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23/09/2010 § Deixe um comentário

O Latitude Sul está mudando de endereço. Agora você poderá ler nossas reportagens, crônicas e artigos de opinião, além de ver nossas fotos e vídeos, em novo endereço: WWW.LATITUDESUL.ORG. Nos vemos lá!


O petróleo vem do plástico, certo?

10/09/2010 § 1 comentário

Certo! Bom, antes não era assim, mas agora é. Faz um ano já, quer dizer, mais.

Uma empresa japonesa Blest criou uma maquininha que transforma embalagens, tampinhas e garrafas plásticas em derivados de petróleo. É como se fosse uma panela de pressão, só que, em vez de feijão, você coloca plástico. É só botar a quantidade recomendada pelos fabricantes, fechar bem a tampa, ligar na tomada, esperar um pouquinho e — como diria Chaves — zaz!

O aparelho vai esquentar e derreter tudo ali dentro. O gás tóxico resultante do processo é levado para um reservatório de água acoplado ao equipamento, resfriando-se instantaneamente, sem soltar aquele cheiro desagradável. Parece milagre, não? Veja o vídeo:

Um quilo de plástico se transforma em um litro de óleo, com o gasto energético de 1 kilowatt. Bom, na verdade não é todo tipo de plástico que pode ser colocado dentro da máquina. E também não é todo tipo de derivado de petróleo que resulta do processo. Dá para derreter e transformar polipropileno, polistireno e polietileno. Garrafa PET, infelizmente, não rola. O óleo que sai da panela vem em estado bruto. Isso quer dizer que, para colocar no tanque do carro ou da moto, teria que refinar antes. Mas, ainda assim, pega fogo que é uma beleza: dá pra acender churrasqueira e fazer funcionar um gerador, por exemplo.

O presidente da empresa, Akinori Ito, deu uma entrevista para o saite da UN University sobre o assunto — UN é de Nações Unidas. E disse que a grande importância de sua invenção é que, reconvertendo plástico em petróleo, a gente não corre mais o risco de que esse plástico seja queimado e lance um monte de porcaria na atmosfera.

“If we burn the plastic, we generate toxins and a large amount of CO2. If we convert it into oil, we save CO2 and at the same time increase people’s awareness about the value of plastic garbage.”

O sr. Ito diz que fez a máquina para que as pessoas possam usar em casa. Por isso é tão pequena e manejável. Segundo o inventor, seu sonho é que, um dia, na melhor tradição da reciclagem, nossos lares se transformem nos futuros campos de petróleo e vice-versa. Então não será mais necessário perfurar poços pelo mundo afora, muito menos nas florestas tropicais.

Hoje, porém, o preço da máquina ainda é um pouco salgado: a versão mais simples, essa que aparece no vídeo, custa 9 mil dólares. Mas, como toda novidade tecnológica que surge por aí, a tendência é baratear. E a empresa garante que está trabalhando para que todos possam derreter plástico e transformá-lo em óleo ao invés de jogá-lo no lixo.

Mais informação sobre a invenção japonesa você encontra neste saite aqui: Our World 2.0, mantido pela UN University. Lá você também encontra uma série de vídeos e informação sobre outros projetos espalhados pelo mundo que tantam ajudar a resolver os problemas do clima, petróleo, alimentação e biodiversidade. Vale a pena, mas está em inglês. –tadeu breda (cc)

filosofia de bar sobre copenhague

08/01/2010 § Deixe um comentário

(para ler de um gole só)

