo do Yasuní-ITT. Para deixá-lo como está e preservar esse patrimônio natural amazônico, o governo pediu aos países desenvolvidos pouco mais da metade desse valor: 3,5 bilhões de dólares. [ver una huella verde sobre el petróleo] E ordenou que uma comissão iniciasse as negociações. Fánder Falconí, então ministro das Relações Exteriores, seria o responsável por supervisionar todo o processo.

Apesar de ter sido lançada em 2007, a Iniciativa Yasuní-ITT só decolou em maio de 2009, que foi quando o Equador finalizou a proposta a ser apresentada aos países europeus e aos Estados Unidos. De lá pra cá, a comissão conseguiu angariar 1,7 bilhões de dólares — pouco menos da metade — entre contribuições da Alemanha, Espanha, Bélgica, França e Suécia. Conforme estabelece o plano, esse dinheiro não irá diretamente para o governo equatoriano, mas sim para uma comissão internacional estabelecida no seio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que impediria um eventual mau uso das verbas ambientais.

O problema todo radica nas atribuições dessa comissão: os países doadores querem ter a última palavra sobre como o Equador utilizará o dinheiro. Rafael Correa não aceitou tal nível de ingerência e foi ao ataque.

“Saben qué señores, vayan a mandar a su casa, cambien su donación en centavitos y pónganse en las orejas porque nosotros no vamos a recibir órdenes de nadie”, disse o presidente em seu programa de rádio. “Entiendan que los que más sacrificios estamos haciendo somos los ciudadanos de Ecuador. En cualquier parte del mundo hubieran explotado el petróleo”, continuou o mandatário. “Estamos hartos de que nos traten como colonia, de que nos traten como inferiores.”

Não é difícil entender a irritação de Rafael Correa. Poucos países do mundo, mesmo em tempos de crise ambiental e aquecimento global, deixariam de explorar uma jazida do tamanho da de Yasuní apenas para preservar a floresta. Vale lembrar que o petróleo que se esconde debaixo do parque corresponde a 20 por cento de toda a reserva petrolífera equatoriana — e que o país enfrenta sérios riscos de deixar de ser um pordutor de petróleo devido à inexistência de novos pontos de extração. Além disso, ao estimular a inciativa, o Equador deixaria de arrecadar 3 bilhões de dólares e de gerar uma série de empregos na estatal Petroecuador.

Ou seja: o embargo às jazidas do ITT é a primeira política correísta que está em total consonância com a nova Constituição, que reconhece direitos à natureza e prega uma nova relação, não destrutiva, com os ecossistemas. É também o primeiro projeto governamental em todo o mundo que reconhece os danos duplicados da indústria petrolífera: depredação do meio ambiente seguida de emissão de CO2. Como se não bastasse, é o motor do novo modelo de desenvolvimento que se almeja para o Equador e que descansa sobre os princípios do bom-viver. [ver el biodesarrollismo ecuatoriano]

Por isso, Correa classificou a postura dos países desenvolvidos com  palavras tão duras. “Es vergonsozo”, sentenciou. Foi precisamente esse termo — vergonhoso — que desagradou o ministro de Relações Exteriores. Fánder Falconí interpretou o adjetivo como uma desqualificação ao trabalho das pessoas envolvidas na Iniciativa Yasuní-ITT, entre as quais se encontra.

“Una negociación vergonsoza, como manifestó Correa en su oportunidad, no sólo afecta a la dignidad de personas completamente al azar”, disse o chanceler. “Es absolutamente inaceptable.”

Junto com Fánder, também pediu demissão o empresário Roque Sevilla, presidente da Iniciativa, que agora ficou órfã de dois de seus maiores entusiastas. Mesmo assim, Rafael Correa pressionou os países desenvolvidos a complementarem as doações até junho. Caso contrário, ameaçou, não terá alternativas a não ser explorar as reservas do Yasuní-ITT para conseguir o dinheiro que precisa para governar.

“La Iniciativa Yasuní merece un compromiso mucho más explícito que la fijación de un plazo perentorio de seis meses para acopiar los recursos financieros requeridos. La trascendencia de la Iniciativa es que, en su esencia, propone un cambio de forma de vida”, lamentou o ministro demissionário.

Fánder Falconí é a mais nova figura de peso dentro da esquerda equatoriana a deixar o governo da Revolução Cidadã. Antes dele, em 2008, o economista Alberto Acosta, que tinha ocupado o Ministério de Energia e Minas e liderado a Assembleia Constituinte durante o debate da nova Carta, já tinha rompido com Rafael Correa, também por questões ambientais, entre outras. –tadeu breda (cc)

los dilemas de una constitución posmaterialista

23/10/2009 § 1 comentário

El gobierno no puede dejar de explotar las riquezas minerales del país si quiere dar condiciones de vida dignas a la población, sostiene el responsable del Plan Nacional de Desarrollo (PND) ecuatoriano. Ramírez reconoce que los movimientos sociales tienen razón cuando exigen que se abandone el modelo extractivista, tal como lo determina la avanzada Constitución nacional, pero dice que eso no se puede hacer de la noche a la mañana.

Desde enero pasado, cuando se aprobó una nueva ley de minería, el presidente Rafael Correa enfrenta la oposición de sectores de la izquierda que hasta entonces eran sus más fuertes aliados políticos (véase Brecha, 9-X-09). Entre ellos están el movimiento indígena, los ecologistas y una parte del campesinado, además de grupos urbanos que han absorbido los valores de la filosofía ancestral.

En líneas generales, la legislación minera abre las puertas a la extracción de oro, plata y cobre a gran escala. Eso quiere decir minas a cielo abierto, que a su vez significan la tala de grandes extensiones de selva.

En setiembre, tras la aprobación de otra ley, la de aguas, la Confederación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador (Conaie) decidió organizar un nuevo levantamiento. Fue la primera vez que la Conaie se movilizó con fuerza contra las políticas de Correa. Ya antes, en abril, a raíz de la ley minera la confederación no había respaldado la reelección del presidente, al considerar que estaba violentando los tres principios básicos (derechos de la naturaleza, plurinacionalidad y buen vivir) de la Constitución que el propio Ejecutivo había impulsado.

El gobierno de la revolución ciudadana se debate entre asegurar el cumplimiento de una de las constituciones más avanzadas de América Latina, sobre todo en materia ambiental, y el imperativo de generar crecimiento económico para combatir la pobreza y dar mejores condiciones de vida a los ecuatorianos.

