indígena peruana todo mundo fala que é terrorista

25/07/2009 § Deixe um comentário

Mais de um mês se passou desde o conflito que deixou dezenas de mortos na selva peruana. Neste período, ministros caíram, a popularidade de Alan García, que já era baixa, chegou ao pior nível imaginável, e o Congresso derrubou os decretos contra os quais os indígenas se manifestavam.

Mas a vida das comunidades originárias só piorou. Depois de Alberto Pizango, os irmãos e líderes Saúl e Cervando Perta Peña pediram asilo à Nicarágua alegando falta de segurança no país.

Lourdes Huanca Atencio, presidenta da Federação Nacional de Mulheres Camponesas, Artesãs Indígenas, Nativas e Assalariadas do Peru (Femucarina), confirma que “todas nossas famílias estão desamparadas, bem como nossos companheiros que estão fora do país porque a Justiça do Peru não lhes dá garantias”.

A líder indígena aimará de Moquegua conversou conosco por telefone sobre a situação dos camponeses no país. Emocionou-se várias vezes ao falar do preconceito sofrido pelas mulheres peruanas, da morte do irmão que se opôs às multinacionais e da violência contra o filho, que lutou por direitos trabalhistas.

Afirmando que é preciso ter força para seguir lutando, Lourdes Huanca comentou os episódios em Bagua e os desdobramentos no movimento indígena, além dos fatos de 2003 em Ilave, sul peruano, onde um prefeito acusado de corrupção foi morto pela comunidade.

Você acredita que o machismo no Peru é um reflexo da colonização ou vem deste antes?

Para nós, como mulheres, dirigentes e camponesas, muitas vezes é difícil assumir responsabilidades. No nosso país reina o patriarcalismo machista. Por isso, é de grande valor esse evento. Creio que vem desde antes da colonização porque na história mesmo de cada país sempre eram os homens os senhores, os reis, e as mulheres eram as serventes. Na cultura de nosso país, o homem tem a razão, é o dono da casa, o que enfrenta a situação.Claro que a colonização dá  mais força a isso. Os homens puderam entrar na universidade e nos colégios com 50 anos de vantagem. Imagine você como temos que lutar agora para poder levar nossas filhas às escolas. Porque muitas vezes, quando o dinheiro não é suficiente, e tem um filho e uma filha, quem vai para a escola é o homem.

Penso que você sofre dois preconceitos no Peru: ser mulher e ser indígena.

As mulheres temos muito mais vezes problemas para poder assumir responsabilidades. Eu, como presidente, tenho de ajudar a formar, a dar capacitação no que eu aprendo. Por exemplo, isso que estou discutindo aqui, devo ir até as províncias e dividir, participar, porque é algo que não deve morrer nos dirigentes. Com isso, tenho de deixar minha casa. Pelo menos consigo que meu esposo e meus filhos me compreendam, mas não é assim com os outros. Você tem de brigar para fazer frente a uma proposta, para conseguir falar. Outra coisa é que a economia afeta mais as mulheres. Sentimos mais rápido porque o que colocamos na mesa de nossos filhos somos nós, mulheres, que sabemos. Sua família não lhe entende, o sistema não lhe entende e reina o patriarcalismo. Ou o matriarcalismo, porque muitas mães, irmãs, quando você está discutindo algo, dizem que ‘está agindo como homem’. Não te dão razão, não te apoiam na luta. Há um racismo radical. O homem, quando vê que a esposa está avançando, sente ciúmes e faz com que ela não cresça. É um medo tonto. Se os dois ganham poder ao mesmo tempo, temos força para poder defender nossa terra e nosso território, nossa água, nossa semente que nos querem levar.Isso mostra que as mulheres devemos lutar até mesmo dentro de nossa casa, de nossa sociedade e no capitalismo neoliberal.

Qual importância do que ocorreu em 2003 em Ilave?

Um ponto fundamental é  que não temos direito de tirar a vida de ninguém. Para isso há  leis. Se uma pessoa cometeu um erro, há a cadeia para isso. Tirar a vida é o pior que podemos imaginar, somos todos humanos. O que ocorreu em Ilave? Não existiu comunicação. As autoridades, quando assumem seus cargos, esquecem do povo, esquecem-se de que foram povo. Decidem sem consultar os seus, enganam, pensam que não sabemos pensar.Como mulheres camponesas, não estamos de acordo com a matança, ainda que respeitando a cultura de cada zona. Temos no país três mundos diferentes: a zona andina, a Amazônia e a cidade são mundos diferentes. Na selva, que houve a matança agora, para aquelas comunidades matar não é tão grave quanto para nós na zona andina. Isso temos que saber entender.

A nova Constituição boliviana reconhece o direito indígena de organizar sua própria justiça e de autoadministrar-se. Isso representa uma conquista dos altiplânicos?

Parece muito importante uma Constituição a favor de um povo esquecido, mas deve-se ter muito cuidado de que não se entenda da maneira errada e se comece a matar seres humanos. Temos de por as coisas claras no sentido de que temos o direito de organizar-se, de administrar nossas terras, mas isso não nos dá o direito de tirar a vida de alguém.

Como vocês receberam a notícia do que ocorreu em Bagua no mês passado?