A degradação do meio ambiente é filha legítima do progresso, e o progresso é uma construção ideológica. Os seres humanos tendemos a pensar no progresso apenas como o progresso de nossas capacidades técnicas, talvez porque a ciência tenha sido a área em que mais progredimos ao longo da história. Mas o progresso não se resume a vacinas, aviões, usinas e tecnologias de ponta. Esta são apenas algumas de suas múltiplas facetas. Há muitos outros tipos de progresso, porque, uma vez representante da ideia de evolução, ele se espalha pelas demais searas do conhecimento humano. O erro das modernas sociedades ocidentais é acreditar que o progresso em apenas uma área do saber significa automaticamente o progresso de toda a humanidade. O nazismo é o grande exemplo. O regime de Adolf Hitler combinou um vigoroso progresso tecnológico, econômico e industrial com a maior expressão de degradação moral que o ser humano já viu sobre a face da Terra. Na Alemanha nacional-socialista, a racionalidade foi utilizada para azeitar o aparato militar do expansionismo hitlerista e exterminar judeus, negros, ciganos e homossexuais em massa. Os campos de concentração tinham a eficiente logística das mais exitosas empresas do capitalismo industrial. Depois, na esteira da segunda guerra, veio a bomba atômica, outra expressão de como o progresso da ciência foi utilizado para fins no mínimo duvidosos. Assim a história humana foi avançando. Os cientistas, com cada vez mais domínio sobre as pesquisas e a técnica, não param jamais de aperfeiçoar os avanços do conhecimento. Inventaram também máquinas de matar com precisão cirúrgica, inteligentes, que reduzem a zero o risco de vida dos matadores ao mesmo tempo em que aumentam a exatidão dos ataques. A ciência também serviu à manutenção da vida, claro. Se hoje vivemos 70 anos em média é porque a medicina consegue combater doenças que antes matavam todo mundo em idades bem menos avançadas. Desenvolveram até medicamentos para o combate à Aids, que mais parecia o demônio encarnado nos anos 80 e 90. Só que os laboratórios se recusaram a vendê-los a preços acessíveis às pessoas que mais sofrem com a doença: os africanos. O dinheiro fala mais alto, sempre. E o progresso parece reduzido às limitações morais das contas bancárias. O altruísmo só vale a pena quando é lucrativo. Os culpados nem são os laboratórios, porque o que fazem é somente seguir as regras do jogo. Se não lucram, não sobrevivem. Se são bonzinhos demais e distribuem os medicamentos, não terão dinheiro para pagar equipamentos e pesquisadores capazes de desenvolver remédios cada vez melhores. Estão apenas trabalhando, assim como todas as indústrias que emitiram e continuam a emitir bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Estão seguindo as regras do capitalismo. E o capitalismo diz: maximize os lucros – e faça isso antes de seu concorrente, senão… Por isso, o que conhecemos como crescimento econômico, na verdade, é o crescimento da exploração. Cresce uma economia que acumula mais. Para acumular, é necessário lucrar. O lucro se torna realidade quando um empresário – o dono dos meios de produção – fatura mais do que gasta. Quanto maior o faturamento e menor os gastos, mais lucrativo será o negócio. Mão-de-obra, equipamentos e matéria-prima são as principais despesas da atividade econômica. Se o patrão puder gastar menos com elas, ganhará mais no fim do mês. Essa economia se traduz em baixos salários e matérias-primas baratas. As matérias-primas normalmente se originam dos países pobres ou em desenvolvimento. Para obtê-las, a não ser que as reservas se encontrem em regiões desérticas, é necessário degradar o meio ambiente e desmatar. Voltando para a indústria em si, a redução de emissões depende de um investimento massivo em tecnologias limpas. Isso custa e, portanto, reduz o lucro dos patrões. O protocolo de Kyoto tentou fazer com que a redução de emissões se transformasse num negócio lucrativo e inventou o mercado internacional de carbono, uma espécie de bolsa de valores ecológica. Nela, quem deixa de poluir a atmosfera pode vender “direitos de contaminação” a quem ainda não conseguiu cumprir as metas de redução de emissões. O mecanismo só funciona porque, a cada ano que passa, esses direitos ficam mais e mais caros. A ideia é que a compra da licença para poluir um dia fique mais cara que o investimento em novas tecnologias não poluentes. Assim, através das leis do mercado, as indústrias deixariam de emitir gases causadores do efeito estufa. Não é uma questão de salvar o ambiente, mas de causar menos prejuízo financeiro. De qualquer forma, os Estados Unidos não assinaram o protocolo. Agora, com o fiasco de Copenhague, o preço do carbono no mercado internacional despencou. Isso quer dizer que ficou mais barato poluir, porque, como o capitalismo financeiro vive de expectativas, e as expectativas sobre um acordo salvador do clima foram para o bebeléu, os direitos de contaminação ficaram mais baratos. As licenças para emissão na União Europeia caíram 8,7% porque já não parece haver estímulos para investimentos nesse negócio de salvar o clima. Portanto, quem deixou de emporcalhar a atmosfera vai ganhar menos com isso, e quem continua mandando ver no CO2 vai perder menos, porque vai pagar menos por cada tonelada emitida para além da meta. O protocolo de Kyoto em si já é uma abstração financeira imensa elaborada para viabilizar dentro do capitalismo uma obviedade ambiental tão evidente quanto evitar o aquecimento global, o desaparecimento de ilhas, ecossistemas, culturas e meios tradicionais de vida. E, mesmo prevendo lucros consideráveis para quem entrar na onda da preservação, não colou como deveria colar. É, até hoje, o único sistema cujo objetivo é reduzir as emissões de carbono. Se nada for inventado para substitui-lo nos próximos dois anos, quando perde a validade, o mundo simplesmente ficará sem nenhuma meta de redução. Era para Copenhague ter elaborado outro mecanismo, mas isso não aconteceu porque ninguém está a fim de perder dinheiro. Uma política de cortes na emissão de CO2 dentro do capitalismo implica necessariamente em diminuição de lucro. Até nas prateleiras dos supermercados dá para perceber que é assim. Os produtos orgânicos, ecologicamente corretos, que não utilizam agrotóxicos nem organismos geneticamente modificados, que são produzidos com o mínimo impacto possível sobre o meio ambiente e que aplacam o sofrimento animal custam bem mais caro. Por quê? Ora, porque a produção é obrigatoriamente baixa para manter os padrões ecológicos. Se a atividade se massifica, vai acontecer igual acontece agora com os alimentos tradicionais: quanto maior a produção, mais barato o produto; quanto mais hormônio e mais veneno, maior a produção, maiores as vendas, porque os compradores priorizam matérias-primas mais baratas para baratear seus próprios produtos e vender mais e… bom, a gente já sabe como funciona. Copenhague fracassou basicamente porque há um desnível social e econômico entre os países desenvolvidos e emergentes. O pessoal do primeiro mundo não quer perder o padrão de vida, e a galera do terceiro mundo quer melhorar seu padrão de vida. O desenvolvimento é uma necessidade para as nações que estão no sul do mundo. Afinal, as coisas não podem continuar como estão: situações alarmantes aqui, fome e analfabetismo, e conforto lá. Temos que melhorar as condições de vida de nossas populações, de maneira que, pelo menos, as necessidades básicas de todos sejam atendidas. E não se trata de carros importados e casas na praia, mas de saúde, educação, alimentação, moradia, trabalho, ócio, liberdade. Aí vem outro problema. Nossa visão de mundo ocidental acredita piamente que desenvolvimento social é uma consequência do crescimento econômico, como se sem este não houvesse aquele. Então voltamos ao começo da conversa: crescimento é acumulação, e acumulação se viabiliza pelo progresso das forças produtivas. Nossa ideia de progresso está viciada. A evolução da humanidade vai muito além da evolução do PIB. Foi buscando desesperadamente taxas cada vez mais altas de crescimento do PIB que acabamos esquecendo de perseguir metas de desenvolvimento humano. Olha o Brasil: está entre as dez maiores economias do mundo, mas ocupa apenas a 75a posição quando o assunto é o bem-estar de seus cidadãos. Não podemos dizer que o país não cresce, mas para onde esse crescimento tem nos levado? O crescimento, em si, é um mito, assim como a ideia de que o progresso é a salvação do ser humano porque é infinito e um dia nos levará à perfeição. Como podemos acreditar na conversa de que nossas economias continuarão crescendo e crescendo ad eternum se os recursos naturais são finitos? Existe uma grande incoerência aqui, e todos os negociadores que estavam sentados nas mesas de Copenhague a conhecem perfeitamente. Não há mundo capaz de aguentar um ritmo de crescimento de dois dígitos ou a promessa de que, um dia, todos irão viver como na Europa e nos Estados Unidos. Ou começamos de uma vez por todas a conquista espacial e pilhamos os recursos naturais dos outros planetas para alimentar nossa loucura progressista ou mudamos de ideia de uma vez por todas. Hoje a riqueza é sinônimo de degradação ambiental, porque é explorando a natureza que o homem transforma matérias-primas em produtos industrializados e ganha dinheiro no processo. Quanto mais matéria-prima, mais transformação e mais dinheiro. Explorar a natureza – extrair petróleo, minérios, madeira, construir pastos e plantar soja – gera riqueza porque foi assim que decidimos fazer girar a economia quando, um belo dia, nos apartamos do meio ambiente e resolvemos declarar guerra ao ecossistema. Acabamos por dominar seus ciclos e conhecê-lo quase tão profundamente que hoje podemos dizer que vencemos. Somos os donos do mundo, dominamos cada rincão da Terra e temos nas mãos o poder de acabar com tudo, ainda que o fim de tudo seja também o nosso fim, porque, por mais que neguemos, somos parte da natureza e não vivemos sem ela. Eis a prova de que a ideologia que sustenta o progresso e o modelo econômico é uma grande falácia. Nós não somos sem o todo, mas o todo sim pode ser sem a gente. Somos o último elo da cadeia e o mundo não vai se abalar caso desapareçamos de repente. Pelo contrário, a natureza agoniza com a nossa presença. Copenhague não colheu nenhum fruto maduro porque está atolada em interesses mesquinhos que dizem respeito a metas de crescimento do PIB, atividade industrial e dominação militar. Mas estes são valores do velho mundo. O novo mundo deve ser erigido sobre novas plataformas, a mudança deve demolir os alicerces das sociedades atuais e muita gente que hoje se dá bem pode se dar mal. As noções de conforto e bem-estar deve ser redefinidas, mas o xis da questão está no conceito de riqueza. Somos ricos enquanto destruímos hectares de floresta, poluímos fontes de água límpida e extinguimos espécies animais e vegetais para extrair toneladas de ouro e guardá-lo nos cofres do Banco Central? Isso já não faz o menor sentido. A verdadeira riqueza está em viver num mundo em que não haja miséria, e só não haverá miséria quando não houver degradação. A exploração da natureza é o pontapé inicial de toda a desigualdade, e se engana quem pensa que justiça social é possível sem justiça ambiental, porque o homem construiu todo seu aparato de dominação submetendo o meio ambiente – e, consequentemente, os outros homens – a seus desígnios. Nenhum chefe-de-estado quer tocar nestas feridas abertas, porque são nelas que se escondem os nervos expostos da nova ordem mundial. –tadeu breda (cc)

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22/12/2009 § Deixe um comentário

Não quero engrossar o coro dos descontentes, mas, já engrossando, prometo ser breve ao aliviar aqui todo meu imenso descontentamento com a cúpula de Copenhague. E o farei recuperando um artigo que escrevi em abril de 2007. Afinal, nada melhor do que criticar com um texto velho uma reunião que não produziu nada de novo: eis a triste atualidade de nossa histórica incompetência.