René Ramírez, titular de la Secretaría Nacional de Planificación y Desarrollo, dice en esta entrevista que un cambio de modelo de desarrollo no se hace en un abrir y cerrar de ojos, y que tiene costos. La Constitución y los movimientos sociales, conducidos por los indígenas, exigen un cambio efectivo, pero las condiciones económicas del país, justifica Ramírez, impiden una transformación radical en este momento.

—¿En qué consiste este Plan Nacional de Desarrollo?

—Tiene características que lo hacen diferente de otros. El anterior, el del presidente Sixto Durán Ballén, apuntaba al desmontaje del Estado y la articulación del libre comercio. El actual está muy imbricado con el programa de gobierno, además de haber sido uno de los insumos básicos para la Constitución. Entre el pnd, el plan de gobierno y la Constitución debe haber mucha coherencia de principios, políticas y lineamientos.

Como parte de la actualización del pnd, tenemos tres innovaciones importantes. Una es la estrategia de desarrollo de largo plazo, de ahora a 2025; la segunda es llevar la acción a los territorios, principalmente la acción pública y de inversión; la tercera es que lo ligamos al presupuesto plurianual para poner por delante la planificación.

—¿Cuál es la ideología que informa al pnd?

—El presidente Rafael Correa ha denominado esta ideología como la del socialismo del siglo xxi. El principal objetivo del pnd tiene que ver con la igualdad. Antes teníamos un debate entre eficiencia y redistribución. Nosotros ponemos el énfasis en la redistribución. Podemos hablar de cinco justicias: la socioeconómica; la política, participativa o democrática; la trasnacional; la intergeneracional y la justicia como imparcialidad. Eso resume cuáles son las perspectivas del gobierno, donde el tema ambiental es muy importante, así como el tema de la construcción de otra democracia, no únicamente representativa, sino mucho más participativa.

—¿El pnd tiene como objetivo cambiar el modelo de desarrollo del país?

—Correcto. Cuando decimos “modelo económico” nos referimos a la forma de acumulación y redistribución del desarrollo. Prácticamente en toda su vida republicana Ecuador ha sido un país primario-exportador de monocultivos: banano, café, cacao y camarón. Después descubrimos el petróleo. Queremos construir otra forma de generación de riqueza, en la cual es importante saber cómo se la distribuye y redistribuye. Ahí radica el cambio.

Aspiramos a una sociedad que podríamos sintetizar como una “biópolis ecoturística”. Una de las principales ventajas comparativas del país es la biodiversidad: en un espacio chiquito tenemos una biodiversidad que no está siendo aprovechada porque con ella no se está generando valor agregado. A través de incentivos a la industria nacional pretendemos ligar la biodiversidad a estas industrias, sobre todo a la producción de conocimiento en el área de lo bio, para que a largo plazo podamos convertirnos en un país terciario-exportador.

En estos cuatro años no vamos a dejar de ser un país primario-exportador. Sería demagógico decirlo. Pero sí vamos a construir el aparataje que permita canalizar en el mediano plazo la construcción de otro modelo económico. Y aquí es importante señalar un tema que está en la Constitución: salir de la economía de mercado hacia la construcción de la economía social y solidaria. Eso pasa fundamentalmente por un tema redistributivo, sobre todo en lo que refiere al proceso radical de democratización de los medios de producción, no únicamente en el campo agrícola. En los próximos cuatro años vamos a apostar a la construcción de una economía que tenga principios totalmente diferentes a los de acumulación, egoísmo y envidia.

A ese primer momento le hemos llamado de “sustitución selectiva de importaciones”, ligado a un fuerte proceso de transformación de la educación superior y transferencia de ciencia y tecnología. La dolarización de 1999 hizo que Ecuador perdiera gran parte de su industria y que ahora seamos consumidores de bienes importados. Tenemos que ir hacia un proceso que busque la protección del empleo, pero no sin articulación con el futuro.
Debemos tener industrias que generen valor agregado. Hemos articulado principalmente con siete industrias que nos permitirían hacer una sustitución, en el mediano plazo, de un 42 por ciento de los bienes importados, en la petroquímica, la industria farmacéutica a través de los genéricos, la industria metalmecánica, del hardware, del software, de los servicios ambientales. Son sectores que en este momento nos permitirían construir una industria nacional, y el Estado va a apostar fuertemente por ellos. Algunas industrias serán públicas, otras binacionales y otras completamente privadas. Queremos dar un salto cualitativo y salir del modelo primario-exportador y extractivista.

—¿Qué papel juega la minería en este nuevo pnd?

—No podemos dejar de ser un país primario-exportador de la noche a la mañana. El objetivo de la nueva estrategia es construir un desarrollo endógeno con inserción en el sistema mundial. Lo fundamental es satisfacer las necesidades básicas del pueblo: salud, educación, vivienda, vestido y trabajo, principalmente. Frente a eso, creemos que la minería juega un papel muy importante. Si es que se hace de una manera ordenada y territorializada –y por eso la planificación–, podemos decir: en zonas altamente sensibles en biodiversidad, hagamos el pacto intergeneracional de no tocarlas. Pero en otras donde es viable hacer la explotación, dado que necesitamos recursos, debemos contar con lo que tenemos en este momento: la agricultura, el petróleo y las minas. Esto se dará de manera transitoria. La minería va a estar colocada principalmente en el sur del país. En las otras regiones no va a existir o va a ser completamente marginal.

Es necesario un pacto. Somos un país pobre. No podemos darnos el lujo de tener riqueza debajo del suelo y a la vez altos niveles de desnutrición y analfabetismo. La minería jugaría, por tanto, un papel intermedio.

—En esta etapa transitoria, ¿cómo adecuar el buen vivir a la continuidad de las políticas extractivistas y la necesidad de desarrollo?

—Primero hay que ver cuál es la definición de buen vivir. Planteamos que el buen vivir pasa, por ejemplo, por la educación. Y el que me diga que no pasa por las cuestiones más básicas, como cambiar el perfil epidemiológico, tampoco está entendiendo qué es.