Afetou-nos demais. Mas há  um responsável. E tem nome próprio: é o presidente da República. Alan García e todo seu gabinete ministerial por não terem a capacidade de governar para seu povo e para seu país. Estão governando para os interesses de transnacionais. Em seus discursos, afirmam que os camponeses e os amazônicos somos de terceira classe. Por que nos dizem isso? Porque nós não queremos que se venda a água, que se privatize a água, não queremos que se viole nosso território, nossa cultura. Não queremos que nos agarrem e nos forcem a aceitar seus costumes. Por exemplo, nós defendemos nossas sementes criollas (do altiplano, convenacionais). Hoje, com o tratado de livre comércio, querem impor as sementes transgênicas.

De que maneira o ocorrido em Bagua teve conseqüências no movimento indígena?

Piorou a criminalização dos protestos sociais. Todos os dirigentes, homens e mulheres, somos considerados terroristas. Todo o que fala, que protesta é terrorista. Todas nossas famílias estão desamparadas, bem como nossos companheiros que estão fora do país porque a Justiça do Peru não lhes dá garantias. Te deixam doente, te deixam doente, te matam. Já ocorreu em 1985, já  ocorreu alguns anos atrás quando mataram alguns camponeses. Somos tratados pior que animais. Como é que podemos lutar para sobreviver neste país? Não nos consideram como seres humanos. A impotência é tão grande.

Como estão as lutas camponesas altiplânicas?

A vantagem do que aconteceu em Bagua é que trouxe consciência tanto ao campo quanto à  cidade. Hoje, diz-se que temos que nos levantar para defender nossa luta porque o país estava adormecido. Éramos muito poucos os que saíamos para lutar pelo temor da violência política. Seguimos vivendo em um tempo em que as empresas grandes querem avançar com tudo. Se não despertamos, não poderemos viver tranquilamente e com uma vida digna. O povo está  encolerizado e tomou consciência de que temos de unir o campo e a cidade.Sabemos que o atual presidente e seu gabinete têm uma política capitalista neoliberal. Isso nos faz saber que há uma necessidade e uma urgência de chegar ao poder, estar em uma grande maioria dentro do Congresso. Hoje, temos sete companheiras que lutaram muito para derrubar esses dois decretos que tiravam a terra de nossos irmãos. Mas, por lutar que nos respeitem, essas congressistas e outro companheiro foram tirados, foram expulsos. Por que não pode chegar um Evo Morales, um Hugo Chávez, um Fidel Castro ao Peru?

Assim como a Bolívia, o Peru tem majoritariamente indígenas e mestiços em sua população. Como explicar que chegue ao poder sempre uma mesma elite branca?

Lamentavelmente, no nosso país existe isso de que estamos falando: o racismo, a discriminação. Muitas pessoas que vivem na cidade perguntam ‘que você vai saber propor? Um camponês vai saber se expressar?’. Isso é uma dor. Mas agora está chegando à cidade a ideia de que é preciso unir homens e mulheres, campo e cidade. Os golpes da vida ensinam a unir as forças. Estamos em nossos passos para conseguir um governo de um camponês ou de um indígena correto em igualdade, em princípios. Porque nós tivemos um presidente indígena, Alejandro Toledo (2001-06), que tinha a mente imperialista, a mente de gringos. De nada valeu ter um presidente que tinha o rosto indígena.

Como tem sido a atuação de empresas de biotecnologia no Peru?

Estão muito fortes as empresas mineiras que querem a terra e a água. Várias empresas transnacionais. E agora a Monsanto chega ao Congresso para dizer a maravilha que o mundo pode conseguir com a tecnologia transgênica. Isso é um crime. Nos querem fazer consumistas. Nós semeamos, colhemos, escolhemos os produtos maiores, voltamos a semear, voltamos a colher. Com as sementes transgênicas, sabemos que se semeia uma vez e depois já não se pode produzir. A Monsanto, monopolista, sempre vê somente seu bolso, somente o dinheiro é fundamental e por isso continuam apoiando governos a favor desta economia capitalista com leis para nos tirar a água. Não quero deixar de citar a militarização. No Peru, dissimuladamente, pedem que se radique a folha de coca porque faz dano ao mundo. Em primeiro lugar, a folha de coca para nós é fundamental. Mastigamos a coca contra o frio. Não somos os responsáveis por converterem essa folha de coca em cocaína em outros países. Está ocorrendo o que passava nos anos 80, soldados maltratam cidadãos que vivem por aí, abusam das jovens, elas são violadas e vivem com medo. Quando alguém vai se mobilizar, te matam. Essa é a lei.

A coca e a agricultura são parte de uma cultura milenar de vocês.

E que nós sempre conservaremos. Pelo helicóptero, o governo trata de fumigar quimicamente a terra para que não volte a produzir. Matam a Mãe Terra (Pacha Mama). Isso dói na alma. Se matam a terra, de que vai viver o camponês? Sem Pacha Mama, sem água, sem semear não há vida. Por isso pedimos que nos escutem, nos ajudem a respeitar nossa terra. Ajudar a cuidar o sangue da terra, que é  a água. Nós, humanos, sem sangue não caminhamos, não é? A terra, sem água, que é seu sangue, não pode sobreviver. Temos de conservar a vida. –joão peres (cc)

Anúncios

Onde estou?

Você está navegando atualmente a perú categoria em Latitude Sul.