Duvido

A essa altura não há muito mais o que se falar sobre o que estamos fazendo com a natureza. O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas traçou o mapa da desgraça que o “progresso” humano provocou e ainda vai provocar no planeta. Mesmo se parássemos de queimar combustíveis fósseis neste segundo, a tragédia continuaria, no mínimo, pelos próximos cem anos.

Mas esse é o único planeta que temos. E todos sabemos e não sabemos que destruímos dia após dia o meio ambiente. E sabemos e não sabemos os passos para amenizar a degradação. Por exemplo, praticando a simples e indolor coleta seletiva do lixo. É senso comum também que o consumismo destrói o planeta. Todo mundo e ninguém pára pra pensar no potencial destrutivo de cada aquisição feita no mercado da esquina. O sonho de nove entre dez pessoas é ter um veículo particular. Os governos continuam mirando seu crescimento econômico no modelo que, além de pobreza, causa tempestades, degelo das calotas polares, inundações. Todos queremos viver como nos Estados Unidos ou na Europa, com aquele padrão de vida maravilhoso, ignorando ou esquecendo que não há recursos naturais suficientes para isso.

É ilusão pensar que as pessoas – eu, você, o vizinho – vão deixar de lado as facilidades da vida contemporânea para preservar o próximo século de um planeta que não vão mais habitar. Mesmo com esse alerta estarrecedor do IPCC. Talvez se a ciência descobrisse a fonte da vida eterna, quem sabe o egoísmo falaria – como sempre fala – mais alto. Como não há chances de que isso aconteça a curto, médio ou longo prazo, precisamos de uma mudança radical, principalmente na economia.

Capitalismo rima muito bem com prosperidade, aviões, arranha-céus, indústrias produzindo a todo vapor, mas não com natureza. Preservar o planeta no capitalismo custa muito dinheiro, portanto, reduz o lucro, portanto, está fora de cogitação para os donos da bola. Veja nas prateleiras: produtos ecologicamente corretos são bem mais caros que os convencionais e estão fora do alcance da maioria da população.

Mas dinheiro é bom. Quem tem adora, pode comprar um monte de coisa. Carne, por exemplo. Tudo bem, vai, nem precisamos de tanto dinheiro assim pra comprar carne. E ninguém vai parar de comer, seja filé mignon ou acem. Mas o rebanho bovino – comendo, arrotando e peidando sem parar – está entre os maiores emissores de gases causadores do efeito estufa. Isso sem contabilizar as árvores que caem para que existam pastos. Aquele bifinho vistoso entre o arroz e feijão do almoço esconde uma boa parcela de culpa pela tragédia do planeta. Agora, que atire a primeira pedra quem vai abdicar do churrasco no final de semana, ou do PF disputado que divide um dia cansativo de trabalho.

Depois, sem essa de carro. Vamos todos de busão, de metrô, de bike, mesmo quem pode comprar um BMW. Sim, vamos. Até pegarmos um dia chuva e calor, como os do verão paulistano. O buzum lotado, todas as janelas fechadas, o tráfego parado, a temperatura nas alturas, a galera suando a cântaros.

Como é que você vai se apresentar pro seu chefe desse jeito? E o cliente, o que vai achar das marcas de suor no entorno do seu sovaco? E como levar a mala com as roupas pra academia depois do expediente? Tá, você promete que vai colocar um bom catalisador no escapamento do seu carro. Até chegar a hora de trocá-lo, dali uns cinco anos. Vai pesar no bolso, tem as despesas extras das crianças, aquela comprinha em que você gastou demais, a viagem tão planejada. Como é que fica?

Então. Vamos supor que você vai se esforçar muito e sacrificar suas preferências gastronômicas em nome do bem-estar da natureza. Beleza, você resolve parar de comer carne. E o substituto mais eficiente de proteínas é a soja, claro, a preferida dos naturebas. Então você troca a picanha pela carne de soja, o leite da mimosa pelo leite de soja. Louvável. Mas a soja é a maior responsável pela expansão descontrolada da fronteira agrícola no Mato Grosso e outros estados da Amazônia Legal. Pra plantar, tem que desmatar. E o desmatamento, você sabe muito bem, também está entre os maiores promotores do efeito estufa, é inclusive a maior contribuição que o Brasil dá para o aquecimento global.

O resultado de tudo isso, já sabemos. Algumas empresas vão lançar cada vez mais campanhas publicitárias dizendo que defendem o meio ambiente, que usam papel reciclado e contribuem com o Greenpeace. Talvez até coloquem em seus comerciais de TV algumas imagens dos militantes verdes se lançando contra baleeiros japoneses no Pacífico.

Depois você vai perceber que às vezes as corporações gastam mais na propaganda das bem-feitorias do que nas bem-feitorias propriamente ditas. Ganham, assim, mais clientes, aqueles preocupados com a natureza, enquanto emprestam dinheiro pras indústrias que inevitavelmente vão poluir a atmosfera.

Proteção ambiental vai também virar plataforma de políticos que, nas próximas eleições, não pensarão duas vezes em despolitizar a questão para ganhar votos.

As emissões, claro, serão reduzidas, mas só até onde o sistema aceitar, só até onde nossas mordomias permitirem. É insuficiente, claro. A batata-quente – e cada vez mais quente – está com os incluídos, os que movimentam a máquina, os que gastam, que consomem, que poluem. Eles vão abdicar do carro, do churrasco, do ar-condicionado, da piscina? Eu vou? E você, vai? –tadeu breda (cc)

una huella verde sobre el petróleo

30/05/2009 § 1 comentário

Ecuador finaliza propuesta para dejar bajo tierra cerca de 850 millones de barriles de petróleo descubiertos en la Amazonía a cambio de negociar en el mercado internacional de carbono las emisiones de CO2 que serán evitadas

>> publicado en terra magazine

Cuando la iniciativa de mantener bajo tierra el petróleo del Parque Nacional del Yasuní fue anunciada por primera vez, en junio de 2007, Rafael Correa llevaba menos de tres meses como presidente del Ecuador. En ese entonces, dejar de explotar el crudo descubierto en el campo Ishpingo-Tambococha-Tiputini (ITT) era solamente una intención.

Este sábado, empero, el mandatario anuncia en su cadena radial la propuesta definitiva que desde entonces viene siendo elaborada dentro del Consejo Administrativo y Directivo de la Iniciativa Yasuní-ITT.

El proyecto utiliza un cálculo bastante sencillo. Debajo de este rincón amazónico de aproximadamente un millón de hectáreas yacen por lo menos 850 millones de barriles de petróleo. El monto representa el 20 por ciento de toda la reserva conocida del país.

Lo que propone el gobierno es mantener los yacimientos como están, intocados, a cambio de una compensación financiera que corresponda a por lo menos mitad de los rendimientos que podrían ser obtenidos con la extracción y venta del crudo.

Cálculos

Las utilidades que el país recibiría por la explotación -con los precios del barril alrededor de los 54 dólares- alcanzarían los 6.000 millones de dólares en diez años. Para preservar la selva, por lo tanto, el gobierno espera que la comunidad internacional revierta al Ecuador un mínimo anual de 300 millones de dólares por igual periodo.