Lo más básico del buen vivir es tener las condiciones adecuadas de infraestructura, de saneamiento básico, alcantarillado, vivienda, agua potable… Son cuestiones que aún no hemos superado. Entonces, el buen vivir no pasa por extractivismo sí o extractivismo no. Es una falsa dicotomía. El 56 por ciento de la población tiene las necesidades básicas insatisfechas, y el gran problema es que la Constitución, a la vez que es nuestra hoja de ruta, es una Constitución vanguardista y posmaterialista anclada en una realidad que aún no existe. Hay una brecha entre la Constitución y lo que realmente es Ecuador. Entonces, tenemos que moldear la base social que permita construir la sociedad expresada en el pacto de convivencia que llamamos Constitución, pero para eso debemos empezar con lo más mínimo, para luego ir hacia estas cuestiones de la perspectiva posmaterial.

Tú puedes seguir con un modelo extractivista e ir construyendo paulatinamente un modelo que permita salir de ahí. Si no lo hacemos así, la consecución del buen vivir no será viable.

—¿Cómo definiría el modelo de desarrollo que busca el gobierno?

—Es un modelo de desarrollo endógeno. La articulación con el sistema-mundo la vemos desde una perspectiva de cooperación, con una inserción geopolítica inteligente y una integración latinoamericana muy fuerte, pero con un objetivo principal: es un desarrollo para la satisfacción de las necesidades básicas.

—¿Podemos decir entonces que en este momento el gobierno privilegia la satisfacción de las necesidades básicas de la población y no la preservación de la naturaleza?

—El gobierno está apostando a las necesidades básicas, y en ciertos espacios también a la conservación de la naturaleza, aunque no en todos los espacios. La cantidad de puntos de concesiones que ha habido en Ecuador es enorme, y lo hemos revertido. Nosotros teníamos ya por mandato que el ITT* sería explotado hasta este año, pero como se están abriendo puertas, seguimos manteniendo el crudo en tierra. Entonces, se está haciendo un ejercicio doble con una cuestión ética súper complicada. Estamos perdiendo recursos que serían revertidos a personas que están en el espacio de la sobrevivencia. ¿De dónde saco los recursos mientras tanto? ¿De la deuda externa, con el problema de liquidez que existe hoy a nivel mundial? Tenemos que ver cuál será esta forma de acumulación en el mediano y largo plazo. Si construimos esta industria nacional, lo más seguro es que no vamos a necesitar explotar ni siquiera nuevos pozos de petróleo.

Por eso decimos que la estrategia de desarrollo tiene tres fases: la sustitución selectiva de exportaciones; la diversificación de exportaciones; y la tercera, que tiene que ver con la sustitución de exportaciones y la reconversión de la economía. A largo plazo apostamos a que se dé una sustitución de las exportaciones, pero ahora es imposible, no podemos ser utópicos y decir que vamos a dejar de ser un país agrícola. Nuestro proyecto se caería al año siguiente.

—¿Cuál es el Ecuador que el pnd apunta a construir hacia 2025?

—Es una sociedad en la que, como primer punto, las necesidades estén satisfechas. Por otro lado, es la construcción de una economía que sea sostenible en el tiempo, una sociedad que permita el reconocimiento de la plurinacionalidad. En un cuarto punto, sería una sociedad democrática en términos políticos, económicos y sociales. También pensamos en una sociedad mucho más igualitaria, en la cual las distancias sociales no sean indignas, como lo son hoy. Si me preguntas entre necesidad, ambiente y desigualdad, en este momento la apuesta va a ser por un modelo que sea sostenible, pero que sobre todo busque la satisfacción de las necesidades disminuyendo las distancias sociales.

Por eso es un gran problema tener una propuesta posmaterial, cuando realmente la sociedad ecuatoriana está anclada en valores que no son los del socialismo del siglo XXI o de la Constitución. Si no cambiamos esta cultura, no transformamos esta economía y estos valores, la construcción de una sociedad basada en la solidaridad, la reciprocidad, el reconocimiento y la igualdad va a ser inviable.

* El gobierno de Correa propuso en 2007 a la “comunidad internacional” no explotar el petróleo existente en el campo Ishpingo-Tambococha-Tiputini (ITT), ubicado en el Parque Nacional Yasuní, en la Amazonia, una de las zonas de mayor biodiversidad del planeta, a cambio de compensaciones. El dinero recibido sería reinvertido en reforestación, promoción de energía renovable y ayuda social. –tadeu breda (cc)

>> publicado en brecha

Los dilemas de una Constitución posmaterialista

ex-levantamento

07/10/2009 § Deixe um comentário

O mais recente levantamento promovido pela Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) acabou sem alcançar seus principais objetivos. A jornada de lutas iniciada há duas semanas foi organizada para barrar a aprovação da Lei de Águas em discussão na Assembleia Nacional. Também se opunha à Lei de Mineração sancionada pelo governo em janeiro. De acordo com as entidades indígenas, ambas atentam contra os direitos da natureza previstos na constituição de 2008 porque abrem uma brecha legal para a privatização dos recursos hídricos no país e permitem a construção de minas a céu aberto para a extração industrial de ouro, prata e cobre.

As novas leis defendidas pelo presidente Rafael Correa ainda são vistas pelos índios como uma afronta a outro princípio constitucional, a plurinacionalidade, que em teoria permite às comunidades originárias viver de maneira condizente com sua cosmovisão. Na maioria dos casos, as culturas ancestrais se colocam radicalmente contra a degradação do meio ambiente que toda atividade extrativista, seja petroleira ou mineira, acarreta. Tampouco compreendem a lógica mercantil que justifica a apropriação privada de bens naturais, como a água.

As mobilizações que tiveram lugar em pontos isolados dos Andes e da Amazônia equatoriana na semana que passou eram, na realidade, uma tentativa de empurrar o governo para uma posição mais coerente com o discurso revolucionário propagado por Rafael Correa desde a campanha eleitoral de 2006. Na ocasião o presidente prometeu mudança — e continua prometendo.

Indígenas, ecologistas e outros setores da esquerda equatoriana agora lutam para que o mandatário faça jus às promessas e empreenda transformações profundas no país. E uma transformação profunda, acreditam, passa pelo modelo de desenvolvimento. Isso quer dizer que eles aplaudem Rafael Correa por ter abandonado o neoliberalismo, mas não concordam que o sistema econômico escondido sob os slogans da Revolução Cidadã e do socialismo do século XXI sirva para garantir a sustentabilidade ambiental que o Equador necessita.

Na década de noventa a CONAIE foi capaz de frear uma série de medidas governamentais. Os presidentes de então queriam aprofundar as reformas neoliberais no país, que se traduziriam em privatizações, redução de salários no setor público, fim dos subsídios a itens de primeira necessidade, menos investimentos em saúde e educação etc. Os indígenas foram extremamente eficientes em estabelecer alianças com inúmeros setores populares, desde o movimento estudantil a sindicatos petroleiros, e barraram as tentativas mais importantes de ajuste estrutural. De quebra, derrubaram três presidentes.

