semiautobiográficos, 1

20/06/2009 § Deixe um comentário

Quando vi que se formou uma Comissão para Defesa dos Interesses Estudantis da USP, imediatamente pensei no Comitê Cívico Pró-Santa Cruz. As semelhanças são imensas. Mesmo que se deixe de lado as coincidências ideológicas, a finalidade é a mesma. Trata-se de um grupo que se coloca como portador dos anseios de um setor da sociedade e, a partir disso, gera artificialmente novas demandas.

Mais do que isso, intitulam-se, frente à preguiça alheia, os donos de uma democracia delegativa, em detrimento da participativa e, mesmo, da representativa. Tranquilizam, assim, os setores mais conservadores da sociedade, ansiosos por ver alguém que leve adiante políticas de oposição àqueles que buscam saídas democráticas para os debates. Pode-se dizer, em última instância, que tanto o grupo paulistano quanto o crucenho têm dificuldades em aceitar os resultados da democracia quando esses não lhes convêm.

Seria o caso das assembleias da USP? Muito provavelmente. É muito mais simples dizer que o foro não tem legitimidade e que os setores conservadores não são aceitos nas discussões. Alega-se que, no geral, as assembleias são realizadas em locais favoráveis à esquerda, como FFLCH e Educação. Oras, se ninguém da sociedade externa pode ser privado de ingressar na Cidade Universitária, por que alguém da própria comunidade seria barrado em uma assembleia que ocorre dentro dos muros da Universidade? Particularmente, nunca vi algo do gênero ocorrer. Pelo contrário, recordo-me perfeitamente que, em 2005, a greve foi derrubada na ECA por contrários ao movimento que, sem participar das discussões, chegaram nos últimos minutos e votaram – ninguém contesta a possibilidade de votação, mas a validade ética da ação é, no mínimo, questionável.

Surge, a cada greve, uma nova forma de organização da direita contra o movimento. Desta vez, para deslegitimar as assembleias, são organizadas votações via internet. Evidentemente, muito mais pessoas votam, mas não se atenta para um “detalhe” nada irrelevante: a votação virtual ignora a necessidade de debate de ideias, característica sine qua non da democracia.

Se a questão é “jogar em casa”, seguramente haveria apenas a necessidade de disponibilizar um espaço que atendesse às condições propostas por Poli, FEA, São Francisco e afins. Na Bolívia, o Comitê Cívico Pró-Santa Cruz também só sabe jogar dentro do próprio estádio. As sofridas “greves de fome” contra o governo federal ocorrem em opulentas casas da rica Santa Cruz de la Sierra. Por lá, os oposicionistas a Evo Morales convocam referendos ilegais e geram, com apoio da mídia pouco confiável, demandas antes inexistentes na sociedade.

Não que o surgimento de novas demandas não deva ocorrer, longe disso, visto que é pressuposto da qualidade democrática do Estado. Mas, ao que parece, vários dos anseios de setores da sociedade boliviana foram impostos a outras classes por meio de uma insistente campanha daqueles que, novamente aproveitando-se da preguiça alheia, geram vontades que não existem de fato.

A situação atual na USP muito tem a ver com isso. Os grupos são do mesmo gênero que, em 2005, fizeram o filme Sintusp Wars, realização de alunos da Poli que hoje conta com quase 70 mil exibições no Youtube. Durante os 17 minutos, a produção ironiza o ativismo político de alunos da FFLCH e, pior, o sotaque nordestino dos dirigentes sindicais. Mostra-se assim a presença na Universidade de representantes de setores que, por exemplo, consideram que Lula não pode ser presidente porque não tem o português das elites.

Reproduzo as palavras do professor Fábio Konder Comparato em conversa que tivemos esta semana: “A verdadeira esquerda é aquela que se liga indissoluvelmente aos pobres, aos humilhados e aos oprimidos. E é por isso que quando surge uma figura como o Lula, que está longe de ser perfeito, longe de ser socialista, mas que tem sensibilidade pelo pobre e que fala a linguagem do pobre, ele é não só acolhido como é também venerado. E isso irrita profundamente a direita e a esquerda”.

Recordo-me também de certa vez em que nos manifestávamos pela saída de uma professora da Escola de Comunicações e Artes. A pressão era o caminho viável contra uma reunião em que a Representação Discente era indubitavelmente pequena (um aluno para seis docentes). Fomos, então, pedir a um integrante da Atlética da ECA que nos emprestasse os instrumentos da bateria para que pudéssemos fazer barulho e, portanto, pressionar. Ele lamentou não poder emprestar com uma explicação tão simples quanto esdrúxula: os instrumentos não eram políticos.

Pois sim, cada instrumento nasce com sua vocação. Há aqueles que são políticos, há os que não são. Na fábrica, há um operário encarregado de examinar a vocação de cada um deles. Será que cada um recebe um adesivo ou, melhor, um carimbo dizendo se a vocação é escola de samba, orquestra, fanfarra ou manifestação política?

Só espero que não venham me dizer que há “homens que são animais políticos e outros que não são, ¿qué hacer?” –joão peres (cc)

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