No se trata de filantropía. Según los cálculos del proyecto, dejar el petróleo del Yasuní-ITT bajo tierra significa evitar la emisión de 410 millones de toneladas métricas de CO2 a la atmósfera, cantidad equivalente a todas las emisiones de gases de efecto invernadero realizadas por países como Brasil o Francia durante un año y medio.

La intención del gobierno ecuatoriano es negociar estas “emisiones evitadas” en el mercado internacional de carbono, conocido como ETS (Emission Trading System). El mecanismo está previsto en el Protocolo de Kyoto, acuerdo ratificado por todos los países del mundo -con la excepción de los EEUU- para reducir la contaminación por combustibles fósiles. El objetivo del tratado es que en 2012 las emisiones de gases de efecto invernadero sean un 12 por ciento más bajos que las de 1990.

Novedad

Kyoto prevé apoyo financiero a una serie de proyectos de desarrollo limpio en países del tercer mundo, como el desarrollo de fuentes de energía renovable y otros mecanismos que contribuyan para la reducción de las emisiones de CO2. Sin embargo, todavía no contempla iniciativas como la ecuatoriana, que se rehúsa a explotar reservas de petróleo, gas o carbón.

La tarea del gobierno de Rafael Correa será convencerle a la comunidad internacional a aceptar la Iniciativa Yasuní-ITT como un plan piloto que pueda ser incluido en el mercado internacional de carbono.

Así, los derechos de emisión adquiridos por Ecuador al no prospectar los yacimientos amazónicos podrían ser negociados con empresas que necesiten ajustar sus niveles de contaminación. Con ello, el país cumpliría con sus necesidades presupuestarias y el parque -considerado patrimonio universal de la biosfera por la UNESCO- estaría salvo de la actividad petrolera.

Apoyo

“Hay cinco premios Nóbel que apoyan al proyecto. Además, contamos con el respaldo del gobierno de Alemania y de todos los partidos políticos representados en el Parlamento alemán”, explica Carlos Larrea Maldonado, asesor técnico de la Iniciativa Yasuní-ITT. “Tenemos también el apoyo de la Unión Europea, de 40 parlamentarios británicos, del municipio de Madrid y de Roma y muchas ONGs en todo el mundo.”

Larrea estuvo reunido con el presidente Rafael Correa esta semana para presentar la propuesta que ahora se encaminará a los países europeos. El experto en políticas del desarrollo dice que el mandatario no sólo aprueba el plan como lo considera “uno de los pilares de su gobierno”.

Más que combatir el cambio climático, la Iniciativa Yasuní-ITT pretende impulsar la transición del modelo de desarrollo del Ecuador, actualmente basado en la extracción de petróleo, a una nueva estrategia equitativa y sustentable.

En la entrevista que sigue, Carlos Larrea explica cómo y por qué el modelo puede y debe ser adoptado por otros países del tercer mundo que deseen mantener sus reservas hidrocarburíferas indefinidamente intocadas a nombre de la preservación ambiental y de la biodiversidad.

¿Por qué dejar de explotar el petróleo del Yasuní-ITT?

Ecuador se ha transformado en un país exportador de petróleo en 1972. Esto no nos ha conducido al desarrollo y, además, creó una gran cantidad de problemas económicos y sociales. A diferencia de otros países, Ecuador no explota petróleo en un desierto, sino en la selva amazónica. El Parque Nacional de Yasuní es considerado una de las áreas de mayor diversidad del mundo. En una hectárea del Yasuní pueden encontrarse 100 mil especies de insectos y 618 especies de árboles y arbustos, que es más que las que existen en EEUU y en Canadá juntos. Otro punto importante es que dentro del parque sobreviven dos grupos indígenas no contactados, los tagaeri y taromenani, que han rehusado voluntariamente el contacto con la civilización occidental.

¿Cuáles son los objetivos de la propuesta?

Hay cuatro objetivos principales. La primera es mitigar el cambio climático. Al no sacar el petróleo, dejaría de quemarse toda la reserva del parque. El segundo objetivo es preservar la biodiversidad y todas las especies que podrían extinguirse debido a la actividad petrolera, por más limpia que sea. La idea no es solamente conservar el parque, sino ejecutar un plan en el cual todas las áreas protegidas del Ecuador pasan a un estado de conservación adecuado, con programas de deforestación evitada y reforestación. El tercer objetivo es promocionar un cambio en la oferta y demanda de energía en el Ecuador de tal manera que comencemos a ser una economía más sustentable. Queremos desarrollar la hidroelectricidad, energía geotérmica -nuestro potencial es muy alto porque tenemos la Cordillera de los Andes, somos un país volcánico-, energía eólica y solar. Finalmente, el otro objetivo es el desarrollo social en las áreas de influencia del proyecto, que va a evitar que la gente comience a destruir la selva para sobrevivir.

¿Cómo el fondo será administrado?

El fondo no llegará a Ecuador directamente, sino que va a formar parte de lo que se llama técnicamente fideicomiso internacional. O sea, va a ser administrado por un organismo internacional. No sabemos exactamente cuál organismo lo va a hacer, pero el mecanismo ya está constituido en Ecuador. El compromiso de este organismo es no gastar el capital, mantenerlo como una reserva permanente. Los intereses se invertirían en los fines ya mencionados, y el capital se invertiría en proyectos hidroeléctricos y de infraestructura en todo el país.

¿Cómo funciona la mecánica financiera que lo va a permitir?

Con el Protocolo de Kyoto, todo agente económico que vaya a contaminar tendrá que comprar permisos de contaminación. Estos permisos se subastan, los vende el estado. Si una empresa excede su permiso de emisión, tiene que comprar en el mercado nuevos permisos. De otra manera, tiene que pagar unas multas que son sumamente grandes. La idea es que nuestros aportes sean reconocidos en este mercado. Actualmente el mercado internacional de carbono no puede comprar estos derechos porque no existen estos mecanismos. Lo que queremos es que Europa establezca esto como un dispositivo posible que incluya a Ecuador y a otros países que puedan hacer lo mismo.

¿Qué haría con que las empresas apoyaran al proyecto?

Las empresas simplemente son empresas que compran estos certificados cuando los necesitan. Lo importante no es tanto las empresas, sino que los estados acepten que este tipo de certificado pueda ser utilizado en el mercado. Lo que planteamos, pues, es que los gobiernos de los países europeos acepten este mecanismo como un mecanismo nuevo. Si lo aceptan, entonces entran en el mercado. Así, si una empresa española, por ejemplo, necesita justificar sus emisiones comprando un certificado, puede comprar el certificado ecuatoriano como comprara un certificado del gobierno español.

¿En qué medida la Iniciativa Yasuní-ITT contribuye para el cambio en el modelo de desarrollo en el Ecuador?