Hoje, depois da fundação de um partido e de integrar alianças políticas de moral duvidosa, já não possuem a mesma força. O levantamento de 2009 chegou ao fim após a assinatura de um acordo de seis pontos que, apesar de ter custado a vida de um professor shuar chamado Bosco Wizum, na realidade não chega a lugar nenhum — e muito menos garante a aplicação dos princípios constitucionais invocados pelos indígenas no começo das mobilizações. Eis os termos do acordo:

– Se institucionaliza un diálogo permanente. Se trabajará con la agenda propuesta por la Conaie;

– El diálogo se articulará con una comisión  de alto nivel del Gobierno y las comunidades;

– Se fortalecerá la educación intercultural bilingüe y las autoridades serán escogidas a través de concurso de oposición;

– Una comisión especial  analizará  el proyecto de Ley de Agua de la Conaie y el oficial para llevarlo a la Asamblea Nacional;

– La Comisión de la Verdad  investigará la muerte del shuar, Bosco Wizum. Se sumarán dos delegados de la Presidencia de la República y dos de la Conaie;

– Se analizarán las  propuestas de  reforma  para la Ley de Minería. Estos contenidos se formalizarán en  un Decretó Ejecutivo.

Mais uma vitória de Rafael Correa, desta vez não contra os freios da revolução, mas contra os catalisadores da mudança. –tadeu breda (cc)

ps. A revista The Economist publicou uma nota sobre o assunto.

uma morte

01/10/2009 § Deixe um comentário

Bosco Bisuma, um professor bilíngue da etnia shuar, faleceu ontem na Amazônia equatoriana. O jovem indígena participava de um protesto que bloqueou a rodovia que liga as cidades de Puyo e Macas, na província de Morona-Santiago. Foi atingido por um disparo na cabeça e não resistiu.

Bisuma é a primera vítima resultante da repressão policial à jornada de lutas convocada pelas organizações indígenas do Equador no último domingo, 27 de setembro. A história é conhecida: as forças de ordem foram enviadas para dispersar a manifestação e liberar a via. Os manifestantes resistiram, houve confronto e nesse confronto Bisuma acabou recebendo um tiro.

Ainda não se sabe de onde veio a bala. As autoridades — aí incluído o presidente da república– afirmam que os indígenas estavam armados e que a polícia tomou todas as precauções necessárias para evitar uma tragédia. Não foi suficiente para garantir a vida de todos — nem mesmo a integridade física, porque os jornais equatorianos informam que aproximadamente 40 pessoas ficaram feridas no confronto.

Em cadeia nacional de rádio, Rafael Correa lamentou a morte de Bosco Bisuma e disse que está esperando de “braços abertos” as lideranças indígenas para dialogar no Palácio de Carondelet. No entanto, não perdeu a oportunidade de condenar o levantamento e de lembrar aos manifestantes que promover o bloqueio de caminhos vai contra a constituição que eles mesmos ajudaram a aprovar em setembro do ano passado.

Ainda assim, a morte do shuar pareceu sensibilizar o presidente. Se até então Correa dava declarações atestando o fracasso das mobilizações indígenas, agora já mudou o tom. Sem embargo, CONAIE, ECUARUNARI e CONFENIAE, organizações que lideram o levantamento, prometem intensificar as ações. Não admitem a morte de um companheiro e tampouco podem confiar na palavra de um governante que chama ao diálogo em Quito enquanto manda a polícia reprimir com violência uma manifestação na Amazônia.

Os indígenas se opõem à lei de águas que está em discussão na Assembleia Nacional. Também são radicalmente contra a lei de mineração, que já foi aprovada pelo governo no começo do ano. Desde que assumiu a presidência, Rafael Correa tem um hostilizado os índios em todas as vezes que apresentaram demandam divergentes às medidas do governo.

Todos concordam, no entanto, que uma morte já é demais. –tadeu breda (cc)

passado negro

13/09/2009 § 3 Comentários

Uma linha de fogo divide o Equador: o crescimento econômico obtido com a exploração dos recursos naturais jamais se converteu em desenvolvimento. Hoje o país se debate entre o anacronismo extrativista e a criação de um novo modelo que ponha o meio ambiente – e o ser humano – em primeiro lugar

>> publicado na rolling stone

Não soube onde enfiar os olhos quando Melânia acabou de responder à minha última pergunta. E olha que nem tinham sido muitas. Melânia não parece ser do tipo que costuma falar com estranhos, mas não se incomodou quando interrompemos seu trabalho, solicitando uns minutinhos de prosa. Ainda com o facão na mão, um pedaço de ferro oxidado com que podava pés de cacau, sentou-se à sombra de sua casa, entre sabugos de milho, pintinhos cantantes e baldes d’água. O cheiro, na maior parte do tempo, era de terra. As raras bocanadas de vento daquele sábado ensolarado, porém, vinham sempre acompanhadas de uma fragrância química e enjoativa. Era exatamente sobre isso que eu queria conversar.

Melânia Chama é uma agricultora de mais ou menos 40 anos. Não foi a única pessoa que conheci no Equador que não soube me dizer com exatidão a própria idade. Quem mora e tira seu sustento do campo pode muito bem reger toda uma vida entre dia e noite, sol e chuva. Relógio e calendário não têm muita utilidade para quem sabe de cor o cio da terra e sente na pele as mudanças de estação. É o caso de Melânia e, provavelmente, também de suas três filhas, que poderiam ser oito se a mãe já não tivesse passado por cinco abortos espontâneos. Ninguém sabe explicar muito bem por quê esta campesina perdeu tantos bebês em tão pouco tempo. É verdade que certa vez um médico disse que sua estrutura corporal não era das melhores para enfrentar uma gravidez, mas a saúde de suas três filhas, que labutam com ela na roça, prova o contrário. Para Melânia, há outras razões por trás das gestações interrompidas.

“Vivo aqui há mais de 20 anos”, conta. Aqui, no caso, é Shushufindi, município encravado na floresta amazônica, no norte do Equador. Ali habita uma pequena construção de madeira, suspensa do solo por quatro vigas também de madeira para evitar que os animais saiam do matagal para dentro de sua casa. Junto com o marido, Melânia e as filhas tiram o sustento daquilo que conseguem cultivar na propriedade. Hoje é possível ver pés de mandioca, banana e milho, além do cacau, crescendo por ali. Antes da chegada da família Chama, no entanto, tudo era uma imensa piscina de petróleo.