La iniciativa permite que el Ecuador tenga recursos suficientes para abandonar el modelo extractivista. Esto no es una opción para el Ecuador, es una necesidad. A diferencia de Venezuela, Ecuador no es un país petrolero. Los yacimientos que tiene el Ecuador como reserva no durarán más de 20 años. Tal vez 25 ó 30. Ahora el petróleo representa casi la mitad de las exportaciones del país. Entonces, el Ecuador necesita un cambio. Todo país debe desarrollar su posición en el mundo de acuerdo con sus ventajas comparativas. Las nuestras son la biodiversidad y la enorme riqueza natural y cultural. Hay muchos países en el mundo que lo han hecho mucho mejor que Ecuador, por ejemplo, Costa Rica. Es un país con menor biodiversidad, que no tiene las Islas Galápagos, no tiene nuestra herencia histórica y no tiene la Cordillera de los Andes, pero ha desarrollado el ecoturismo de manera extraordinaria. Queremos que en el futuro el Ecuador sea un país que pueda proporcionar condiciones de vida adecuadas a su población sin necesidad de excluir la naturaleza.

¿Cómo la iniciativa puede ayudar a empatar la necesidad de desarrollo de los países más pobres y el combate a la pobreza con la necesidad de preservar el medio ambiente?

Lo fundamental es educación, salud y empleo. Uno de los objetivos de la iniciativa es el desarrollo social en las áreas de influencia del proyecto. ¿Por qué se está destruyendo la selva? Porque la gente necesita comer y muchas veces corta la selva para sembrar cacao o café o para vender la madera. Si es que nosotros les damos oportunidades de empleo adecuadas, para que vivan por ejemplo del ecoturismo, en lugar de ser un cazador el habitante de la región puede trabajar como guía turístico en la selva. O, en Galápagos, en lugar de practicar la pesca del tiburón, puede ser un experto en observación submarina. Esta persona, ¿qué necesita? Capacitación, algún equipo y contacto con los turistas. Estas pequeñas inversiones se pueden financiar con los recursos que van a venir.

¿Las inversiones van a depender del gobierno de turno o existirá un mecanismo que garantice la aplicación de los recursos en tales finalidades?

Será el estado que va a gastar los recursos, pero existe un Plan Nacional de Desarrollo que va hasta 2025. Entonces los proyectos solo pueden efectuarse si están dentro de este plan. No importa quien sea el presidente porque ya se han trazado prioridades nacionales en el mediano y largo plazo. Además, el fideicomiso estará administrado por los países que van a contribuir financieramente para la iniciativa. Ellos velarán justamente por el cumplimiento de estos objetivos. Si un nuevo gobierno quiere comprar armas, por ejemplo, no podrá, porque no va a recibir el dinero. El dinero no estará en el gobierno, sino en algún organismo internacional.

¿Es la primera propuesta del tipo en el mundo?

Hemos estudiado casos de países que tienen algunas propuestas, como Brasil, Indonesia, Costa Rica, Guyana etc. Hicimos un levantamiento de muchas propuestas en el mundo que en alguna medida se parecen, pero no hemos encontrado nada igual a la del Ecuador. Es la primera vez que se propone algo así. –tadeu breda (cc)

“vivir sobre una piscina de petróleo”

11/05/2009 § 2 Comentários

foto: raoni maddalena

Los animales están en contacto permanente con el crudo desechado a cielo abierto

Unas 30.000 personas sostienen su demanda contra la petrolera Texaco por daños ambientales en la selva ecuatoriana, donde muchos de ellos viven cerca de pozos que acumulan desechos de la explotación de hidrocarburos. Testimonios en la zona hablan de enfermedades recurrentes y abortos muy por encima de la media del resto del país

>> publicado en terra magazine

El campesino Manuel Salinas ya sufría de “terribles” dolores en el estómago cuando recibió en su propia casa la visita del presidente Rafael Correa el 26 de abril de 2007. Salinas llevaba entonces 23 años viviendo encima de una piscina de petróleo.

Cuando este agricultor de 70 años llegó a Shushufindi, en la Amazonía ecuatoriana, no encontró ninguna laguna negra en la finca que sería suya. Todo estaba taponado con tierra. Don Salinas hizo entonces lo mismo que hacía en Loja, de donde salió huyendo de una sequía: plantar para la propia subsistencia.

Pero poco a poco el crudo allí sepultado sin cualquier tratamiento empezó a brotar del suelo. Con el pasar de los días, Salinas empezó también a sentir que su salud empeoraba. Vinieron los brotes en la piel y, luego, los problemas gástricos. Hoy ya no puede trabajar.

foto: raoni maddalena

Don Salinas recoge un pedazo de petróleo endurecido de su finca

“Todo sale contaminado de esta tierra, por supuesto”, le dijo a Terra Magazine. Salinas, sin embargo, jamás dejó de comer el plátano, la yuca o el maíz que nace en sus tierras. Ha sufrido y tiene miedo de volver a sufrir con la contaminación, pero explica que no vislumbra otra alternativa. “Es la pobreza y la necesidad que nos mueve. Vamos confiando en Dios, que nos ayude y que nos favorezca. Todavía no nos hemos muerto.”

Juicio

Salinas es apenas una de las 30 mil personas -entre indígenas y campesinos- que se encuentran más directamente afectadas por una de las más grandes tragedias ambientales del mundo. Y que desde 1993 sostienen un juicio contra la empresa que creen ser la responsable por ello.

En 1964, la compañía estadounidense Texaco Inc. se instaló en el Ecuador. Para entonces había conseguido junto al gobierno una concesión de más o menos un millón de hectáreas para prospectar el petróleo escondido bajo la selva amazónica. Tres años después, la empresa perforó el primer de los cerca de 350 pozos que serían explotados hasta su retirada, en 1992. En 28 años Texaco extrajo alrededor de 1,7 mil millones de barriles de crudo.

El impacto ambiental y social dejado por la compañía son “incalculables”, según dijo a Terra Magazine el abogado Pablo Fajardo, del Frente de Defensa de la Amazonía. “El primer daño que causan es el desplazamiento de los pueblos ancestrales que ocupaban la región. Conforme la empresa arrojaba aguas tóxicas y petróleo en el medio ambiente, los pueblos se fueron replegando. Algunos de ellos -como los tetetes y sansahuaris- desaparecieron por completo.”

Fajardo explica que -para maximizar sus ganancias- la empresa no siguió los parámetros de protección medioambiental vigentes en la época. Texaco, por ejemplo, no reinyectaba en el suelo los líquidos tóxicos originados en el proceso de perforación, conocidos como “agua de formación”. Además -cuenta Fajardo- para cada pozo la compañía construyó dos, tres o cuatro piscinas en las cuales arrojaba todo tipo de desechos tóxicos.

“Texaco hizo más o menos mil piscinas y arrojó 18 mil millones de galones de agua de formación directamente en los ríos de la zona. Hubo cientos de derrames de petróleo que nunca eran remediados. Además, regaban petróleo en todas las carreteras de las ciudades y de acceso a los pozos. Con la lluvia, el crudo obviamente iba a parar en los ríos”, dice Fajardo, que vio todo con los propios ojos.

“Ya se van 18 años que se fue Texaco, pero hoy día aún existen evidencias visibles, aún se pueden ver algunas piscinas que están expuestas y otras que están taponadas”, recuerda.

Mechero que hoy es operado por Petroecuador

Mechero que hoy es operado por Petroecuador

La vecindad

A una distancia de diez metros de la casa de don Salinas se encuentra el pozo número 38 excavado por Texaco en los años 1970. Fue a través de este pozo que chorreó el petróleo que hoy inunda parte de la finca. Este mismo pozo -ya agotado- es utilizado hoy por la estatal Petroecuador para reinyectar el agua de formación que se origina de la extracción petrolífera de otros yacimientos.

Pero un día el tubo que llevaba el líquido tóxico para el subsuelo se rompió a pocos metros de la superficie. El agua putrefacta se filtró en la tierra y llegó al acuífero subterráneo de donde don Salinas sacaba el agua para beber, cocinar y bañarse. Fue entonces que empezaron sus enfermedades gástricas.

Al acercarse del pozo de agua utilizado por la familia Salinas, el presidente Rafael Correa dijo a sus asesores: “Eso huele a gasolina”.

La escena está en el documental Crudo, que acaba de estrenar en Quito como parte de la octava edición del festival internacional Encuentros del Otro Cine (Edoc). “Cuando vi lo que hizo Texaco en Ecuador, sentí vergüenza de ser estadounidense”, dijo Joe Berlinger, director de la película más completa ya rodada sobre el juicio que mueven los ciudadanos ecuatorianos contra el millonario equipo jurídico de Texaco, que hoy se llama Chevron. En juego está una indemnización de 27 mil millones de dólares.

Reparación

“Nosotros en este juicio queremos la reparación del daño ambiental. No estamos pidiendo plata para ninguna persona en particular. Lo que la gente quiere es que se repare el daño que sufrimos en todo lo que sea posible”, explica Pablo Fajardo. “Sabemos y reconocemos, entre tanto, que el mayor daño es absolutamente irreparable”.

Como los perjuicios a la vida de la campesina Melania Chama, por ejemplo. Igual que Salinas, Melania vive encima de una piscina de petróleo taponada sin tratamiento previo. Su casa se ubica a pocos metros del pozo de extracción número 27, que hoy es explotado por Petroecuador. Allí una pequeña torre quema día y noche el gas que sale de la tierra junto con el petróleo. En sus 40 años de vida, Melania ha sufrido cinco abortos espontáneos. Nadie -ni los médicos- saben explicar por qué.

Melania vive encima de una piscina y al lado de un mechero

Melania vive encima de una piscina y al lado de un mechero; ha sufrido cinco abortos

Pablo Fajardo añade que el informe pericial producido por el experto independiente de la Corte de Justicia ecuatoriana determina que la incidencia de cáncer en la región se incrementó en dos mil casos por encima del promedio nacional.

“Veamos lo que por lo menos se puede reparar. Si limpiamos los tóxicos que están en estas piscinas, los sedimentos de los ríos, de los pantanos, limpiamos lo que genera que todavía la gente siga muriéndose, creemos que ya es mucho y puede devolver en algo la dignidad de la gente que vive en la zona”.

Dignidad

Es esta dignidad perdida que busca Santiago Chiriapa, promotor de salud intercultural de la comuna Yamanunka, en donde viven 1.420 indígenas de la etnia shuar. “Hay 28 pozos petroleros funcionando dentro de la comunidad, por el que deberíamos ser una de las mejores comunidades del país. Sin embargo, no tenemos acceso a los servicios básicos de agua potable o alcantarillado”, dijo a Terra Magazine.

Chiriapa explica que algunas muertes repentinas en Yamanunka le hicieron investigar la calidad del agua en la comuna. Pidió ayuda a universidades y ONG de Quito y -después de tres años de análisis- llegó a la conclusión de que los indígenas están ingiriendo cantidades considerables de plomo, arsénico e hidrocarburos junto con el agua.

Luis y su familia son shuar y viven en Yamanunka; se quejan del agua de mala calidad que consumen

Luis y su familia son shuar y viven en Yamanunka; se quejan del agua de mala calidad que consumen

El director del Hospital de Shushufindi, Jorge Herrera, concuerda con ello. “El agua de nuestros ríos no está apta para consumo humano debido a la contaminación por residuos de hidrocarburos”.

Culpa del estado

Así las cosas, Chevron-Texaco se defiende: “Comprendemos la difícil situación a la que se enfrentan los residentes del Oriente ecuatoriano. Las principales inquietudes en el campo de la salud no son el resultado de las operaciones petroleras, sino que se deben a la falta de infraestructura para tratamiento de agua, la deficiente infraestructura de saneamiento y el acceso insuficiente a la atención en salud”, relata un informe de la empresa.

Por eso, la compañía “rechaza firmemente la idea de que se le atribuya la responsabilidad de resolver los problemas de la región en su conjunto, los cuales resultan de la indisposición o incapacidad del gobierno y la petrolera estatal de cumplir con sus obligaciones”.

Después de 16 años, en 2009 el juicio debe llegar a una decisión. Obviamente, cualquiera de las partes podrá recurrir de la resolución del juez Juan Núñez Salábria, presidente de la Corte de Justicia de Sucumbíos. Según el abogado de los demandantes, a partir de octubre el magistrado ya tendrá condiciones de emitir su primera sentencia.

Fajardo -que ya ganó reconocimientos de la CNN y de la Fundación Goldsmith por su actuación en el caso- no ve posibilidades de derrota.

“Creo que lo más perverso e injusto sería que el juez sancione a favor de Texaco. Fueron hechas 55 inspecciones judiciales y en todas se demuestra que hay contaminación por hidrocarburos, que se ha perjudicado la salud humana, que pueblos indígenas están afectados, que había intención de Texaco en causar el daño, que lo hacían por cuestiones económicas”.

A pesar de estar en la lucha contra Texaco desde 1993, empero, Pablo Fajardo no se dice contrario al petróleo. “Desgraciadamente, hoy el petróleo es la principal fuente de energía del planeta. Mientras no haya alternativas eficientes y suficientes, tendremos que manejarlo”, reconoce. “Lo que no puede admitirse es que para obtener un recurso hidrocarbonífero se sacrifiquen vidas humanas, pueblos indígenas, ecosistemas y el tesoro real que tiene el mundo y el país”. –tadeu breda (cc)

trem para alguns

29/04/2009 § Deixe um comentário

“Nós temos uma estrada de ferro que liga Santos a Corumbá e que, portanto, liga Santos a Bolívia. O mais grave é que a estrada na Bolívia está pronta, na Argentina está pronta, no Chile está pronta até o porto de Antofogasta, e o nosso pedaço, aqui dentro, que custa apenas 80 milhões de reais, está paralisado há muito. E nós vamos ter que fazer com que essa ferrovia volte a funcionar. O problema não é muito custoso, trata-se apenas do problema de conserto dos dormentes e de alguns trilhos que se estragaram ao longo do tempo. O que foi grave no Brasil é que não só não se fez as coisas novas que precisariam ser feitas, como não se fez corretamente a manutenção daquilo que precisaria ser feito”

Lula, 15 de março de 2004 

:: por joão peres ::

Apenas R$ 80 milhões. Cinco anos depois e só agora a ferrovia que corta parte do Pantanal começa a voltar às operações, mas apenas para inglês ver. Num primeiro momento, pelo menos, as populações locais não usarão um trem que poderia facilitar o deslocamento a regiões pouco assistidas pelo transporte rodoviário. A ideia é que o Trem do Pantanal seja meramente turístico – e não liga Santos a Corumbá.

http://www.trenparatodos.com.ar

Não é um caso isolado. A política do governo atual para as ferrovias está longe de ser perfeita. Oficialmente, o país tem mais de 57 mil quilômetros de trilhos em operação, contabilizados aqui também os trens urbanos. Fora das grandes cidades, o transporte de passageiros é irrisório: RFFSA, Fepasa e Vale, que assumiram o controle ferroviário de importantes trechos graças à política “privatória” de FHC, ignoram que há populações necessitadas de condução. Outras duas concessões, EFVM e EFC, levam por ano menos de um milhão e meio de passageiros. Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres, 300 mil a menos que o número registrado antes do desmonte do setor.