Melânia divide sua história com outros 30 mil agricultores e indígenas que há mais de quatro décadas sofrem com a contaminação do ar, da água, da terra e dos lençóis freáticos no noroeste equatoriano. Shushufindi foi tão degradada pela atividade petrolífera que os moradores do lugar mais chegados ao cosmopolitismo empregam o termo toxic tour para designar o trajeto visitado pelos forasteiros que desejam conhecer pessoalmente as consequências sociais e ambientais de uma tragédia.

Em 1964, o governo do Equador decidiu que estava na hora de reivindicar sua fatia na divisão internacional do petróleo. Era preciso, porém, delegar as tarefas de busca e exploração a uma empresa confiável. O país não tinha nem tecnologia nem experiência no ramo, e a escolha óbvia apontava para a maior e mais importante companhia petroleira da época. No poder estavam os militares. Das mãos de seu nacionalismo, a norte-americana Texaco recebeu uma área de 1,4 milhões de hectares para encontrar o objeto da cobiça oficial. Com o sinal sempre verde das autoridades, a empresa começou a derrubar a mata, construir estradas e instalar os primeiros poços de perfuração.

A população indígena, que habitava o local desde muito antes de existir Texaco ou mesmo Equador, foi ignorada em nome do bem comum. O dinheiro do petróleo era necessário, e os índios simplesmente não entendiam o que estava acontecendo. Na década de 60, poucos falavam o castelhano na Amazônia equatoriana e, em algumas tribos, apenas haviam estabelecido algum tipo contato com o homem branco. As perguntas só poderiam ser respondidas muitos anos depois.

“Conforme a companhia avançava floresta adentro e despejava no meio ambiente os resíduos da prospecção petrolífera, os índios foram sendo desalojados. Tiveram que abandonar suas terras porque já não podiam viver ali”, explica o advogado Pablo Fajardo, que trabalha na defesa das populações afetadas pela atividade da Texaco no Equador.

Pablo chegou de bicicleta para a entrevista que marcamos na sede do Comitê de Direitos Humanos de Shushufindi, um pequeno escritório cedido pela igreja católica onde começou a militância que mais tarde o levaria para a faculdade de Direito. Trazia o filho na garupa, junto com a experiência de quem está envolvido numa das maiores batalhas judiciais da história. No começo da década de 90, quando o processo começou a correr na Corte de Nova York, Fajardo ainda não era advogado. Aprendeu a lidar com a justiça convivendo diariamente com a injustiça que cresce em praticamente todo pedaço de terra amazônico. E não importa se é regada com água da chuva ou petróleo: floresce do mesmo jeito, e se dissemina em cada caso de infecção ou intoxicação que não param de ser registrados no hospital da cidade.

É inevitável sentir um nó na garganta ao olhar para as condições de vida dos shushufindenses. O primeiro que se nota são os oleodutos. Estão espalhados por todos os lugares, na beira dos caminhos, em cima dos rios, no meio dos campos. O bombeio ininterrupto do petróleo se traduz em estridência metálica ao ouvido humano, como se o combustível saísse das profundezas com marretas e golpeasse os canos de dentro para fora, ferro com ferro batendo no compasso da extração. Quanto aos poços de petróleo, é bem fácil vê-los por aí, chupando o sangue da terra. Nem é preciso deixar o perímetro urbano. Espaço de brincadeira da criançada, se espalham entre as casas e fazem parte da vizinhança. E são discretos. A tecnologia reduziu aquelas enormes estruturas pendulares, intrincado mecanismo de balanços e alavancas, a pequenos aparelhos que se assemelham a hidrantes. Cada poço vem sempre acompanhado de uma torre. No alto de cada uma, o tempo todo, queima-se o gás que sai da terra junto com o petróleo e que não é aproveitado economicamente. Por isso é que as noites da cidade misturam a escuridão ponteada de estrelas com os reflexos alaranjados de um incêndio industrial perpétuo, e o horizonte verde dos dias ensolarados é salpicado por pequenos focos incandescentes entre o que sobrou da mata virgem.

Bastou jorrar petróleo pela primeira vez, em 1967, para que o estado equatoriano decidisse apoiar sua economia na extração e venda do combustível em estado bruto. Ainda hoje é assim. Há dois anos, o Equador virou colega da Venezuela, Nigéria, Angola, Irã, Arábia Saudita, Kuwait e outros paraísos petroleiros ao ingressar novamente à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Aproximadamente 40% da receita obtida pela balança comercial do país depende do barro preto e pegajoso que move as engrenagens do mundo. Pelo menos na teoria, o governo necessita dos lucros do petróleo para investir em programas sociais que tirem os equatorianos da pobreza. Por isso, houve júbilo nacional quando se comprovaram a viabilidade das reservas na década de 60. Mas, olhando para Shushufindi, a casa-de-máquinas da economia nacional, ninguém tem dúvidas sobre qual é a verdadeira origem do subdesenvolvimento.

“Há 28 poços petrolíferos funcionando dentro da nossa comunidade. Portanto, deveríamos gozar de todo tipo de serviços, mas sequer possuímos água potável ou saneamento básico”, lamenta Santiago Chiriap, promotor de saúde intercultural no território indígena de Yamanunka, onde vivem cerca de 1400 índios da etnia shuar. A cruzada pessoal de Santiago contra as “mortes repentinas” que começaram a assolar seus vizinhos o levou a investigar a qualidade da água que se bebe por ali. Isso porque as raízes e plantas medicinais que sempre haviam curado com facilidade as dores de barriga de sua gente não surtiam mais efeito. Chiriap, então, pediu ajuda a universidades e ongs de Quito e, depois de três anos de análises laboratoriais, chegou à conclusão de que os indígenas estão ingerindo quantidades consideráveis de chumbo, arsênico e hidrocarbonetos junto com a água. Guarda com ele um calhamaço de papéis com o resultado de todos os testes e mostra para quem quiser ver.

Quem duvida das palavras de Santiago, ou de sua pasta de documentos, pode facilmente procurar o doutor Jorge Herrera no Hospital Municipal de Shushufindi e ouvir praticamente as mesmas palavras: “A água dos nossos rios não está apta para consumo humano devido à contaminação por resíduos oriundos da atividade petroleira”, resume.