Agora, quando o Brasil comemora a entrada no grupo dos prestigiados países amigos dos ricos, vem com toda a força um projeto que não pode deixar de nos levar às memórias del subdesarollo. Anunciado com toda a pompa, o trem bala ligando Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro deve ser licitado ainda no primeiro semestre com um orçamento previsto em US$ 11 bilhões (setores do governo admitem que o investimento pode ser maior, de US$ 14 bi). Tudo isso por um trecho de menos de 500 quilômetros e que depois deve ser administrado pela iniciativa privada.

O discurso de 2004 do presidente Lula mostra o quanto o projeto do trem bala é caro: o custo para reativar os trilhos entre Santos, litoral de São Paulo, e Corumbá, fronteira brasileira com a Bolívia, seria de R$ 80 milhões. Para um trecho de 1.500 quilômetros. Uma conta simples mostra que o preço do quilômetro seria de R$ 53 mil. No caso do trem bala, algo como US$ 22 milhões por quilômetro. Ou seja, pela cotação atual do dólar e pelas contas do presidente Lula, 2 quilômetros de trem bala seriam suficientes para reativar 1.500 quilômetros de trilhos tradicionais – e ainda sobra troco.

Na Argentina, um grupo chamado “Trem para todos” fez as contas e mostrou quão inteligente é focar em ferrovias convencionais: com um investimento de US$ 3,1 bilhões, quase dois bilhões a menos que o que seria investido no trem bala entre Rosário, Córdoba e Buenos Aires, seria possível reativar 18 mil quilômetros de trilhos, sete mil deles para uso de passageiros. A reversão do processo levado a cabo por Carlos Menem, mais do que isso, geraria a reativação de economias locais e possibilitaria a todos viajar por preços acessíveis e a boa velocidade, em torno de 120 quilômetros por hora.

Segundo o projeto de trem bala desejado pelos Kirchner, a Argentina ficaria durante 30 anos dependente da tecnologia francesa da Alstom [sem entrar nos méritos de uma empresa que, no ano passado, esteve envolvida em escândalos de corrupção da ponta do Alaska a Ushuaia], pagando à empresa subsídios que fariam os gastos aumentarem vertiginosamente. Lançada em 2006 por Néstor, a proposta foi arquivada recentemente por Cristina que, pelo secretário de Transporte, Ricardo Jaime, admitiu: o projeto não encontra quem o banque ou, nas palavras do diário Critica de la Argentina, descarrilou.

Em “La próxima estación” (disponível para download na internet e em exibição em algumas salas de Buenos Aires), o documentarista Fernando Solanas mostra o desmonte do setor ferroviário ao longo da história argentina. Mas vale a pena focar-se na década menemista (1989-99), quando os trens foram privatizados sob a alegação de que davam prejuízo de US$ 1 milhão por dia – hoje, custam US$ 3 mi por dia ao Estado graças aos subsídios, mas com apenas 20% da malha inicial operando. Aparte isso, os roubos e acidentes cresceram vertiginosamente e a desativação de vários trechos deixou povos isolados. É o caso de Patrícios, cidade que tinha 6.000 habitantes e, depois de Menem, tem apenas 600 saudosos que esperam pelo dia em que retornará o trem. Além disso, a supressão do transporte ferroviário sobrecarregou o uso de automóveis, que hoje são uma das principais causas de mortes na Argentina (8.100 pessoas por ano, em média), muito acima de homicídios, por exemplo.

Jorge Rúben Contestí, ex-ferroviário e autor do livro “La República que ¿perdió? el tren”, apresenta os investimentos necessários para a recuperação. A renovação de 40% dos trilhos teria um custo de US$ 169 mil por quilômetro nos trechos de passageiros e de US$ 49 mil nos trechos usados apenas para transporte de carga. Com materiais e mão de obra, menos de US$ 2 bi, além de outros US$ 370 milhões com locomotoras nas primeiras três décadas. Os gastos de manutenção também são muito mais baratos: seriam economizados 37 milhões de litros de combustível ao ano apenas com os trens cargueiros.

Leonardo Rico, integrante do Tren para Todos em Rosário, Argentina, conversou conosco sobre o desmonte do setor ferroviário no país e como se fez para brecar o projeto de trem bala.

Em primeiro lugar, gostaria que falasse como foram desenvolvidos os estudos para provar, por exemplo, que o investimento seria bem inferior ao do trem bala. Vocês falam que os custos com o trem bala podem chegar a 14.000 milhões se considerarmos os próximos 30 anos.

 

Em um estudo publicado no livro “La república que ¿perdió? el tren. Análisis y proyecto para refundar el ferrocarril en la Argentina”, Jorge Contestí, especialista em temas ferroviários, calcula o custo de reativar 18.000 quilômetros de vias: 7.000 para trens de passageiros e de carga e 11.000 a mais somente para trens de carga. Umas 300 locomotivas novas, 900 vagões de passageiros e 15.000 de carga por um custo de US$ 3,1 bilhão (com base em cálculos do ano de 2005). Um trem de alta velocidade é muitas vezes mais caro que um trem de velocidade normal (entre 120 e 160 km/h) para passageiros. Além disso, há os custos de manutenção posteriores que acarretaria o trem de alta velocidade e o alto consumo de energia. O trem bala não permite o transporte de carga e nos endivida por 30 anos a US$ 14 bilhões segundo o contrato com a empresa francesa Alstom. 

Como o movimento começou a se organizar e por que alcançou tamanha importância? Há uma “Argentina latente”, como supõe Fernando Pino Solanas?

 

O movimento surge de uma necessidade de recuperar o transporte terrestre mais econômico, ecológico e popular que tinha o nosso país. Existe uma “Argentina latente” que sabe que o trem é estratégico para avançar em um projeto de país para todos.

Em abril de 2008, em um grupinho começamos a nos reunir todas as terças-feiras e convidamos outras pessoas para que se somassem (ferroviários, organizações sociais e políticas que estejam de acordo com o projeto). Organizamos atos públicos para debater e explicar nosso projeto e promovemos um referendo popular sobre dois pontos: a reconstrução do sistema ferroviário nacional, estatal, controlado por usuários e trabalhadores; e a anulação do trem bala. Fizemos uma página na internet para que se pudesse assinar de forma eletrônica e nos comunicarmos. Essa iniciativa obteve um apoio massivo muito rapidamente e desde então crescemos e fomos nos organizando por todo o país. Alguns dos pontos que saíram foram os seguintes: entender o Tren para Todos como um movimento social que não pertence a nenhuma agrupação em particular, mas à maioria da população; Ter uma proposta convincente baseada em um trabalho sério, além de nos opormos ao projeto oficial; Lançar o referendo em todo o país e realizar atividades públicas; Utilizar a página na internet como meio massivo de comunicação. E tudo isso sobre a base do grande suporte de referentes sociais como Pino Solanas e a força de milhares de vontades e organizações que já vinham reclamando pela volta dos trens.  

Os investimentos de US$ 3,1 bi contemplam simplesmente a reativação das linhas que antes existiam ou será necessário construir novos trilhos?

 

O projeto, em uma primeira etapa, contempla recuperar o traçado ferroviário existente. Mas não gostaríamos de ficar por aí, queremos cruzar transversalmente a rede ferroviária com novos trilhos para unir as províncias de Noroeste e Nordeste com projeções para os países limítrofes. É um desafio do Tren para Todos e um objetivo da unidade latinoamericana. 