Em 28 anos de operações no Equador, entre 1964 e 1992, a Texaco retirou do solo amazônico cerca de 1,7 bilhões de barris de petróleo. Em troca, deixou para este canto esquecido do país um impacto sócio-ambiental “incalculável”, que é como o advogado Pablo Fajardo define os efeitos colaterais da extração. Para maximizar os lucros, a empresa preferiu não seguir os parâmetros de proteção ambiental vigentes na época. A Texaco, por exemplo, não reinjetava no solo os líquidos tóxicos originados no processo de perfuração, conhecidos como “água de formação”, uma substância esbranquiçada que sai das profundezas da terra exalando um cheiro que lembra a solvente. Ademais, conta Fajardo, para cada poço que escavava, a companhia construiu duas, três ou quatro piscinas. Nelas, lançava todo tipo de resíduos.

“A Texaco escavou mais ou menos mil piscinas e despejou 18 bilhões de galões de água de formação diretamente nos rios. Houve centenas de derramamentos que nunca eram remediados. Também regava com petróleo as estradas de terra para reduzir a poeira. Com a chuva, o combustível obviamente ia parar nos cursos d’água”, relata Fajardo. “Vi isso com meus próprios olhos.”

A luta que se trava na justiça desde 1993 – que começou nos Estados Unidos e que dez anos depois veio para o Equador, que já produziu centenas de quilos de perícias, relatórios, estudos técnicos e pareceres e que envolve US$ 27 bilhões em indenizações – é exclusivamente pela reparação dos danos ao meio ambiente. Nenhuma pessoa em particular vai receber um centavo da fortuna que a Texaco terá de desembolsar caso seja derrotada. Entretanto, Fajardo sabe, a maioria dos prejuízos é irreparável. O advogado contabiliza na categoria de “irrecuperáveis” os dois mil casos de câncer acima da média nacional que nos últimos 15 anos foram registrados na região; a maior taxa de mortalidade infantil do país; os contínuos abortos espontâneos; a permanente contaminação dos sedimentos dos rios com metais pesados e outros resíduos tóxicos; as piscinas de petróleo que há 30 anos jazem debaixo da terra ou a céu aberto; a extinção de espécies animais e vegetais; e o desaparecimento de pelo menos dois grupos indígenas – tetetes e sansahuaris – que originalmente habitavam a zona.

“Como você vai calcular o preço de uma vida? Como vai exigir uma indenização pela extinção de toda uma população indígena?”, discursa Fajardo. “Apesar disso, se limpamos os resíduos tóxicos que permanecem nas piscinas, nos sedimentos dos rios e dos pântanos, se limpamos a natureza dos elementos que continuam matando as pessoas, já é muito. Assim se pode devolver um pouco da dignidade que foi roubada da população local.”

Enquanto a justiça trabalha, Manuel Salinas espera. Esperar, aliás, é o que mais soube fazer durante os 23 anos em que viveu sobre uma piscina de petróleo. Quando chegou a Shushufindi fugido de uma seca que esturricou o roçado que tinha no sul do país, ele se deparou com um negócio irrecusável: uma boa chácara a um bom preço. Imediatamente, começou a erguer uma casinha de madeira. E semeou. Mandioca, banana, milho, café, tudo crescia ali, com dificuldade, “a terra é fraca”, mas crescia.

Manuel sempre soube que seu pedaço de chão, antes de ser coberto com muita terra pela Texaco, havia sido uma piscina de petróleo. Quando chegou, porém, não avistou vestígios da lagoa negra. O que os olhos não veem, o coração não sente – mas o corpo, sim, sofreria com os efeitos colaterais. Só que mais tarde. No momento, o problema parecia estar resolvido, e a vida continuou.“É claro que tudo que sai desta terra está contaminado”, diz, com a voz rouca que flui por debaixo do bigode setuagenário.

O agricultor, no entanto, jamais deixou de comer os produtos que cresciam em sua chácara, nem quando o petróleo começou a estourar a sepultura de terra e, como por milagre, brotar novamente do solo.

“É a pobreza e a necessidade que nos move. Vamos confiando em Deus, para que nos ajude e favoreça. Afinal, ainda estou vivo”. Assim justifica, num misto de alívio e lamento, a contaminação que a fome impôs a seu organismo.

Salinas quase morreu de gastrite depois que a tubulação subterrânea do poço 38 se rompeu a poucos metros da superfície. Ao lado, o agricultor mantinha um reservatório de água, de onde tirava para beber, banhar-se e cozinhar, porque não há saneamento básico na zona rural de Shushufindi. Depois do incidente, os líquidos tóxicos se infiltraram no lençol freático que abastecia seu reservatório e sua família. Demorou até que Manuel fosse informado do vazamento. Quando os técnicos vieram comunicar que o cano havia estourado, o estômago do campesino já reclamava suas dores. Não fosse a ação de amigos em levá-lo para tratamento em Quito, Salinas tem certeza, já estaria morto.

Antes do aparelho digestivo, no entanto, foi a pele que reagiu ao contato diário com a contaminação. Foi começar a contar suas mazelas para que arregaçasse as mangas e mostrasse os pequenos grãos rosados que se misturam às rugas do sol e da idade, e que se espalhavam ainda pelo peito, barriga e costas. Enquanto fala, ele enfia dois metros de galho de árvore diretamente no solo, sem o menor esforço. Percebo que Salinas e toda sua propriedade flutuam sobre milhares de litros de uma mistura de petróleo, lodo, água de formação e todo tipo de rejeitos. Foi exatamente ali que cresceram os alimentos que encheram seu prato durante tantos anos.

Dentro do contexto local, porém, Manuel pode ser considerado um sujeito de sorte. Há pouco mais de dois anos, quando acabava de ser eleito presidente do Equador, Rafael Correa fez uma visita à chácara de Salinas. Conheceu de perto a piscina que se revelava em seu quintal e conferiu a qualidade da água utilizada pela família do agricultor. Com a ajuda de um assistente, o presidente puxou um balde do fundo do reservatório, molhou as mãos e aproximou-as do nariz.

“Cheira a gasolina”, comprovou.

Não demorou até que Salinas conseguisse do governo um novo lugar para morar. O poder público cedeu o terreno, mas o campesino teve que juntar as economias e financiar a construção da casa. Hoje, vive longe da piscina de petróleo e da intoxicação diária, recebe água na torneira e se protege da chuva em paredes de alvenaria. Mas não está satisfeito.