O trem bala tem como reativar a indústria ferroviária nacional? Há algum estudo que mostre qual a diferença no número de passageiros contemplados pelo trem bala e pelo convencional?

 

O trem bala implica dependência tecnológica da França. Recuperar o Tren para Todos significa estimular a indústria metal-mecânica, baixar o custo do transporte de carga, a reativação de oficinas e escolas em todo o país. Tren para Todos se faria investindo a maior parte do dinheiro da Argentina e de países do Mercosul, como o Brasil em caso de necessitar importações, de modo que o dinheiro ficaria na região e estimularia nosso desenvolvimento industrial regional.

Há estudos que demonstram que na Argentina não é viável o trem bala porque não haveria suficiente demanda de passageiros, além do preço da passagem Rosario-Buenos Aires (350 quilômetros), que seria comparável ao que custa viajar em avião, entre 350 e 500 pesos. O preço de um trem que viaja a 120 km/h poderia sair por 20 pesos. No trem bala viajariam os 11 jogadores do Palmeiras (a minha equipe de coração no Brasil), ao passo que no trem convencional viajaria toda a equipe mais a torcida. Hoje em dia há centenas de milhares de pessoas que viajam em péssimas condições e obrigadas a pagar preços de empresas monopólicas em estradas e rodovias colapsadas, e vem nos falar de trem bala… Construir o trem bala é diretamente transferir recursos desde as maiorias para as multinacionais estrangeiras e manter um serviço subsidiado por todos para um grupo reduzido de executivos e turistas VIP que poderão escolher entre viajar de avião ou de trem bala… É um desgaste que não podemos permitir. 

Em que pé está o projeto de trem bala na Argentina?  

O trem bala está “em espera” por causa do custo político que o governo não pode afrontar devido ao rechaço que desperta em toda a sociedade. As pessoas fazem filas para assinar as listas. Além disso, a crise econômica deixa às claras esta negociação imposta pelo Clube de Paris, diretamente relacionado com a renegociação de nossas dívidas externas fraudulentas. 

Nos governos ditatoriais sul-americanos, em especial aqueles sob as asas da Operação Condor, a privatização de ferrovias (e de outros bens públicos) foi bastante comum. Mas, na Argentina, antes o setor já havia sofrido um desmonte. Como foi? E como funcionou a reversão durante os governos de Perón?

 

Como disse um grande defensor do nosso patrimônio público, Scalabrini Ortiz, a história das ferrovias “reconforta, assombra e indigna”. A ferrovia argentina nasce em 1854 e desde então esteve vinculada a diversos interesses em ocasiões contrapostas. A extensão da fronteira com o índio, o desenvolvimento e a integração regional com as ferrovias estatais, os interesses imperialistas ingleses e franceses, que pressionam para apoderar-se e controlá-lo, a renacionalização em 1946 e finalmente o lobby automotor que iniciou o retrocesso e que continua até hoje. Desde o começo, a ferrovia em mãos do Estado demonstrou que era mais eficiente que nas mãos privadas e realizou uma tarefa essencial de integração e fomento regional. Quando esteve em mãos inglesas e francesas, primou pelo interesse de fazer lucros extraordinários e servir para extrair matéria prima exportável aos grandes centros industriais. A renacionalização durante o primeiro governo peronista foi positiva para um projeto de independência econômica do país. Já em 1958, no governo Frondizi, o plano que obedecia às linhas impostas pelo General estadunidense Larkin marca uma inflexão e o trem começa a ser desbancado pelo transporte automotor impulsionado pelas grandes montadoras. Na última etapa, a partir da ditadura de 76, com terrorismo de Estado e liberalismo econômico, e especialmente durante o menemismo dos 90, o abandono, o corte de financiamento e a sabotagem externa e interna das empresas públicas abriram o caminho para a liquidação das ferrovias. 

Voltando a falar de Pino Solanas e de privatizações, em “La próxima estación” ele narra o caso de Patrícios, uma cidade que praticamente desapareceu depois do desmonte promovido por Carlos Menem no setor ferroviário. Não é um caso isolado, não? Como a reativação de 18 mil quilômetros de linhas mudaria as realidades locais?

 

Logo do fechamento e saqueio das ferrovias, 800 povos do interior se converteram em “povos fantasmas”, milhares de pessoas são expulsas aos cinturões de pobreza das grandes cidades e as rodovias colapsam, provocando mais de 8.000 mortes em acidentes de trânsito só em 2008. Há numerosos estudos a respeito: “Ferrocídio”, de Juan C. Cena, é testemunha disso, mas basta percorrer o interior do país para deparar-se com estações abandonadas e povos deprimidos que esperam a volta do trem para reviver. O trem levava e trazia as famílias, transportava pequenas conduções regionais, dava trabalho, levava água a regiões que necessitavam, integrava o país. Por isso, a volta do trem é necessidade de todo o interior. Além disso, façamos uma conta muito simples: o transporte de carga a grandes distâncias por trem é quatro vezes mais econômico que o transporte automotor. 

Ainda em relação a Menem, para quem não viu o filme, qual o destino tomado pelo patrimônio das empresas estatais de ferrovias? Hoje, o governo segue subsidiando essas companhias? Em troca, o que recebem os usuários? 

 

O destino foi o saqueio, o desmantelamento e a venda de locomotoras e vagões como sucata, o roubo de tornos, trilhos, galpões inteiros. Hoje em dia, o governo subsidia as empresas ferroviárias concessionárias que só mantêm um mínimo de sistema em mau funcionamento e se esqueceram do transporte de passageiros. Nenhuma dessas empresas privadas fez os investimentos prometidos por contrato e, no entanto, cobram subsídios milionários. Na Grande Buenos Aires, um dos poucos lugares do país que ainda tem transporte de passageiros, as pessoas viajam como gado e frequentemente “explodem” em reação ao péssimo serviço, descarregando sua ira, quebrando ou incendiando os vagões, que logo o mesmo Estado se fará responsável por reparar… 

No Brasil, está em forte andamento um projeto de trem bala para conectar São Paulo e Rio de Janeiro com investimento de US$ 11 bi para um trecho de 500 quilômetros. Vocês já tiveram algum contato com o tema, conversaram com alguma organização por aqui?

 

Sabemos do projeto São Paulo-Rio, mas não tivemos contato com grupos brasileiros. Conversamos sim com organizações italianas e bascas que se opõem à construção de trens similares em seus respectivos territórios por questões de meio-ambiente, econômicas, geográficas e de prioridades no investimento público. Gostaríamos muito de poder ter contato com organizações brasileiras por esse tema. 

Parece contraditório que governos ditos de esquerda priorizem um projeto que é claramente elitista? 

Na Argentina, a classe média não teria acesso ao trem bala, apenas uma classe “VIP”, muito reduzida. Por aqui, o que acontece é que uma coisa são os discursos, e outra as medidas reais. Subestima-se demasiadamente a população ao querer convencê-la de projetos faraônicos e envolvidos em uma máscara de progresso.

Para nós, há algo que está muito claro: o trem bala não surge de uma necessidade de nosso país, de nosso povo, ninguém por essas pampas pediu nem discutiu isso. É uma imposição que responde a outros interesses.

O Tren para Todos, por outro lado, é pedido por milhares de povos e cidades. É, sim, nossa necessidade social, econômica e socioambiental. (cc)

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