“A contaminação está espalhada pela cidade inteira, por toda a região”, lamenta. “Não temos muito para onde escapar. Se consigo alguma indenização, compro uma terrinha em outro lugar onde dê pra plantar. Se eu pudesse, sairia de Shushufindi, não tenha a menor dúvida.”

Apesar de ser desconhecido no Brasil e no mundo, o desastre ambiental provocado pela Texaco na Amazônia equatoriana é comparável aos acidentes ocorridos no Alasca com o petroleiro Exxon-Valdez, em 1989, e na costa espanhola, com a embarcação Prestige, em 2002. Só que, ao invés de ter vazado no mar, o petróleo equatoriano se derramou pela floresta, habitat não só de animais, mas também de gente. Organizações não-governamentais, como a britânica Oxfam, classificam a contaminação petrolífera no Equador como a “catástrofe ambiental do século”. A empresa norte-americana, porém, não abre mão de sua defesa, e tem adotado algumas táticas para influenciar o resultado da primeira sentença sobre a querela bilionária, que deve sair no fim de 2009. Ambas as partes terão direito a recorrer da decisão.

O alvo preferido da Texaco é Pablo Fajardo, acusado de estar buscando fama e riqueza ao sujar a imagem da empresa. É verdade que alguma fama o advogado tem conseguido. Devido a seu trabalho, é reconhecido por todos em Shushufindi, Lago Ágrio e Sacha, os três municípios equatorianos mais afetados pela contaminação. Permanece, no entanto, relativamente anônimo no resto do país – e isso apesar de ser um favorito da mídia internacional, que o descreve como um Davi mestiço e subdesenvolvido metido em uma luta desigual contra o Golias imperialista.

Outra estratégia da Texaco é incluir o estado equatoriano como réu no processo judicial. Segundo um informe da companhia, “os principais problemas de saúde na região não são resultado das operações petroleiras, mas sim da falta de infra-estrutura para tratamento de água, saneamento básico e o acesso insuficiente da população a atendimento médico.” Por isso, a empresa “rechaça firmemente a ideia de arcar com a responsabilidade de resolver os problemas da região, os quais resultam da indisposição ou incapacidade do governo e da petroleira estatal para cumprir com suas obrigações.”

Em várias ocasiões, Adolfo Callejas, um dos advogados da Texaco no Equador, colocou em dúvida a culpa pelos derramamentos e pela construção das piscinas de resíduos tóxicos existentes na zona: para ele, o petróleo lançado na natureza não ostenta o logotipo da empresa norte-americana e, como é impossível datá-lo, não se pode saber com exatidão quem foi o responsável pela tragédia: se a Texaco ou, mais recentemente, a Petroecuador. A companhia também alega que, sob a supervisão das autoridades equatorianas, executou um programa de recuperação ambiental no valor de US$ 40 milhões antes de deixar o país. “As obras foram inspecionadas, certificadas e aprovadas pelo governo do Equador, que liberou plena e cabalmente a Texaco de todas as queixas e obrigações futuras”, afirmou Callejas.

Porém, um documento emitido pelos escritórios da Texaco nos Estados Unidos para a sucursal do Equador é chave para contrapor tais alegações. No dia 17 de julho de 1972, R.C. Shields escreveu da Flórida uma carta para N.E. Crawford, em Quito, explicando os procedimentos recomendados na hora de reportar incidentes ambientais:

Apenas eventos importantes devem ser comunicados. Um ‘evento importante’ é todo aquele que atrai a atenção dos meios de comunicação ou das autoridades ou que, na sua opinião, mereça ser reportado. Nenhum informe deve ser mantido na base de dados. Todos os comunicados anteriores devem ser destruídos.

É por essas e outras que Pablo Fajardo não vê possibilidades de derrota nos tribunais. “Foram feitas 55 inspeções judiciais e em todas se demonstra que há contaminação por hidrocarbonetos, que a saúde humana foi prejudicada, que povos indígenas foram afetados, que havia intencionalidade da Texaco em poluir, que os danos foram provocados por razões econômicas e provavelmente também por racismo.” O advogado tem tudo na ponta da língua. “Seria perverso dar ganho de causa à empresa.”

Não muito longe de Shushufindi se encontra uma área de um milhão de hectares conhecida como Parque Nacional Yasuní. Bem ali o governo equatoriano recentemente encontrou novas jazidas de petróleo: estima-se que 20 por cento de todas as reservas do país estão escondidas debaixo da mata virgem. São mais de 850 milhões de barris que poderiam dar sobrevida ao negócio petroleiro no Equador. Para explorar o Yasuní, no entanto, será necessário derrubar parte da floresta. Isso significaria atentar contra um dos patrimônios mundiais da biosfera, título que a Unesco concedeu ao lugar porque nele sobrevivem pelo menos 165 espécies de mamíferos, 110 de anfíbios, 72 de répteis, 630 de aves, 1130 de árvores e dois grupos indígenas em isolamento voluntário, os tagaeris e os taromenanis.

Para preservar um dos rincões mais intocados do país, e certamente com o mau exemplo da Texaco na cabeça, o presidente Rafael Correa resolveu inovar. Comprometeu-se a não escavar um poço petrolífero sequer no Yasuní caso receba da comunidade internacional uma compensação financeira de pelo menos US$ 300 milhões anuais durante dez anos. A quantia varia de acordo com a cotação do barril, mas corresponde à metade do faturamento que seria obtido pelo país caso decidisse extrair o petróleo da floresta. “Será um sacrifício compartilhado entre o Equador e o mundo”, disse Correa. Só que não tem nada a ver com filantropia.

Todas as emissões de CO2 que seriam evitadas ao deixar o combustível embaixo da terra poderiam ser negociadas no mercado de carbono estabelecido pelo Protocolo de Kyoto ou em algum outro mecanismo parecido que ainda precisa ser inventado. O Equador venderia, portanto, “direitos de contaminação” aos governos europeus, que por sua vez leiloariam estas quotas a empresas que não cumpram com as metas de redução de emissões estabelecidas pelos acordos internacionais. Assim, os países desenvolvidos podem manter seu ritmo de produção industrial e o Equador receberá o dinheiro que receberia caso derrubasse a floresta para extrair petróleo.

Uma das apostas dos defensores do Yasuní é capacitar às comunidades indígenas e ribeirinhas para trabalhar com o ecoturismo. Assim o governo pretende combater o desmatamento e outras atividades predatórias que pouco a pouco degradam as reservas naturais do país. É exatamente esta ideia que suscita a desconfiança de uma das mais importantes ecologistas do Equador. Esperanza Martínez, da ong Acción Ecológica, elogia a decisão do governo de manter a floresta de pé, mas não acredita que a iniciativa represente uma ruptura com o modelo de desenvolvimento adotado pelo país e que vem sendo o responsável pela silenciosa degradação ambiental.

“Como ainda não temos um modelo alternativo a seguir, o que nos resta é frear o avanço do desenvolvimento atual até que apareça uma alternativa. Neste sentido, a preservação do Yasuní é uma conquista impressionante”, comemora. “O parque deve ser conservado, mas isso não significa necessariamente uma mudança de modelo econômico. Um Equador pós-petroleiro não é um Equador de mineração ou de represas.”

Não é exagero dizer que o Equador passa por um dos momentos mais importantes de sua história. Tem um (já não tão) novo presidente, uma nova constituição e um caminho bastante incerto pela frente. Rafael Correa, 46 anos, nunca foi ligado à política tradicional. Antes de integrar o Movimento Pátria Altiva e Soberana, partido que hoje lidera, lecionava economia na maior e mais cara universidade particular de Quito. Nasceu no meio de uma família de classe-média, teve uma educação religiosa, fez mestrado na Bélgica e doutorado nos Estados Unidos. Nem de longe ostenta o histórico de lutas sociais do boliviano Evo Morales ou de Luiz Inácio Lula da Silva. Tanto que mais de uma vez o venezuelano Hugo Chávez usou o termo Chicago Boy para referir-se à sua trajetória pessoal. Contudo, quando foi eleito pela primeira vez, em 2006, Rafael Correa tinha um sorriso no rosto e um projeto nas mãos: romper com as velhas práticas políticas que haviam jogado o Equador numa grave crise institucional.

Tudo começou em 1996. Então governava o país Abdalá Bucaram, um descendente de libaneses que ostentava orgulhosamente um bigode a la Adolf Hitler. Seu mandato durou pouco mais de seis meses, tempo suficiente para cometer bizarrices memoráveis e se atolar em denúncias de corrupção. A queda de Bucaram inaugurou um longo período de vai-vem presidencial. O último a cair foi Lucio Gutiérrez, que não aguentou a pressão popular e entregou os pontos em meados de 2005. Rafael Correa, pelo menos por enquanto, conseguiu colocar um freio no processo. Também conseguiu aprovar uma constituição que reconhece uma série de direitos inéditos na América Latina. Um deles é a plurinacionalidade.

Desde sua fundação, em 1830, e antes, o Equador é um estado que abriga uma série de nacionalidades. Como tais, possuem línguas, economias, formas de justiça, religiões, tradições e culturas diferentes. Pelo menos no papel, hoje, o país reconhece a validade e a riqueza de cada uma delas. O novo texto constitucional também declara o meio ambiente como um ente jurídico cuja sobrevivência – ou seja, a conservação – goza de garantias legais: “A Natureza ou Pacha Mama, onde se reproduz e se realiza a vida, tem direito a ser respeitada integralmente em sua existência, preservação e regeneração de seus ciclos vitais, estruturas, funções e processos evolutivos”, diz o artigo 71. Os direitos da natureza são, em boa medida, o reconhecimento de que nem o sistema capitalista atual nem a suposta boa vontade do ser humano foram suficientes para impedir a destruição do planeta. Pelo contrário, mais exato seria dizer que foram os responsáveis pela devastação crescente. Texaco e Shushufindi estão de prova.

Qualquer pessoa sabe – porque vê – que o Equador não é um país desenvolvido. Não porque as pessoas não tenham iPods no bolso ou notebooks na mochila, mas porque os índices de analfabetismo são altos e os serviços básicos estão longe de boa parte da população, porque ainda há muito racismo contra índios e negros, porque a sociedade equatoriana é extremamente desigual e a delinquência só faz crescer. O dinheiro que se tira da terra – seja das fazendas ou dos poços de petróleo – chega para poucos. Daí os reclamos por uma mudança estrutural, que, se depender do presidente Correa, não virá antes dos próximos 20 anos. Uma nova lei de mineração acaba de ser aprovada, e com ela se esperam cenários desoladores para algumas regiões que deveriam ser protegidas por sua biodiversidade.

“A riqueza mineral neste país é imensa, supera os US$ 200 bilhões. Vamos deixar tudo isso intocado em nome de que não se derrube uma árvore ou um pássaro?”, perguntou-se o presidente em uma de suas defesas à mineração. “Destruir a selva pode ser imoral, mas ainda mais imoral é renunciar aos recursos que podem tirar o país do subdesenvolvimento, que podem eliminar a miséria e a pobreza de nossa pátria.”

A insistência de Correa no extrativismo provocou baixas importantes em seu governo. O movimento indígena foi um dos que tiraram o apoio ao presidente. Velhos aliados, como o economista Alberto Acosta, ex-ministro de Energia e Minas, se tornaram seus principais críticos. Mesmo assim, o presidente está convicto de que seu socialismo do século XXI é o caminho para o futuro. Mas, quando tive a oportunidade de questionar seu esquerdismo, durante uma entrevista coletiva concedida um dia após sua reeleição, ele não hesitou em defender-se com exemplos do passado.

“Se apoiar a mineração é ser de direita, então Che Guevara era de direita e Fidel Castro é de direita, porque um dos principais produtos de exportação de Cuba é o zinco, que, ademais, é explorado em minas a céu aberto. A China também seria um país capitalista, já que tem muitas minas. A União Soviética tinha mineração…”

Então me lembro de Melânia, seus 40 e poucos anos, seus cinco abortos e sua casa de madeira, de cuja janela se pode contemplar um poço de petróleo e uma torre de incineração perpétua de gás. Lembro que ao lado cultiva, com a ajuda das três filhas que conseguiram nascer, uma roça de cacau, milho e mandioca, e que algumas galinhas e porcos perambulam pela chácara sem se importarem muito com nada. Lembro que tudo um dia foi uma piscina de petróleo, e que tudo foi soterrado sem tratamento algum. E lembro da resposta que ela, sem-graça, deu à última pergunta de nossa entrevista.

“Tem mais alguma coisa que você queira falar, Melânia?”

“Não…”, ri. “Não tenho que falar nada.”

Como se a palavra tivesse perdido poder em meio à desesperança dos discursos vazios. –tadeu breda (cc)

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